“Duvido que haja algum Primeiro-Ministro europeu que tenha um mapa mundo no seu gabinete”


Entrevista Bernardo Pires Lima

A conversa, que decorre no Mercado de Campo Ourique, alonga-se; houve muito a acontecer nos últimos meses, sobretudo com os ataques de Novembro passado. Sem restrições, procura-se tratar, com o detalhe possível, um ano de tragédia, controlo securitário e indefinição política.

 

Assistimos, depois dos ataques do Charlie Hebdo, a fenómenos tão díspares quanto a crise dos refugiados em solo europeu, a renomeação do ISIS para Daesh ou o crescimento de popularidade do fenómeno You-Know-Who com base em argumentos xenófobos e racistas. É legítimo dizer que o quadro está mais negro desde Janeiro do ano passado?

Eu percebo que haja uma certa descoberta desses fenómenos a partir do Charlie Hebdo e dos ataques de Novembro em Paris, mas é sabido na Europa, em vários circuitos, sejam eles políticos ou da especialidade, que desde o verão de 2013 a preocupação com os recrutados nas capitais europeias subiu em vários países, ao nível dos conselhos de ministros, sobretudo na França, Alemanha, Reino Unido, Itália, Suécia ou Áustria. Não é um fenómeno novo; toda a gente estava a acompanhá-lo, mas sem grandes instrumentos para atuar, quer preventivamente, quer ao nível das fontes. São questões que podem ter surpreendido o senso comum e talvez aproximado guerras longínquas, aparentemente exóticas, das nossas capitais. A haver uma grande alteração, é a consciencialização do encurtamento da distância das ameaças e da sua longevidade. Quanto ao resto, acho que não há novidades em relação ao que significa o terrorismo islâmico na Síria, no Iraque ou na Líbia.

Há mais de 2 anos que vens alertando para as consequências de um eventual fluxo migratório de refugiados. Crês que a percepção de que essas pessoas podem realmente chegar ao continente europeu ajudou a polarizar as opiniões? Pode o fenómeno You-Know-Who ser uma consequência direta desta nova realidade?

Não valorizo muito o He-Who-Must-Not-Be-Named, não só pelas parvoíces que diz, mas porque acho que é um epifenómeno na política americana e que o Partido Republicano irá, durante o processo que agora se vai iniciar com as Primárias, encostá-lo às cordas, no sentido em que os candidatos do establishment se irão verdadeiramente impor. De qualquer das maneiras, acho que a situação dos refugiados pode ter ajudado ao clique na sensibilização, porque traz uma lógica humana e não militarista. Mais guerra é excesso de informação; vemos desgraça atrás desgraça na comunicação social e acabamos por não digerir as tragédias. É apenas e só mais uma matança, mais uma bomba a explodir. Quando vemos crianças em botes nas nossas praias, aí sim as coisas são diferentes. Torna-se tudo mais compreensivo, porque paramos para pensar o que está a montante e a jusante. Os comportamentos dos políticos, os comportamentos dos traficantes… Tudo isso contraria a nossa periferia geográfica e mental. A minha luta é essa, debelar a periferia europeia, focando-me noutra geografia, como a do Atlântico, em que o nosso país acaba por ser muito central.

Quando vemos crianças em botes nas nossas praias, aí sim as coisas são diferentes. Torna-se tudo mais compreensivo, porque paramos para pensar o que está a montante e a jusante.

O teu texto que inicia o Síria Em Pedaços (com o título “Nós e os Outros”) diz que “os portugueses têm opiniões, e aliás muito sensatas (…)” sobre as relações internacionais. No entanto, vimos no ano que passou algumas intervenções menos informadas sobre a questão dos refugiados…

Todas as reações de medo são perfeitamente naturais. A escala portuguesa é que não justifica qualquer tipo de receio, sobretudo quando olhamos para o número de refugiados que pode realmente chegar ao nosso país. Acho as reações às entrevistas de refugiadas tapadas perfeitamente compreensíveis, tanto as que criticam — e eu acho que há legitimidade para criticar — como as que aceitam. Não tem de haver um pensamento monolítico. Desde que não se extravase isso para uma manipulação política ou se incendeiem massas para opor violentamente a pessoas que não têm nada na vida. Acho perfeitamente legítimo, em cenário de democracia, haver pessoas dos dois lados da barricada. Eu também me sinto de certa maneira incomodado quando alguém oriundo de outra cultura, sobretudo as mulheres, vem para o meu país e adota uma desvalorização da condição humana, tapando-se. Acredito, que com o tempo, uma mulher que chegue ao nosso país perceba que há mais vida para além do nicabe e da burca. Não vejo que tenha de ser tudo forçado, tudo pela lei. Não gosto de viver num país desses. Gosto de viver num país em que as coisas têm um certo ritmo de compreensão, quer da nossa parte, quer da parte do outro. Portugal é tolerante. Pode haver nichos e bolsas, mas não nos caracterizo como xenófobos, intolerantes, racistas ou o que quer que seja.

Não tem de haver um pensamento monolítico. Desde que não se extravase isso para uma manipulação política ou se incendeiem massas para opor violentamente a pessoas que não têm nada na vida.

Escreves no Síria Em Pedaços que: “Houve cidades cercadas por mais de dois anos (…) regressaram a poliomielite e a tuberculose, espalharam-se a difteria, a hepatite e a leishmaniose”. Tens em crer que os fenómenos Je Suis Charlie e Pray for Paris ajudaram a olvidar a narrativa do sofrimento dos muçulmanos e fizeram de nós as vítimas do Daesh e do terrorismo islâmico?

Pelo contrário. Acho que esses fenómenos aproximaram as vítimas da região às vítimas europeias, com uma diferença de escala. 300 mil mortos civis não se podem comparar a 12 jornalistas do Charlie Hebdo. Não se pode comparar 1 milhão de deslocados à força, que vieram para a Europa em 2015, com 4 milhões encafuados em campos de refugiados na região. Nós é que achamos que receber 1000 sírios em desespero — sobretudo crianças e idosos — é um ataque à nossa civilização. Isto diz mais da nossa “doença” do que da “doença” deles. Quando vemos 5 mil acampados em Calais, percebemos que 5 mil em 6 ou 7 milhões de imigrantes recebidos nos últimos 4 anos são uma migalha. É ridículo. Acho que esta vaga migratória nos ajudou a aproximar da realidade do Médio Oriente, basta ver pela proliferação de obras literárias sobre o terrorismo, o ISIS, etc… As editoras estão a traduzir livros que lá fora são best sellers sobre a matéria, coisa que há uns anos não acontecia. Tudo isso reflete o interesse do cidadão comum; queremos ler mais, saber mais, ter mais informação.

Tens feito uma leitura crítica da posição dos Estados Unidos da América em relação ao conflito sírio. Pode dizer-se, com as devidas salvaguardas, e olhando em específico para o foco do Presidente americano (que parece ter como prioridade a política interna, sobretudo o controlo de armas), que os mandatos de Obama foram um falhanço no que toca às relações internacionais?

Nem por isso. Tenho sido crítico quando acho que devo ser crítico e elogioso quando acho que devo ser elogioso. Não sou militante de ninguém; procuro ser objetivo e estar perfeitamente livre para opinar. Vivi nos Estados Unidos, por isso estou perfeitamente à vontade para gostar das coisas boas da América e para não gostar das coisas más da América. Acho que a presidência dele [Obama] é uma presidência ingrata, pela herança que tinha, a nível económico, de prestígio, de convulsão política, social e financeira. Acho que ele esteve bem em todas essas frentes. A Presidência, na minha opinião, não é o órgão mais importante do sistema americano; o Congresso é muito mais relevante, mas ele soube estancar o pânico financeiro, inverteu o ciclo económico, aprovou reformas absolutamente estruturais à dignidade humana, como o sistema de saúde…

Falamos, pois, de política interna…

A prioridade era arrumar a casa para poder regressar a determinados palcos cirúrgicos internacionais com outra força e outra influência. E isso, de certa maneira, foi conseguido, a meu ver, em dois ou três dossiês que não estão medidos no curto prazo, mas que são muito importantes. Um deles é a relação com o Irão, outro é a relação com Cuba, a relação com a Birmânia e também a relação com a China. Esta última foi particularmente colaborante; não entrou em despiques — a administração chinesa também evitou esse caminho —, e isso viu-se em particular no ano de 2008, quando, no pico da crise, a China ajudou a acalmar o mercado americano, não se envolvendo destrutivamente e não alimentando o pânico financeiro, quando tinha alguma preponderância, em particular no que aos títulos do Tesouro diz respeito. Ele tem tentado, com algum sucesso — e por isso eu não sou assim tão crítico em relação à política externa — reposicionar os Estados Unidos, só que com uma grande humildade. O Obama reconhece, desde a primeira hora, que a América sozinha não é capaz de fazer tudo, nem de influenciar positivamente todas as regiões. Julgo que essa é uma grande lição, porque os presidentes anteriores — inclusivamente Clinton — tinham uma maneira bastante mais impositiva de olhar a geopolítica; viam o papel dos Estados Unidos como absolutamente fundamental em todas as questões internacionais, independentemente de ter seguidores ou não. Ninguém tem uma varinha mágica para resolver a crise síria. É uma questão muitíssimo difícil de estabilizar, quanto mais de resolver. Ele tem feito aquilo que pode. É impensável que, depois de 13 anos de guerra no Afeganistão e outros tantos no Iraque, ele fosse o primeiro a invadir com 150 mil tropas a Síria e de lá não saísse. Temos de ter alguma cautela e senso de perspetiva sobre o que vem de trás — a sensibilidade dos vários eleitorados democratas, as prioridades da administração em termos de economia — e perceber a hierarquia dos fatores. Não vejo como um falhanço. Ele é um grande político; talvez as expectativas que criámos em 2008 fossem completamente exageradas para aquilo que é humanamente possível, sobretudo quando se trata de um chefe de estado com tantas condicionantes internas e externas. Como nunca tive esse raciocínio, sempre o coloquei numa perspetiva muito realista. Talvez seja até o único que não está desiludido com a presidência dele.

Ninguém tem uma varinha mágica para resolver a crise síria.

Parece faltar, para além das negociações com o Irão ou com a China, um acordo alargado com Putin sobre a Síria. Houve margem para consenso entre os dois líderes depois da neutralização do avião civil russo no Egipto e dos ataques de Novembro, ou estamos longe de firmar algum pacto sólido?

O Obama tem uma visão de não confronto com as grandes potências. Logo nos primeiros meses da sua presidência, tentou estabelecer uma série de pontes, ao nível do discurso e das visitas de Estado, que estendessem as relações bilaterais, isto com o Medvedev. A relação corria bem, o Medvedev esteve na Cimeira da Nato em Lisboa, houve documentos comuns aprovados, o escudo antimíssil na europa estava a ser negociado em conjunto… Havia ali uma série de frentes de resfriamento da tensão. Depois, o que se altera é o comportamento agressivo na tomada de posse de Putin, que tem sempre uma visão muito interessante sobre o aproveitamento da tensão internacional para se popularizar internamente. O dilema russo pós-soviético é que a Rússia deixa de ter relevância internacional quando a América deixa de falar dela. Obama, apesar de tudo, decidiu não entrar em confronto com ele; o senhor Kerry continua a gerir diplomaticamente a pasta da Ucrânia, têm alguns pontos de convergência no Médio Oriente, mas é sempre uma relação desconfiada e passo-a-passo. Depois há outras dimensões que podem ser criticadas, como a escassa presença da administração Obama nos debates europeus — e essa acho sim mais grave —, onde se podia encontrar um meio termo entre a posição do norte e sul europeu. O clique com a Rússia está ser feito, mas não é um clique total, é um clique tático que é feito em função de uma ameaça comum. Os interesses estratégicos é que não são comuns. Não é do interesse americano que a Rússia tenha uma preponderância política e militar no Médio Oriente. Pode ser o preço a pagar por derrotar o ISIS e a Al-qaeda na Síria e no Iraque. A minha perspetiva é que, a médio prazo, o Medio Oriente possa ser mais importante para a Rússia e para a China do que para os Estados Unidos, por uma série de razões, sobretudo as energéticas. De qualquer das maneiras, o comércio internacional faz-se por mar e ainda não há ninguém que garanta a livre-circulação a não ser os Estados Unidos, e isso é bom sobretudo para a China, que beneficia pelo facto de a América possibilitar que as trocas livres ocorram entre os oceanos Índico e Pacífico. Essa mudança é muito importante.

Depois, o que se altera é o comportamento agressivo na tomada de posse de Putin, que tem sempre uma visão muito interessante sobre o aproveitamento da tensão internacional para se popularizar internamente.

Em França, a Frente Nacional, apesar de na primeira volta das eleições regionais ter liderado em 6 das 13 regiões, acabou por sair derrotada, não vencendo em nenhuma delas. Continuas a achar que nas presidenciais, dado o contexto dos ataques de Novembro, Marine Le Pen poderá sair vencedora?

A Frente Nacional cresceu antes das regionais e vai continuar a crescer depois das regionais, o sistema eleitoral é que não transfere popularidade no voto para representatividade nos vários escalões do Estado francês. As presidenciais até podem correr muito bem à primeira volta mas depois a senhora Le Pen falhar à segunda. O sistema forma coligações anti-Frente Nacional ou anti-extrema-esquerda, protegendo os partidos do centro. De qualquer das maneiras, o enraizamento da mensagem alargada à esquerda e à direita vai manter-se. A Marine Le Pen vai ganhando popularidade, como outras lideranças europeias, seja em Moscovo, seja em Ancara, em Varsóvia, na Hungria… O mesmo acontece com partidos que hoje têm 7 e 8% dos votos, mas que vão ganhando redes de financiamento — as internacionais-socialista do PPE não existem só para o centro-esquerda e para o centro-direita pró-integração. Há outras redes em marcha, e Moscovo está-se a tornar numa plataforma de angariação, de media training, patrocínio financeiro e networking para estes partidos todos. O dado mais interessante é não só olhar para a Frente Nacional Francesa, mas sim compreender este fenómeno como uma realidade pan-europeia, alicerçada em matérias que alimentam o extremismo e que vêm do Norte de África, como uma realidade que nasce da fraqueza das lideranças na gestão de vários dossiês e da intromissão de Moscovo nos assuntos europeus, seja por via da Ucrânia, seja por via do sistema de partidos. Esse é que é o dado novo, que aliás vai ser a peça central do meu novo livro [editado pela Tinta da China ainda este ano, depois de “Portugal e a Ascensão do Atlântico”, a sair em Abril próximo pela Fundação Francisco Manuel dos Santos].

Há outras redes em marcha, e Moscovo está-se a tornar numa plataforma de angariação, de media training, patrocínio financeiro e networking para estes partidos todos.

Em Janeiro de 2015 definiste Sarkozy, Valls e Le Pen como os três grandes players da política francesa. Mantém-se a tua opinião? O que é que os dois primeiros podem fazer para travar essa ascensão da extrema-direita?

Hoje há mais players. Não é líquido que Valls seja um player, não é líquido que Hollande não seja um player, mas é líquido que o François Fillon e o Alain Juppé querem ganhar a Sarkozy nas primárias do Partido Republicano. Na altura falei nesses três, porque me pareciam os mais evidentes num estado mais alto da hierarquia política, mas há muita concorrência. Na primeira volta, dou de barato que Le Pen ganhe, na segunda acho que pode repetir-se o que aconteceu nas regionais e já tinha acontecido em 2002 na segunda volta entre o [Jean-Marie] Le Pen e o Chirac, em que o Partido Socialista entregou os seus votos e fez apelo ao voto no Chirac por uma questão de regime. São o fim ou a manutenção europeia que estão em causa. A chegada ao poder da senhora Le Pen é, na minha opinião, o fim da União Europeia. Não é o fim formal, mas sim o eclipse do modelo de puzzle europeu; eventualmente o fim do período de paz que vivemos nos últimos 70 anos.

Como é que avalias a ação de Hollande após os atentados de Janeiro e de Novembro? Esteve bem na invocação do artigo 42.7 e no encerramento temporário do espaço Schengen?

Penso que ele tem sido melhor no plano externo do que no plano  interno. Os ataques de Janeiro e Novembro ajudaram a ligar essas duas dimensões. Ou seja, uma ameaça teoricamente externa tornou-se uma ameaça interna, podendo ele emergir no plano nacional com os feitos da sua ação a nível de política externa. Não sou um grande fã da presidência Hollande, mas ele conseguiu surpreender-me ao nível das relações internacionais e de segurança interna; foi fiel quanto à condução dos assuntos externos que tem mantido. Dentro dessa perspetiva, também tem um Primeiro Ministro que, quando era Ministro do Interior, se aproximou muito da direita e que é muito pragmático. Há agora um mercado eleitoral em que toda a gente se concentra nas questões da segurança; a Le Pen tem posições mais radicais, enquanto eles [Sarkozy e Valls] vão tentando conciliar o momento — que pede medidas mais securitárias — com a sua base eleitoral, uma mais conservadora e outra mais centrista, talvez até próxima do centro esquerda.

França esteve bem nos bombardeamentos a Raqqa nos dias seguintes ao ataque no Bataclan?

A resposta tinha de ser dada. Não se percebeu por que razão é que a precisão dos ataques não podia ter sido usada antes, quando toda a gente sabia onde eram os quartéis generais e onde estava a ocorrer a implantação territorial do ISIS. Tudo isso foi uma surpresa para mim. Parece-me que se gasta muito dinheiro em missões que não têm os resultados que era suposto terem tido. Talvez a emoção após os ataques tenha justificado uma maior precisão, porque a administração francesa precisava de mostrar resultados à sua população. Os custos da intervenção aérea na Síria são muito discutíveis. As coisas no Iraque são um bocadinho diferentes, até porque o exército iraquiano tem uma presença maior do que o exército sírio, e as forças iranianas trabalham de outra forma no terreno, como ainda não conseguem fazer na Síria, mas nos próximos tempos hão de trabalhar de certeza.

Deve-se relativizar, face à hegemonia do Daesh, a reconquista de cidades importantes como Sinjar ou Ramadi por parte do exército iraquiano?

São cidades estratégicas. Não é por acaso que, na Síria e no Iraque, a ocupação do território se faz toda à volta do Tigre e do Eufrates, porque é aí que estão as barragens. Controlando barragens, controla-se a água, o acesso à agricultura, às vias de comunicação — que normalmente são estradas contíguas aos rios… A geografia é verdadeiramente importante para esta gente, eles olham muito para os mapas, ao contrário dos ocidentais. Duvido que haja algum Primeiro Ministro europeu que tenha um mapa mundo no seu gabinete. Acho que são conquistas importantes. Com isto não estou a dizer que podem conquistar algumas cidades mais pequenas mesmo perdendo outras. Este jogo é um jogo de paciência; tem uma dimensão militar muito grande. Eles [ISIS] são um proto-exército muito pequeno, muito profissional, com muita gente a comandar que vinha do exército do Saddam Hussein, o que lhes dá grande rigor. Essa dimensão militar tem de estar em cima da mesa; a parte do recrutamento não obedece a uma dimensão militar, mas sim ideológica. E essa parte está por cumprir. No caso do Iraque, há outras vantagens, porque a legitimação da missão foi dada muito mais cedo, quando Bagdad estava quase sob cerco. A Síria não podia pedir auxílio porque a comunidade internacional queria o fim do regime. Mais tarde, faz um pedido externo à Rússia, a Rússia intervém imediatamente, ainda no calor dos acontecimentos de Paris, e inverte os termos da saída do Assad, que passa a ser relativamente aceite; um aliado oficioso, sem que pudesse ser descrito nesses termos em Paris e em Washington, que aliás estão já a transformar o seu discurso. Não houve como travar este ímpeto de Moscovo. Nos think tanks em Washington já se diz que é preciso voltar a estudar a Rússia como no tempo da Guerra Fria. Desvalorizou-se muito a Rússia nos últimos 20 anos, há muito pouca gente a falar russo nos Estados Unidos, os estudos russos caíram em desuso nas universidades… É preciso recuperar essa tradição, porque o revisionismo russo obriga a que se tenha uma abordagem diferente não só nas academias, mas também nos serviços de informação.

Não houve como travar este ímpeto de Moscovo. Nos think tanks em Washington já se diz que é preciso voltar a estudar a Rússia como no tempo da Guerra Fria.

O “nosso amigo Assad” de que falas no livro é então agora o nosso BFF Assad?

Não, nem acho que seja para a Rússia. Se na concertação internacional, a Rússia vir vantagem em substituir Assad, numa fase posterior, por outro que garanta igualmente os seus interesses na costa ocidental da Síria, com acesso ao Mediterrâneo, então deixará cair Assad. Neste momento, a sua permanência é aquilo que nos dá garantia de que aquela faixa ocidental não vai ser ocupada nem pela Al-qaeda nem pelo ISIS. Toda a gente já percebeu que é este o raciocínio correto. Numa primeira fase engolimos o sapo Assad, mas depois mudamos, e aí pode surgir uma figura do sector militar para o substituir, mas acho que ainda não estamos assim tão avançados nessa questão quanto isso.

Tem sido possível, na tua ótica de investigador, prever com maior coerência o que acontecerá no futuro em relação à realidade internacional? Lembro-me de dizeres que “seguramente França ou outras sociedades poderão vir a ter mais um atentado em breve”, isto depois do ataque ao Charlie Hebdo…

Acho que o Síria em Pedaços teve maior coerência do que incoerência, no sentido em que acertou mais do que falhou. O analista não deve tentar prever; esse não é o exercício mais interessante na minha profissão, mas sim o de pelo menos levantar sinais que podem indicar um determinado rumo, sobretudo porque não consigo prever quando é que vai haver um ataque, caso contrário vendia as minhas informações aos serviços de intelligence e já estava milionário [risos]. Acho que os serviços de informação e as polícias europeias estão hoje mais preparados do que há dez anos. É claro que nunca estão suficientemente preparados nem nunca vão estar, porque é impossível acompanhar, em termos de recursos, todos os cidadãos monitorizados, todas as listagens de possíveis bombistas suicidas ou tresloucados que pegam numa kalashnikov. Nesse ponto de vista, o terrorismo vai estar sempre um passo à frente, e é preciso aceitar essa realidade. O que é possível é esvaziar a agenda ideológica, minar os canais de financiamento e recursos humanos e mirrar a rede, que funciona como uma espécie de esponja. Cada ataque com sucesso atrai mais praticantes à causa, e aí a esponja vai enchendo. Quando se deu o 11 de Setembro, a esponja tornou-se mais empapada; ao longo dos anos foi esmifrando e aumentando. O ISIS é a mesma coisa: tem uma esponja muito alargada no Médio Oriente, vai largando umas gotas aqui na Europa ou na Ásia Central, e temos de a enxaguar, tirar o sumo e a água que possa sobrar. Se possível, devemos até tirar a esponja; ou seja, derrotá-la militarmente. Tal como um tresloucado pode pegar numa arma nos Estados Unidos e matar uma escola inteira, comprando armas de alto calibre na Internet e radicalizando-se obscuramente, também a radicalização ideológica, e não psíquica, se faz da mesma maneira, através de canais que desconhecemos. A questão é que este último tem uma dimensão mais geopolítica, e acho que essa dimensão foi sempre desvalorizada no ocidente; não compreendemos bem o facto de este terrorismo ter uma agenda política e manipular a religião em função dessa agenda, coisa que não acontece com um tresloucado psiquiátrico.

É impossível acompanhar, em termos de recursos, todos os cidadãos monitorizados, todas as listagens de possíveis bombistas suicidas ou tresloucados que pegam numa kalashnikov.

A capa da edição especial do Charlie Hebdo — que marca um ano dos atentados — traz na capa a imagem de Deus, enquanto figura mais abrangente, e não a representação de líderes ou figuras religiosas do mundo islâmico. Esta decisão pode ter partido do medo da redação? O assassino, como se escreve na capa, “continua à solta”?

Acho que [o Charlie Hebdo] quis referir-se a uma coisa mais ampla e sinalizar o facto de a religião ser muitas vezes manipulada através da violência com fins políticos, seja ela qual for. Quis, como dizia o Hitchens — apesar de ele não o dizer nestes termos — ajudar a “despolitizar a religião” e a descaracterizar a sociedade de uma índole religiosa. O assassino está cada vez mais à solta, cada vez mais disperso e cada vez mais difícil de monitorizar; se fosse fácil monitorizar, Novembro não tinha acontecido em Paris e outros não virão a acontecer noutras capitais europeias e do mundo. Mais uma vez, as principais vítimas são os muçulmanos; são eles que mais morrem às mãos do terrorismo, e portanto é preciso relativizarmos o facto de sermos o primeiro alvo a abater, o que não é, de todo, verdade.

Continuamos todos Charlie?

Nunca fomos todos Charlie, nem no dia a seguir. Não continuamos a ser, e temo que haja cada vez mais políticos no ocidente, como se vê em vários estados, a querer controlar a liberdade de expressão, de informação e do sarcasmo, cujos limites estão consagrados na lei. Quem se sentir ofendido com eles, tem sempre esse expediente a que pode recorrer, pelo que as armas não são nem podem ser a solução. 

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