Diário da fronteira VI


 
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No sexto diário da fronteira, o João Porfírio conta como os conflitos antigos entre a Sérvia e a Croácia influenciam o futuro dos milhares de refugiados que tentam fazer a travessia até à Alemanha.

O dia começou no campo de refugiados de Opatovac, campo este que foi construído pela Cruz Vermelha local. A entrada a jornalistas era proibida e assim como a captação de qualquer imagem no seu interior. De lá, os refugiados são transferidos de autocarro até Tovarnik onde são depois levados de comboio até (como se diz por aqui) à “terra de ninguém”.

Fui de carro para tentar atravessar a fronteira com a Sérvia por Lovas, uma aldeia no meio do nada, literalmente. A chegar, deparo-me com um cenário digno de um filme… Nas bermas das estradas havia roupa, brinquedos, sapatos, comida… Foram quilómetros e quilómetros deste cenário. Quando chego à fronteira existe um muro policial a impedir a passagem a qualquer pessoa, quer voluntários, curiosos ou imprensa. Soube que algo se passava ao fundo daquela estrada. Tentei de todas as maneiras conseguir atravessar o cordão policial até que fui dar a volta e entrei pelo mato, sem que nenhum polícia me visse.

Pela primeira vez, senti na pele o que é fugir, quase como um refugiado.

Consigo passar e chegar-me perto do que estava ao fundo da estrada. Eu não acreditei, vocês não iriam acreditar, ninguém (mas ninguém!) consegue imaginar.

Estavam cerca de 4 mil pessoas exactamente entre a Sérvia e a Croácia. O que se passava era o seguinte:

É conhecida a tensão entre a Sérvia e a Croácia.  Desde a guerra pela independência croata, entre 1991 e 1995, que os dois países nunca mais se entenderam politicamente, sobre assunto nenhum. Hoje, a Sérvia estava a depositar refugiados na fronteira e a empurrá-los com o cordão policial sérvio para entrarem na Croácia. Por outro lado, a Croácia (eu estava do lado croata) tinha uma barreira policial para impedir a sua entrada e por isso os refugiados estavam completamente “entalados” entre as duas forças policiais.

Comecei a fotografar e fui descoberto por um polícia que estava a controlar todo o espaço à volta. Expliquei que estava a fazer o meu trabalho, que há leis internacionais que me permitem a estar a mais de 100 metros de uma fronteira a fotografar, que conhecia os direitos e deveres deles mas que também conhecia muito bem os meus.

Sem querer estava a discutir com o comandante da polícia, o polícia com mais autoridade naquele local. Consegui então fotografar tudo o que quis, durante o tempo que quis e de onde quis (do lado croata claro). Era o único jornalista no local e a responsabilidade acresceu bastante.

Aquilo a que assisti ali foi desumano, diria até um nojo. Crianças choravam, mães desesperadas e pais à procura do resto da família… Vi de tudo.

Quando caiu a noite vim-me embora. Para trás ficaram 4 mil refugiados a tentar sobreviver às suas limitações e às guerras entre países.

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