‘The Big Short’


Feliz ou infelizmente, as palavras “mercados”, “bancos”, “obrigações”, “juros” ou “dívida” têm estado bastante presentes no dia-a-dia de todos os que não vivem debaixo de uma qualquer pedra. A realidade portuguesa e europeia (mundial?) tem propiciado discussões e conversas de café entre os mais leigos na matéria, com argumentos apresentados, de parte a parte, com a mesma confiança de um expert de Wall Street. No entanto, não é difícil admitir que os pormenores técnicos e os desenvolvimentos dos mercados são questões que passam ao lado da maioria das pessoas. Pelo menos até que achemos que isso nos está a tirar dinheiro do bolso.

Neste caso, os bolsos até são os dos cidadãos norte-americanos. A crise do mercado imobiliário atingiu os EUA como um qualquer tornado dos que tantas vezes ouvimos falar, mas a cobertura feita pelos media não terá tido a dimensão que acontecimento merecia. Aconteceu tão rápido como esses mesmos tornados e, como tantos afectados por estes, muitos serão os que ainda hoje não perceberam o que os atingiu. The Big Short é, nem que seja por isso, uma tentativa admirável de tornar compreensível para os mais leigos este mundo complexo com milhões de números e tendências mais ou menos imprevisíveis.

É exactamente sobre uma previsão que se debruça a narrativa adaptada por Adam McKay do livro de Michael Lewis. Michael Burry (Christian Bale) é o primeiro a perceber que há uma bolha prestes a rebentar e decide, literalmente, investir nesta ideia tudo o que é e não é seu. Jared Vennette (Ryan Gosling), que assume a narração que nos guia durante todo o filme, é um dos primeiros a acreditar que as movimentações de Burry, que aposta sucessivamente contra o mercado imobiliário, podem ser mais geniais do que loucas. Vennette acaba por vender a mesma ideia a Mark Baum (Steve Carrel) e à sua equipa, enquanto os jovens Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), com a ajuda do seu “mentor” Ben Rickert (Brad Pitt), se juntam à lista de pessoas que vão tentar fazer dinheiro com o crash que afectou milhões de famílias norte-americanas. A partir daqui, acompanhamos os detalhes da longa espera que enfrentam todos aqueles que anseiam pelo rebentar da bolha para que possam encher os seus bolsos de dólares.

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É também a partir deste momento que começam a surgir na cabeça de muitos de nós as questões morais que isto envolve. O facto de acompanharmos de forma (minimamente) cómica estes chico-espertos que contam os dias até que possam festejar os seus lucros faz com que quase os ilibemos de toda a situação. Se é verdade que os seus papéis não poderiam ter sido muito diferentes, também é verdade que em praticamente nenhum momento há o mínimo sentido humanitário no meio desta guerra pelos dólares. Quer dizer, em nenhum momento até aos minutos finais, em que somos finalmente brindados com o lado consciente da história, maioritariamente ilustrada pela batalha interior interpretada por Steve Carrel. Forçadinho, no mínimo.

Mas antes que o exercício de Adam McKay pareça um absoluta perda de tempo, convém dizer que a forma simplista como tenta explicar-nos conceitos económicos com recurso a figuras como Margot Robbie nua, numa banheira de espuma, ou Anthony Bourdain, enquanto prepara um prato de peixe, deve ser louvada. Para além disso, Christian Bale, como seria expectável, sobressai no meio de tantos nomes conhecidos, enquanto ouve calmamente Mastodon no seu gabinete. E outra das coisas que sobressai é a excelente edição, que ficou ao cargo de Hank Corwin. A dinâmica que consegue incutir na narrativa chega a juntar-se a Steve Carrel como elemento capaz de nos fazer sentir como se estivéssemos num episódio de The Office.

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Nem todos acabarão o filme com total compreensão do que realmente aconteceu naquele que foi um dos episódios mais marcantes da história de Wall Street, mas o esforço de McKay em fazê-lo recorrendo a figuras relevantes no meio de Hollywood, mostra que quis que esta fosse uma história conhecida pelo maior número de pessoas possível. Quanto à forma e ao ponto de vista com que o fez, o critério e a moral de cada um serão o barómetro de avaliação deste que, apesar de tudo, terá que ser visto como um dos bons filmes do ano.