Gregorio Duvivier: “Quando a piada é boa, ela atravessa o oceano”


Gregorio Duvivier

Gregorio Duvivier é, sem grandes dúvidas, um dos maiores humoristas lusófonos do século XXI. A escrita cáustica, desconcertante e ultrapolitizada — que ganharam dimensão global com o colectivo Porta dos Fundos e mais tarde migraram para o jornal Folha de São Paulo — tornam-no numa pedra preciosa dos nossos tempos, equiparando-se apenas na sua acuidade a nomes como Ricardo Araújo Pereira, Bruno Nogueira e  João Quadros [de quem se fala inclusive na entrevista].

Aproveitando a sua vinda a Portugal e a passagem pelo FOLIO (Festival Internacional de Literatura de Óbidos), ficámos a conhecer mais do homem que eternizou expressões como “eitcha lelê” e “abocanha garoto” e que agora nos traz o livro Caviar é Uma Ova e a peça Uma Noite Na Lua.

 

Depois de uma semana e meia em Portugal, as qualidades dos portugueses que referes no Caviar É Uma Ova— como o facto de não usarem o telemóvel à mesa e de terem uma vida cultural bastante ativa — mantêm-se?

Sim, continuo a achar vocês mais bem educados, mais polidos e mais elegantes no trato do que os brasileiros. Nós temos uma enorme vocação para a informalidade, o que pode ser muito ruim. É claro que também tem as suas vantagens; acho que talvez o brasileiro seja mais tranquilo, tem menos arestas. Vocês discutem mais, há mais debates, e é isso que eu estou mais admirando até agora. A quantidade de debates, políticos, poéticos e literários — como é o caso do FOLIO — é incrível.

No brasil não encontrarias um festival como este? Certamente haverá algo do género…

Temos a FLIP, claro, mas a gente não vive uma cultura do debate. A gente vive uma cultura do consenso, da concordância.

Tens notado grandes diferenças entre o que faz rir os brasileiros e os portugueses?

Nesse sentido acho que é bem parecido. Eu acredito que o humor, quando ele toca em questões centrais da vida, é universal. Claro que o humor pode ser de revista — e apenas comentar os factos da semana —, mas também pode ser algo que fica, algo que fala do eterno e do humano.

Como a questão da vida e da morte?

É, exatamente. Acho que o humor pode falar melhor da morte do que qualquer outra forma de arte. O humor dá conta — não de explicar porque é inexplicável — mas de tolerá-la. Uma das coisas que mais te ajuda a tolerar a morte é o humor, e o amor também. Acho que o humor ajuda a explicar o amor e que o amor ajuda a explicar esse mistério que é a passagem pela terra. Acredito muito que o humor pode ser eterno, não só passageiro, e logo pode ser universal. Quando a piada é boa ela atravessa o oceano.

A secção de comentários do vídeo da tua passagem pelo Governo Sombra está repleta de comentários inflamados e ofensivos. Sentes que no Brasil se pode rir de tudo menos das nossas convicções?

No Brasil pode rir de quase nada, na verdade. A gente tem uma cultura com muitos tabus, sabe? O sexo é um tabu, por incrível que pareça — porque somos vistos com algum erotismo —, mas o Brasil é um país muito pouco liberado sexualmente, no sentido em que as sexualidades que não são as normativas são muito excluídas. A homossexualidade e a transexualidade são muito rechaçadas no nosso país. Além disso, você também tem uma cultura muito religiosa e muito classista. Há muitas coisas sobre as quais não se costuma rir. A questão não é que você não possa rir; se você rir você não vai preso nem nada — e a gente no Porta tem muito disso —, mas você vai certamente surpreender as pessoas.

Notaram alguma vez no Porta dos Fundos que teriam mais views se fossem menos políticos?

Sim. As pessoas reclamam, dizem para parar de fazer política e voltar ao humor; não percebem que o humor é político, que tudo é político. Essa coisa do “para de fazer política” é uma imbecilidade, porque sempre vai ser político; você não consegue fugir, então o ideal é que não deixe a política para os políticos. Se você não fizer política quem a vai fazer são os políticos, e eles são as piores pessoas para fazer política. Seria bem mais fácil para o Porta se a gente não tivesse um país tão bipartido, não teríamos de escolher um lado ou outro.

Ontem, no FOLIO, o conhecido comentador José Pacheco Pereira disse que não se consegue “sentar à mesa com um humorista para debater assuntos políticos”. Que leitura fazes destas declarações?

Acho que muita gente também se recusaria a sentar na mesma mesa do que ele, então a maioria dos humoristas não vai ver isso como uma má notícia, não.

Sentes-te de algum modo uma voz da esquerda anti-reacionária?

Sim, acho que anti-reacionária é um bom termo. Revolucionário seria um termo um pouco pretensioso, mas com certeza sou anti-reacionário. Sou muito contrário a essa onda de conservadorismo, porque a gente está vivendo um momento de transformação enorme e muito rápida. Primeiro a internet mudou tudo, depois o smartphone mudou tudo, porque é a internet ao alcance das mãos. Pode, claro, mudar para pior, perpetuando as diferenças e aumentando-as entre excluídos e incluídos, mas pode também mudar para melhor, democratizando a informação e excluindo os filtros entre o produtor de conteúdos e o espetador, como aconteceu no Porta dos Fundos.

O tabu vai acabar na era do Whatsapp e do Snapchat?

O tabu não vai cair porque a gente vive dele, faz parte da nossa vida. Acho claro que não vão acabar os tabus, mas a internet pode ajudar a combatê-los, a derrubar o proibido. A internet é uma ferramenta gigante de democracia, mas também pode ser usada para o ódio, tudo depende da gente; é como a pólvora, tanto fez a pistola como os fogos de artifício…

Que também matam algumas pessoas de vez em quando…

Tal como a pistola pode ser utilizada para fins recreativos [risos]. É o mesmo que dizer que a salada faz muito bem. Coma uma tonelada de alface a ver se você não explode, se você não morre. Tudo pode ser um veneno. O humor, tal como a internet, pode ser um veneno.

Quais são os prós e os contras de ser uma figura mediática politizada?

Quando você fala de política, você escolhe um lado, o que significa que o outro lado vai-te odiar para sempre. Não existe no Brasil um discurso do tipo “ele é de direita mas vota no PT”. É tudo muito bipartido no nosso país, como disse há pouco. Quanto mais primitiva é uma cultura, menos ela entende que as coisas não são binárias. O pensamento mais primitivo do mundo é o binário, do sim ou não, dos zeros e dos uns. Até um computador entende os zeros e uns, e nós no Brasil não passámos dessa fase. Nada é tão simples.

Como é que se reage quando quase se é agredido na via pública por fazer humor que não agrada a todos? É fácil continuar?

É bastante difícil, porque o humorista é carente. Todo o humor tem muito que ver com uma carência de afeto, porque o riso é uma descarga de afeto. Ser agredido é chato por isso, você está nessa profissão pelo contrário, para agradar, mas ao mesmo tempo o maior combustível do riso é o risco. O que faz uma piada ser engraçada é o risco que o humorista está correndo; o Groucho Marx tem uma frase boa sobre isso, ele diz que “um amador na comédia é o sujeito que acha que engraçado é botar um homem vestido de velhinha numa cadeira de rodas e empurrar ele ladeira abaixo; já o humorista profissional é aquele que sabe que só é engraçado se for feito com uma velhinha de verdade” [risos]. O humor é proporcional ao risco que está correndo. Uma piada comportada e medrosa não tem graça.

Há um limite para esse risco?

Há, claro. Acho que cada piada tem um limite. De um modo geral eu tento não rir do que as pessoas são, mas do que elas fazem; acho que essa será a forma ideal para pensar um limite do humor.

Falava mais no sentido de risco físico. A partir de que momento é que um humorista deixa de fazer uma piada? Qual a tua linha vermelha que não se deve passar?

A graça é estar empurrando essa linha o tempo todo. O humorista trabalha empurrando linhas, então eu não vejo elas como algo estável.

Já te tentaram comprar para não fazeres uma piada?

Não, isso nunca.

Mas já viste vídeos teus censurados no YouTube. É democrático fazê-lo?

Do jeito que aconteceu não acho democrático não, porque quem entrou com a moção para retirar o vídeo foi um deputado (Anthony Garotinho), que se sentiu lesado pelo vídeo, mas o objetivo era exatamente lesá-lo, até porque ele é um homem público. É muito triste como a lei protege os poderosos no Brasil. Experimente você tirar um vídeo do YouTube que você acha que te lesa, é uma burocracia gigantesca. 

Já aconteceu pedires para retirar vídeos do YouTube?

Claro, a gente tem mil pessoas que pegam vídeos do Porta e replicam eles no YouTube no seu canal, o que não seria grave se a gente não ganhasse dinheiro com os anúncios do YouTube. A gente ganha com eles, é uma ninharia, mas a gente ganha, então a gente pede para tirar esses vídeos que às vezes têm muitas visualizações. Já que a gente bota os nossos vídeos de graça, que pelo menos a gente ganhe trocadinho. É quase impossível provar que o vídeo é seu mesmo tendo outro igual, demora para o YouTube tirar; agora o deputado entrou com a ação e tirou no mesmo dia. Então como é que funciona isso?

Referias isso ontem em conversa com o escritor Francisco Bosco. No Brasil parece só se viver acima ou abaixo da lei, nunca de acordo com ela…

Exatamente. É muito difícil você ter o cumprimento da lei ponto final.

Achas que o Politicamente Incorreto do Danilo Gentili pode ter ajudado a tornar o Brasil mais democrático?

Com certeza. Acho que o humor vive muito da diferença; mesmo não concordando com nada do que o Danilo diz, acho bom que o programa dele exista, porque ele também está a empurrar as linhas vermelhas, dizendo o que pensa, por mais que eu não pense a mesma coisa do que ele. Acho fundamental que ele exista; das vozes da direita pelo menos ele é a mais bem humorada, e todos nós sabemos que o sentido de humor nem sempre é uma característica da direita.

No Caviar é Uma Ova dizes, a dado ponto, e em referência ao Charlie Hebdo, que o “indivíduo que foi fuzilado é [regra geral] o oprimido”. Sendo o humor uma arma, não pode o humorista ser o opressor?

O humorista pode sim ser um algoz, ele não é sempre a vítima, mas ali no Hebdo me revoltava porque as pessoas viam ele rindo; os ignorantes que nunca leram o Charlie Hebdo achavam que os cartoonistas estavam rindo. Achavam que o Wolinski e os outros estavam batendo no islâmico pobre emigrante, quando na verdade estavam batendo muito mais em cima, eles estavam batendo no estado islâmico, sabe? Quem matou eles foi o estado islâmico, não foi o emigrante pobre francês. Me incomodou a falta de compreensão do caso.

Choca-te que os mesmos que se disseram Charlie agora tenham criticado o jornal depois do retrato da criança síria afogada?

A maior parte das pessoas que levantou a bandeira Je Suis Charlie não costuma levantar a bandeira da liberdade de expressão nos outros dias do ano, só levantaram porque estava na moda. Tinha pessoas que sempre foram contrárias à liberdade de expressão, pessoas que processaram a gente falando Je Suis Charlie, e isso me incomoda.

Tivemos cá esse fenómeno com o João Quadros. Políticos que o processaram pelo Tubo de Ensaio depois apareceram publicamente a dizer-se Charlie.

Ai é? O João é um dos caras que mais admiro em Portugal, ele é muito inteligente, muito bom de escrita, muito sagaz..

Uma das tuas referências óbvias é o Luís Fernando Veríssimo. O que é que ele ensina a quem quer escrever crónicas?

O Veríssimo ensina que o humor é coisa séria. Os textos dele são humorísticos mas são muito bem escritos; ele é uma provocação porque as pessoas volta e meia acham que o humor está na linha oposta da literatura: ou é engraçado ou é literário. O Veríssimo casa essas duas coisas, a graça com o estilo e o cuidado. Gosto muito disso nele. É um autor impecável por isso, não tem uma frase que não seja perfeita e ao mesmo tempo engraçada. Ele tem uma percepção muito aguda do que é o ser humano.

Há um equivalente ao Veríssimo na poesia brasileira?

Sim, o [Manuel] Bandeira, mas não só. Há também o [Carlos] Drummond e o Vinicius [de Moraes]. A gente tem uma tradição no Brasil da mistura da poesia com humor — os chamados poetas marginais —, de que eu gosto muito, como a Ana Cristina César ou o Chacal. Em Portugal, claro, gosto muito da Adília Lopes e do Pessoa.

Voltando ao Caviar É Uma Ova; há no livro um ensaio chamado “Ovo” em que abordas a escrita do Saramago e do Eça. O que é que os génios portugueses trouxeram à tua literatura?

Eu sou apaixonado pelo Saramago; acho que tem um estilo bom, é fluído e próximo, você ouve cada personagem falando, é muito polifónico; o dom que ele tem de criar lugares, de criar coisas que existem é mágico. Eça de Queirós é talvez o maior romancista de língua portuguesa, ele narra e descreve muito bem. Parece que ele é influenciado pelo que de melhor existe hoje na televisão americana; essa coisa dos capítulos, da reviravolta e da tensão, de trabalhar climas, ele tem muito isso.

Aprendeste a ler esses escritores na escola ou mais tarde?

Aprendi na escola, mas sobretudo depois. A maioria das coisas li na faculdade de letras, que tinha aulas muito boas da literatura portuguesa.

Dizes que o Gato Fedorento teve grande influência em ti e no humor brasileiro. Pode-se comparar a dimensão do Porta dos Fundos em Portugal com a dos Gato no nosso Brasil? Os Gato foram realmente grandes lá fora?

Na verdade não, por uma questão de datas. O Gato Fedorento chegou numa altura em que o YouTube não era tão forte. Quando estoirou no Brasil eu tinha um DVD que copiava e dava para as pessoas, o que acaba por ser uma difusão muito mais lenta do que com o YouTube. Só por isso é que não são tão grandes; com a internet as pessoas estão a descobri-los cada vez mais.

Qual foi o humorista ou a piada que mais te surpreenderam nos últimos tempos?

Eu tenho memória ruim para piadas, mas gostei muito do Nuno Costa Santos [que por acaso estava à nossa frente] e do livro Melancómico, me identifiquei muito com ele.

Falando na tua peça Uma Noite Na Lua, há uma grande diferença entre fazer uma turnê no Brasil e em Portugal?

Há, porque o Brasil é um país gigante; você pega o avião e atravessa seis horas e não muda tanto quanto você muda em uma hora de viagem cá. Portugal é um país que, apesar de muito menor em tamanho, é muito vasto em termos de cultura. Acho um país gigante em termos de cultura e isso é muito bonito de ver, eu pelo menos fico muito emocionado.

Adaptaste de algum modo a peça para que fosse melhor compreendida pelo o público português?

Não, e isso é muito bom de ver. Não mudei nada e o público entendeu tudo, só alegria.

Quais são as diferenças entre o ator Gregorio Duvivier no Porta dos Fundos e o ator Gregorio Duvivier em Uma Noite Na Lua?

Cara, sabe que eu não vejo muita diferença não entre atuar em vídeo e atuar em palco? A diferença é que em palco tem uma troca muito prazerosa, mas acho que em termos de atuação as duas coisas pedem o mesmo: uma entrega muito verdadeira, profundamente verdadeira. A matéria do teatro é a verdade.

Esta é uma peça que pede educação?

Essa peça realmente pede educação, e por isso é que ela está indo tão bem aqui. É chato dizer isso porque parece que estou me vangloriando, mas ela está dando muito melhor do que eu imaginava até, porque eu tinha medo de perder alguma piada com a distância cultural. É uma peça que pede também atenção, e no Brasil o público é bem mais disperso. Estou há três anos e meio a fazer Uma Noite Na Lua e não consegui mudar o texto porque ele é muito poético. Se eu mudar e improvisar quebro a rima e a métrica mas também a perfeição desse texto do João Falcão.

É estranho estares a interpretar um texto escrito pelo teu ex-sogro?

Não, porque o João é mais do que um ex-sogro. Para além de ser uma sumidade no brasil, é um génio mesmo. E é um amigo também, acima de tudo.

Tens tido pessoas a chorar no final do Uma Noite Na Lua?

Tem muitas, talvez mais até do que no Brasil. As pessoas estão-se emocionando ainda mais porque vocês têm uma emoção muito presente. A poesia de vocês é muito lírica, é tão bonito. Vocês têm um humor muito poético também; ele tende para a poesia, para melancolia e para a contemplação eventualmente, o que combina muito com essa peça, que tem sim humor melancólico e às vezes até altamente depressivo.

Foste convidado pela Anabela Mota Ribeiro para fazer uma sessão de stand up poetry no FOLIO. Como correu a experiência?

Cara, a Anabela me chamou quando a gente estava num festival na Ilha da Madeira. Fomos jantar e ela falou que tinha essa ideia, isto em março, e eu na hora topei. Imagina, que delicia vir a Óbidos fazer esse espetáculo. Não tinha como negar, fiquei muito feliz com o que aconteceu.

Dizias em entrevista que nunca fizeste nada que se distanciasse a cem por cento do humor. Há a possibilidade de te vermos a interpretar algo mais dramático em breve?

Não me seduz muito não, o que eu gosto é do misto das duas coisas.

Qual foi a maior surpresa que tiveste com o Uma Noite Na Lua?

A viagem a Portugal talvez tenha sido o mais surpreendente. Ver que a peça comunica com o outro lado do oceano, isso é muito bom para um ator. Atravessar um oceano inteiro e as pessoas perceberem o que você diz? Isso é muito bonito.

Até quando vamos poder passar Uma Noite Na Lua?

Por mim a peça vai continuar eternamente, até que o público não queira ver. É de certeza ele que vai determinar isso.