Os Mutantes no Armazém F. Quem sabe não esquece


Armazém F

Certamente não será todos os dias que se tem a oportunidade de assistir a um concerto de uma banda que foi formada há praticamente meio século. Ainda mais quando a banda em questão é, concretamente falando, um dos conjuntos mais venerados e influentes da história do rock psicadélico no geral e da música brasileira em particular. Pioneiros na arte do experimentalismo, vanguardistas do movimento tropicalista e autênticos animais de palco nos seus tempos dourados, Os Mutantes vieram a Portugal dar um concerto memorável perante uma calorosa plateia que acorreu em peso ao Armazém F no último dia de Novembro.


Depois de terem vencido o concurso organizado pela Tradiio, deixando assim para trás outros finalistas de renome como Bruno Pernadas ou Savanna, coube aos portugueses Ganso abrir as hostes da noite, e o grupo de rock progressivo/psicadélico não o fez por menos. Divertidos, entrosados e com um look arrojado de típica rock star dos anos 70, os cinco amigos lisboetas apresentaram seu EP de estreia, Costela Ofendida, mostrando que há vida e futuro para o rock português. Numa performance de pouco mais de meia hora que não só cumpriu como intrigou, saíram de palco sob fortes aplausos, não sem deixar uma palavra de apreço à banda brasileira, para a qual abrir o concerto foi “uma grande honra”.

osmutantesarmazemf_02

Estava visto que a noite era dedicada aos ritmos mais quentes e tresloucados vindos do Brasil, o que se notava de forma visível no público que aguardava, ansioso, a chegada de Sérgio Dias e dos seus parceiros de palco. Único membro do alinhamento original ainda em actividade, o guitarrista fez-se acompanhar por Henrique Peters nas teclas, Vinicius Junqueira no baixo, Cláudio Tcherne na bateria e Esmeria Bulgari nos backvocals. “Aquilo que agora vai acontecer… é que nós vamos tocar umas músicas para vocês” atirou o histórico guitarrista em jeito de boas-vindas, recebido com fortes aplausos do público português. E assim foi, primeiro com “Technicolor”, seguida de “Virginia, Jardim Elétrico” – com direito a potente solo de bateria – e a clássica “Minha Menina”, cantada a meias entre Sérgio e Henrique, desta feita com o teclista a destacar-se com um frenético solo. “Bat Macumba” veio logo a seguir, para deleite dos fãs que ora dançavam ora acompanhavam a banda de forma efusiva sempre que se chegava ao refrão.

osmutantesarmazemf_03

osmutantesarmazemf_04

Ouvir a banda brasileira sem a voz de Rita Lee ou a bateria de Arnaldo Batista pode soar estranho de início, é certo. Contudo, o sentimento é sol de pouca dura tal é o à vontade e a elegância com que Sérgio Dias e os restantes membros revivem os maiores clássicos d’Os Mutantes, sem com isto deixar de lhes dar o seu cunho pessoal e contemporâneo. “Acho que o mais importante” – disse-nos Henrique Peters no final do concerto – “é saber respeitar o passado deles. É saber que a magia da banda aconteceu naquela época, e que nos hoje tentamos dar continuidade a isso mas de outra forma, em que vamos também fazendo músicas novas.” Sobre a fase mais recente da banda, que lançou dois álbuns desde a reunião em 2006, Vinicius Junqueira é peremptório: “As músicas antigas são de um psicadélico mais brilhante, enquanto as actuais têm um lado mais cru, mais dark”. Em “Fool Metal Jacket” e “Time and Space”, Os Mutantes põem em evidência esse lado mais negro da banda, num rock pesado e obscuro com Sérgio Dias a cantar em inglês e num registo com ligeiros rasgos de Nick Cave.

osmutantesarmazemf_05

osmutantesarmazemf_06

Ainda que sublime de guitarra em punho, é impossível não reparar no aspecto algo débil do líder d’Os Mutantes, que chegou inclusive a deixar escapar algumas tossidelas por entre músicas. “Nós vemos a fragilidade dele e tentamos cobrir da melhor maneira possível, o que passa por equilibrar as vozes em algumas músicas de forma ao Sérgio cantar um pouco menos e não se esforçar demasiado”, explicou-nos mais tarde Henrique Peters. Depois da obrigatória “Portugal de Navio”, o lendário guitarrista agradeceu de forma humilde o apoio da plateia: “Ontem não tinha voz nenhuma mas vocês estão-me renascendo, gente. Muito obrigado!”

A idade, madrasta, até pode ter deixado as suas marcas no velho ancião do rock brasileiro, mas a perícia nas cordas e a paixão pela música mantêm-se intactas e inabaláveis, o que fez questão de demonstrar em Top Top e Balada do Louco, acompanhadas de forma irrepreensível pela voz angelical de Esmeria Bulgari. “Ai gente, dá pra levar vocês para casa?”, pede Sérgio Dias aos presentes, que não pararam de bater o pé ao som do clássico Ando Meio Desligado. Já no encore, Os Mutantes terminaram a noite em grande com Panis et Circenses, por entre sorrisos cúmplices dos músicos e longos e divertidos improvisos instrumentais, premiados com uma derradeira e barulhenta salva de palmas por parte da plateia.

osmutantesarmazemf_07

osmutantesarmazemf_08

“Há concertos onde o público começa a pular e você se começa a empolgar, mas aqui nem foi preciso nada disso, nós ficámos entusiasmados só com o olhar das pessoas mesmo”, referiu Vinicius Junqueira sobre o espectáculo. Os Mutantes podem não ser hoje aquilo que outrora foram, mas é impossível ficar indiferente às autênticas viagens psicadélicas da banda brasileira, que continua a cativar e deslumbrar como que se os pródigos anos 70 fossem já ali ao virar da esquina. “Foi mesmo muito especial”, rematou o baixista em jeito de conclusão, com a qual não podemos deixar de concordar em absoluto.

osmutantesarmazemf_09

Fotos: Mariana Valle Lima/Shifter

Previous Google patenteia seringa sem agulha
Next Assiste à aguardada curta de King Krule

Suggested Posts