O que aprendemos com a ‘Terapia’?


O conceito não é novo. Um terapeuta, dois décors, quatro sessões por semana e um dia de aconselhamento com um especialista amigo. Podia esgotar-se aí o mito da originalidade da nova série da RTP, produzida pela SP Televisão, mas não é o caso.

Partindo de João Tordo, Mário Cunha e Mafalda Ferreira, Terapia tem estado a tomar os lares portugueses com surpreendente determinação. 200 mil espetadores acompanham diariamente, não só através dos ecrãs mas também da app RTP Play, as consultas de Mário Magalhães (Virgílio Castelo).  A crítica, também ela, tem feito os devidos elogios.

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Filmada com uma linguagem cinematográfica (foi a primeira vez que André Szankowski, diretor de fotografia, trabalhou em televisão), a série baseada no original israelita joga com as noções de campo e contra-campo, usa diálogos fora do cânone tradicional e faz a ponte com a realidade do Portugal na entrada do séculoaqui os argumentistas levam a melhor, não só por terem respeitado as preciosidades do texto base, mas também por trazerem alguma da sua bagagem consigo. A personagem de Alexandre (Nuno Lopes), desenhada quase de raiz, traça um diagnóstico atual e incisivo dos bairros sociais, medicina e forças de autoridade em Portugal.

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Coordenado por Cristina Carvalhal e Sara Carinhas, o elenco beneficia do ensaio prévio e cuidado extra na supervisão do guião. Os gestos, soundbites e elementos visuais assumem na Terapia uma lógica de continuidade. Cada pormenor é ensaiado e alavanca-se como um propósito para os episódios seguintes. A regra básica de dar 2+2 ao espetador, ao invés do 4, conhecido das telenovelas e projetos pré-Daniel Deusdado e Nuno Artur Silva, parece ter vindo para ficar. Falhando em pequenos pormenores — como a insípida comédia tradicional D.D.T (Donos Disto Tudo), que eventualmente o tempo e o bom gosto esquecerão —, a nova direção de conteúdos tem ganho na polarização das produtoras e géneros, lavando a cara a produtos antigos e trazendo novidades certeiras, próximas do que os Millenials e Generation X procuram dentro e fora do cabo —  Last Week Tonight with John Oliver, Números do Dinheiro ou Central Parque, exibidos na RTP 3, são exemplos óbvios desta tendência.

Poder-se-á eventualmente questionar a legitimidade da decisão do canal em comprar uma série protagonizada pelo seu responsável de ficção (Virgílio Castelo é, desde Abril do ano passado, o coordenador de todas as decisões que envolvam elencos ou conteúdos ficcionais), no entanto, não deixam de ser notórios o talento e aptidão de Castelo para o papel em causa. Com nota cinco, o actor deixa-nos indiferentes a jogos de poder; as mais de quatro décadas de experiência tornam-no eficaz, familiar e virtuoso. E o que quer o público jovem, conhecedor e avaliador de conteúdos, que não um actor de topo?

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Para além de Terapia, chegarão em breve Aqui Tão Longe — uma viagem do argumentista Filipe Homem Fonseca pelo mundo das famílias lusas, com especial enfoque na questão do terrorismo; Dentro — relatos do dia-a-dia de uma prisão feminina, com uma visão aportuguesada e diferente de Orange Is The New Black —, e Os Boys, uma série de humor sobre os bastidores da política, escrita a quatro mãos por Mário Botequilha e Vitor Elias .

Será este o futuro da produção televisiva nacional? Um modelo neotradiconal que agrega conteúdos online e os disponibiliza horas depois no canal? Só a qualidade dos guiões, elencos e fotografia o dirá. Até agora, Terapia parece-nos um óbvio e belíssimo tiro de partida.