A cura para a ressaca dentro de uma pêra

Quase tão conhecido como os efeitos da bebida no dia seguinte são as múltiplas mezinhas que todos clamam conhecer para combater a ressaca.

Dores de cabeça, sensibilidade exagerada ao som, boca seca, incapacidade de concentração. Sintomas tão frequentes após uma noite de excessos regada a álcool que se agrupam sob a designação universalmente conhecida de ressaca.

Quase tão conhecido como os efeitos da bebida no dia seguinte são as múltiplas mezinhas que todos clamam conhecer para combater a ressaca. Desde os chás da avó até às mistelas de aspecto duvidoso daquele amigo que nem tem coragem de olhar para as análises ao fígado, passando pelo clássico café mais aspirina, elas existem, mas o que é facto é que raramente resultam e, algumas vezes, até fazem pior.

Mas afinal por que temos ressaca?

O mecanismo por detrás da resposta do nosso organismo horas depois da ingestão de álcool ainda não está totalmente compreendido, mas crê-se que seja multifactorial. Antes de mais, há a considerar a metabolização hepática do etanol, transformado em acetaldeído pela enzima álcool desidrogenase; o acetaldeído é um composto 10 vezes mais tóxico que o álcool e que, por sua vez, é metabolizado a ácido acético por uma reacção de oxidação. Esta reacção leva ao consumo de NAD+ que é transformado em NADH, levando a um desequilíbrio deste sistema, fundamental para vários processos orgânicos, e à produção de espécies reactivas de oxigénio (ROS) que induzem um estado inflamatório.

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(o metabolismo do etanol dentro de um hepatócito)

Além disso, o próprio consumo de bebidas alcoólicas leva a desidratação, alterações cardiovasculares e alterações em sistemas hormonais como a insulina e o cortisol. Tudo isto somado, após uma noite de excessos, temos o nosso organismo desregulado, no meio de uma reação inflamatória generalizada que leva a esta constelação de sintomas tão particular.

Finalmente uma cura para a ressaca?

Pode ser cedo para apelidar de cura mas os resultados deste estudo são, pelo menos animadores: A CSIRO (Commonwealth Scientific and Industrial Research Organization) uma das principais agências cientifícas autralianas pode finalmente ter descoberto este remédio tão desejado

Os investigadores trabalharam em parceria com a Horticulture Innovation Australia e parecem ter descoberto uma substância capaz de contrariar os efeitos da ressaca. E, para ilustrar que por vezes as coisas mais simples são as melhores, a resposta pode estar dentro de uma pêra. “Acredite-se ou não, as pêras podem ter influência na quantidade de álcool no sangue após a ingestão de uma bebida alcoólica”revelou à  ABC o professor Manny Noakes, director de pesquisa de Nutrição e Saúde na CSIRO.

Para além de alguns efeitos benéficos conhecidos desta fruta – nutricionalmente são ricas em fibra e potássio e ainda têm efeitos na redução de colesterol – as pêras podem ser capazes de diminuir a intensidade das ressacas e diminuir os níveis de alcoolémia.

Segundo Noakes, director do projecto, as pêras (especificamente uma variedade coreana utilizada no estudo) actuam sobre várias enzimas responsáveis pelo processo de metabolização do etanol como a álcool desidrogenase e a aldeído desidrogenase.

No estudo levado a cabo, após a ingestão de 220 mL de sumo de pêra (apesar de os resultados serem semelhantes com a ingestão da fruta inteira) verificou-se uma diminuição generalizada da intensidade da ressaca, avaliada através de uma escala composta por 14 itens.

O único senão da questão reside no facto de o sumo de pêra ter que ser ingerido antes do consumo de álcool. As propriedades da pêra só surtem efeito quando esta se encontra no organismo antes da ingestão de álcool. “O efeito foi apenas demostrado quando as pêras eram consumidas antes da ingestão de álcool”, confidencia Noakes. “Não há evidência de que se possa comer pêras após beber e evitar uma ressaca.”

O estudo ainda se encontra em curso e, só nos próximos dois meses, Noakes e a sua equipa no CSIRO apresentarão as conclusões finais sobre esta fruta, não só sobre o seu impacto no metabolismo alcoólico, como também sobre os seus componentes nutricionais.

Por isso, da próxima vez que saíres à noite, podes querer beber um sumo da tão tradicional pêra rocha portuguesa e comprovar por ti mesmo se este surte efeito. Mas apesar de as pêras poderem reduzir a intensidade da ressaca no dia a seguir, o professor Noakes adverte: “A melhor maneira de não ficar ressacado é não beber em primeiro lugar.”