Uma noite num campo de refugiados

Mais uma vez, pude reforçar a minha ideia de que a tão desenvolvida Europa não está preparada – e talvez nem queira estar – para ajudar aqueles que precisam e que nada têm para dar em troca.

campo de refugiados

Intimidante, é a primeira palavra que nos vem à cabeça quando chegamos aos subúrbios de uma pequena cidade onde se encontra um campo de refugiados. Dobova situa-se no leste da Eslovénia, junto à fronteira com a Croácia, e é um dos principais campos de refugiados onde, nos últimos tempos, a tensão devida à crise migratória se instala.

Basta chegar a poucos quilómetros do que é a fronteira entre os dois países e já se começa a sentir o ambiente hostil que por lá se vive: inúmeros carros da poljcia eslovena, soldados armados da cabeça aos pés, alguns pedestres de colete refletor ao peito e carrinhas da cruz vermelha. Alugar um carro, num país estrangeiro, e ir ao encontro de um dos epicentros, ainda que temporário, do conflito mais preocupante da atualidade não é propriamente fácil. Para entrar num destes campos como voluntário é preciso ter sorte, independentemente da vontade de ajudar, pois tudo pode ser um motivo para iniciar um motim dentro do campo ou para contrariar a organização interna das equipas que estão no local.

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Dentro do campo de Dobova são apenas permitidas, como entidades auxiliares, a polícia, o exército, a Cáritas, a Cruz Vermelha e uma organização que apenas trata de auxilio familiar chamada Restoring Family Links. O campo é constituído por duas tendas onde os refugiados passam a noite, e um armazém de tamanho considerável onde é armazenada roupa, comida e outros elementos de higiene.

Assim que chegámos ao campo, a Cáritas aceitou-nos como voluntários e deu-nos a identificação necessária para permanecer no campo durante o turno da noite. Éramos oito – alunos de Erasmus – e desde cedo nos organizámos para começar a trabalhar. Começámos por limpar uma das tendas, que estava vazia, e por distribuir colchões e cobertores. A mais viva recordação que tenho daquele momento é o cheiro, que não se assemelhava a nada que tenha sentido antes: uma mistura de excrementos com suor, fragilidades imunitárias e até com morte anunciada. Foi difícil lidar com aquilo nos primeiros minutos. O primeiro grupo de refugiados estava a chegar e, com a tenda pronta, o exército e a polícia local encarregaram-se de os dirigir para dentro dela. Sempre armados, pois a intimidação é talvez a maneira mais fácil de manter a ordem, indicavam o caminho em direção ao local onde iam pernoitar. Enquanto tudo isso acontecia, os voluntários iam montando as mesas de modo a preparar a primeira refeição de quem chegava ao campo. Leite, maçãs, água, bolachas e atum enlatado. São estes os alimentos oferecidos. Para prevenir os tais motins, o chefe da Cruz Vermelha dizia “nós não distribuímos comida, nós oferecemos comida” pois a ordem tinha de ser mantida, e qualquer tipo de comida quente – tal como sopa ou refeições mais elaboradas – não era permitido dentro do campo.

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Depois de fornecida a comida e conforto básico para sobreviver ao frio noturno, os voluntários começaram a dirigir-se para a outra tenda, onde milhares de migrantes esperavam pelos autocarros que haviam de chegar. Enquanto isso, iam pedindo de forma pessoal e gentil a certos voluntários que lhes trouxessem aquilo de que necessitavam, desde sapatos a roupa de criança. Alguns iam falando connosco, contando as suas histórias e perguntando pelas nossas. A verdade é que, desde pessoas instruídas e com cursos superiores, a trabalhadores desde sempre, crianças e idosos lá se encontravam todos concentrados num espaço que era pequeno demais para tanta gente.

Eram três da madrugada quando tudo estabilizou, mas a Cruz Vermelha continuava a dizer que em vinte minutos a situação podia mudar, mesmo que as expectativas fossem de que nada mais iria acontecer naquela noite. Alguns dos voluntários foram dormir, comer, fumar um cigarro e esperar que o primeiro raio de sol chegasse. A verdade é que numa hora tudo mudou: foram recebidas informações de que mais dois mil e seiscentos refugiados estavam a caminho do campo. Numa pressa nervosa, mesas com comida foram montadas, cobertores e roupa organizados, equipas prontas para aquele grupo que havia de chegar por volta das cinco da manhã a Dobova. E chegaram.

Durante a distribuição destes mantimentos, e com cerca 4ºC de temperatura a gelar a pele, vi idosos e jovens nas suas cadeiras de rodas, vi mães a chorar de bebés ao peito que recusavam comida, jovens que se riam de satisfação por finalmente chegarem a um dos pontos de transição da sua longa viagem, e crianças que ingenuamente se riam por receber comida e pela boa disposição das equipas. 

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É difícil ver pessoas da nossa idade, pessoas que podiam ser familiares nossos, a fugir de uma guerra e a terem de combater noutra para poder finalmente alcançar a liberdade. Desde minorias étnicas a sírios e afegãos, todos lutavam por um lugar nos pequenos autocarros que os levavam algures. Lembro-me particularmente do caso de uma mulher que chorava porque tinha perdido o marido algures naquele caótico ambiente e porque tinha sido agredida no ventre por um grupo de afegãos, estando ela grávida. A par de um senhor já com uma certa idade que perguntava quando podia sair dali pois aqueles dois dias em Dobova pareciam eternos.

Viver esta experiência faz-nos pensar que a televisão é demasiado pequena para ver o mundo e os seus defeitos, que estar no campo a ajudar dá-nos mais detalhes que um ecrã em HD e ouvir lágrimas e risos tem mais definição que um sistema surround.

Mais uma vez, pude reforçar a minha ideia de que a tão desenvolvida Europa não está preparada – e talvez nem queira estar – para ajudar aqueles que precisam e que nada têm para dar em troca. Aceitá-los é uma questão de “educação internacional” e é evitada até sentirem o problema a rebentar pelas costuras e o seu peso às costas.

É preciso acordar e ficar uma longa noite acordado.

Autor: Diogo Madruga