Super Bock Super Rock 2015: Um regresso atribulado à cidade


Estamos em 2011, a aproveitar a tarde para descansar na areia das praias do Meco, ainda a digerir o concerto que vimos ontem. Os Arctic Monkeys regressaram pouco mais de um ano depois de (quase) terem feito história no Campo Pequeno. O Humbug ficou para trás — bem como grande parte do fumo — e, de forma menos stoner, o quarteto de Sheffield veio apresentar-nos Suck It And See, um álbum pop na sua essência, onde as melodias catchy e convidativas substituem os riffs pesados e as ambiências escuras do trabalho anterior. Logo à noite há Portishead, seguidos de Arcade Fire e, quase sem tempo para respirar, somos brindados com Strokes no dia a seguir.

Este cartaz quase perfeito — senão mesmo perfeito, principalmente para um puto como eu, que cresceu a ouvir o indie dos anos 00 — pode parecer longínquo e praticamente impossível nos dias de hoje, mas a verdade é que se passaram apenas quatro anos desde que estas quatro bandas, acompanhadas por muitas outras que não vale a pena referir aqui, visitaram o Meco e formaram um dos lineups mais fortes que os festivais portugueses viram nos últimos anos. Nessa altura, o Super Bock Super Rock tinha-se estabelecido no Meco há apenas um ano e tudo prometia vir a ser grandioso nesta nova fase do festival. A aposta na aldeia e nas praias do Meco parecia estar ganha, o recinto servia o seu propósito e o campismo reunia uma geração para quem estava tudo bem desde que o Julian Casablancas se apresentasse com o seu ar de bêbado cool do costume. Nem precisava de cantar porque eles, e eu, fazíamos isso por si.

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No entanto, quatro anos depois, o festival voltou para o Parque das Nações, desta vez para ocupar o MEO Arena e parte da área circundante. A escolha de recinto para esta nova fase do Super Bock Super Rock parecia bizarra, principalmente tendo em conta que, dos quatro palcos, dois deles são interiores. Tudo o que o distinguia de outros festivais ficou, assim, para trás. O trunfo de poder oferecer campismo, a dez minutos de uma das praias mais fixes do centro do país e a meia hora de Lisboa, não jogava mais a seu a favor. Agora, o lema é “o rock voltou à cidade”, e o Meco não importa mais.

Entrei no recinto e fui directo ao palco EDP, por baixo da pala do Pavilhão de Portugal, porque King Gizzard & The Lizard Wizard estava prestes a começar. Infelizmente, este foi apenas um dos muitos concertos que sofreram com os problemas de som deste palco, que se mantiveram ao longo dos três dias. Os irrequietos Palma Violets, que, no terceiro dia, tocaram para uma plateia composta, onde os fãs das primeiras filas provaram saber de cor todas as letras, mostrando-se disponíveis para acompanhar os ingleses nos seus breves momentos de loucura e excitação, tiveram mesmo que abandonar o palco no início do concerto até que todos os problemas estivessem resolvidos. Ainda no primeiro dia, os Little Dragon ofereceram ao público um concerto esforçado e competente, e SBTRKT teve a difícil tarefa de conquistar o público, que já recebia de pé atrás os concertos do palco EDP. No entanto, o músico londrino foi bem sucedido e “New Dorp, New York” foi a responsável pelo grande momento electrónico do dia.

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Palma Violets

Entrei no MEO Arena pela primeira vez para ver The Vaccines. O espaço, que é enorme, torna-se ainda maior estando praticamente vazio, o que torna a tarefa das bandas que tocam neste palco em primeiro lugar algo ingrata. Por muito que a plateia seja grande em número, torna-se mínima quando comparada com a grandiosidade da sala. No entanto, a banda que se estreou em 2011 com o disco What Did You Expect From The Vaccines? mostrou que já sabe agarrar no público como gente crescida, mesmo não apresentando nada de novo ou extremamente relevante. A experiência falou mais alto e o primeiro grande concerto do dia foi o de Noel Gallagher. “If I Had A Gun…” e “AKA… What A Life!” podem fazer cantar o público, mas é preciso ir buscar os clássicos de Oasis para criar os primeiros momentos de euforia. “Champagne Supernova”, “Whatever” e “The Masterplan” (que bem que sabe ouvir esta música ao vivo!) provaram ser a principal razão para a presença de tanta gente na sala e “Don’t Look Back In Anger” a fechar serviu para dar descanso a Noel, sendo que toda a gente que estava a assistir quis assumir a tarefa de dar voz ao refrão. Foi este o grande momento do primeiro dia do Super Bock Super Rock.

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Toro y Moi abriu o palco Carlsberg, na Sala Tejo, da melhor maneira. Canções pop de fazer saltar, misturam-se com paisagens sónicas bem trabalhadas lideradas por vozes arrastadas mas que nunca deixam por isso de perder um pingo de energia. Aqui, ao contrário do palco EDP, não há problemas técnicos. No entanto, o palco fica demasiado afastado das restantes zonas do festival e não há nada que desmoralize mais do que ter de passar por uma crew numerosa de seguranças e por várias filas de grades colocadas nos vinte metros antes da porta de entrada para a Sala Tejo, de forma aparentemente aleatória, para chegar a um concerto. Só estamos ali para ouvir música, de certeza que era preciso tanto?

Sting provou saber os truques todos para conquistar uma plateia, incluindo aqueles que há muito já caíram em desuso. Pedir à plateia para repetir “yeah yeah” várias vezes, ao ritmo da música, já deixou de ter piada há anos. O concerto pode ter sido competente e os êxitos podem ter todos feito parte da setlist, mas alguém que o avise de que já não estamos nos anos 80.

O primeiro destaque do segundo dia vai para os portuenses Best Youth que, infelizmente, tocaram no Palco Antena 3. Aquele destinado às bandas portuguesas, mas que fica entre as escadas do MEO Arena e o fim do recinto, enfiado no meio do stand da Caixa Geral de Depósitos e da zona vip da AXE. E o problema é que eles mereciam muito mais. Extramente profissionais ao vivo, com uma preocupação extra pelo cenário do palco, composto por seis leds verticais que rodeavam a banda, o duo responsável por Highway Moon, um dos álbuns mais fortes deste ano, provou que não é preciso ser uma banda grande para dar um concerto gigante no que toca à qualidade. As músicas são versáteis o suficiente para oferecer um concerto dinâmico e variado e Ed Rocha Gonçalves desdobra-se com a mesma competência entre as teclas e a guitarra. “Hang Out”, “Mirrorball” e “Red Diamond” já são familiares ao público português, pela melhor razão.

Seguimos para debaixo da pala, onde uma enchente de pessoas assistia aos frenéticos Bombay Bicycle Club. “Always Like This” e “Carry Me” provam que a banda de Londres não quer ser rotulada e fecham da melhor maneira um dos melhores concertos de todo o festival. No dia a seguir, sensivelmente à mesma hora, os Unknown Mortal Orchestra repetiram a proeza e provaram ainda que não é o péssimo som do palco que vai fazer com que não se dance “So Good At Being In Trouble” ou “Multi-Love”. Os singles foram os claros momentos altos do concerto, mas houve ainda tempo para o vocalista Ruban Nielson se atirar para cima da plateia, no único momento de crowdsurfing de todo o festival. Para além disso, ainda aproveitou para tocar guitarra sozinho, sentado no palco, bem perto da plateia.

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No último dia de festival, foi Rodrigo Amarante o responsável por abrir o palco do MEO Arena. Um concerto intimista agendado para o local errado, não deixou por isso de convencer a plateia. Cheio de subtilezas, fez-se acompanhar por uma banda responsável por encher a música, fazendo-o sempre com os pormenores mais cuidados e delicados. Pouco depois, no palco Antena 3, ouvia-se “é bue lindo ver tanta gente aqui, e a cantar em português”. Pensava que este dilema já tinha sido ultrapassado por toda a gente, mas pelos vistos para o Alex dos D’Alva ainda não. As escadas do MEO Arena encheram-se para ver a banda e eu senti-me estranhamente só por ser a única pessoa ali que não conseguia apreciar minimamente o que estava a ver. Em “Não Estou A Competir”, cantava-se “agora sim a festa pode começar / vamos fazer um jogo que todos podem jogar / toda a gente dança, toda a gente canta / não precisam de peças, não precisam de dados / vamos fazer a festa, estão todos preparados”. Pessoal, há mais música catchy para dançar. Não tem de ser isto.

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Os Franz Ferdinand juntaram-se aos Sparks para um concerto fora do comum. Apesar do art rock conduzido por sintetizadores, e de momentos quase insólitos onde vimos, por exemplo, todos os músicos reunirem esforços na bateria para dar a espaço a Ron Mael, de 69 anos, dançar de forma estranha, por falta de melhor palavra, foi durante os êxitos da banda de Glasgow, “Do Yout Want To”, “Walk Away”, “Michael” e “Take Me Out”, que a plateia ficou realmente por dentro do concerto. Serviu para provar que já cá faz falta um novo concerto de Franz Ferdinand a solo.

Chegou finalmente o momento mais aguardado do dia e Florence And The Machine deu, a par de Blur, um dos melhores concertos que Portugal tem visto nos últimos tempos. A entrega da vocalista é enorme e é de admirar a força com que ela aplaude o público, no final de cada canção — tanta quanto este a aplaude a ela. A energia é inesgotável, a voz é capaz de por qualquer um em sentido e a forma teatral como encara as canções serve de elo de ligação entre o cenário, a banda, a plateia e até mesmo as próprias canções. Corre de um lado para o outro do palco e garante que nenhum fã passa despercebido. Depois de ter esgotado a Aula Magna em 2010, onde obrigou toda a gente a descer da zona das cadeiras e saltar directamente para a frente do palco, chega a 2015 com outra dimensão, uma vertente mais comercial e, apesar de Ceremonials e How Big, How Blue, How Beautiful não estarem ao nível de Lungs, a essência e a honestidade características de Florence Welch permanecem intactas.

Aos britânicos Blur, que eram provavelmente o maior nome desta edição do festival, bastou fazerem o que sabem fazer melhor. E isso, numa banda assim, é tudo o que é preciso. Damon Albarn, Graham Coxon, Alex James e Dave Rowntree conseguem ser tão actuais hoje como eram há dez anos atrás e apesar da vontade quase juvenil de querer pôr a diversão em primeiro lugar, acima de tudo o resto, não é por isso que as músicas passam a soar mais imperfeitas ou despreocupadas. Foram precisos 10 músicos em palco, para além dos quatro membros da banda, para replicar com precisão todos os arranjos dos álbuns, incluindo até o mais subtil pormenor. Desde a bridge de quase dois minutos em “For Tomorrow”, liderada exclusivamente pela secção de sopros, organizada em várias camadas que vão entrando progressivamente, aos coros gospel em “Tender”, passando pelos teclados de “Lonesome Street” ou de “Coffee & TV”. As músicas de The Magic Whip, lançado em Abril deste ano, integram-se de forma fluída numa setlist de clássicos compostos ao longo dos anos 90. A sensibilidade pop juntou-se à vontade de fazer com que o fuzz da guitarra de Graham Coxon se ouvisse acima de qualquer outro instrumento, e mais uma vez, ficou provado que essa dinâmica é das coisas mais interessantes e originais que os Blur têm para oferecer. Está mais que sabido que são uma das melhores bandas saídas da última década do milénio passado, e resta-nos acreditar que ainda voltarão muitas vezes a terras lusas.

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Olhando para trás, fica claro que esta nova aposta da organização do Super Bock Super Rock só não falhou redondamente por causa dos concertos incríveis que, contra todas as expectativas, acabaram por acontecer.

Portugal é um país pequeno com festivais excelentes. No Primavera, o ambiente é livre de marcas ou de publicidades excessivas, três dos quatro palcos são anfiteatros naturais, onde a relva predomina, nenhum concerto (e isto é mesmo verdade) é mau, as bandas e os espectáculos são respeitados ao máximo — e um exemplo disso é o silêncio que se ouve no intervalo entre os concertos — e a ligação com a cidade do Porto está tão bem feita, ao ponto do festival se integrar completamente no espírito da cidade e esta acabar por fazer também parte dele. O Paredes de Coura é um ícone da música alternativa, e, independentemente do cartaz, todos os anos tem público garantido, nem que seja para aproveitar a vila, o campismo, o rio e assistir a todos os momentos quase épicos que acabam por acontecer. E o Alive é, para o bem e para o mal, aquele festival na cidade onde sabemos sempre que vamos poder beber uns copos com os amigos e que vai valer a pena na mesma, mesmo que os concertos sejam aborrecidos como os deste ano.

Ao sair do Meco, o Super Bock Super Rock perdeu aquilo que o distinguia dos outros, fixando-se num recinto desinteressante onde os palcos e a sua organização não ajudam a favorecer os concertos, o ambiente e a experiência de quem vai ao festival. Porque o “eu não vou só pelo cartaz” é mais válido hoje do que em qualquer outra altura, e os festivais precisam, mais do que nunca, de oferecer uma experiência que vá para além dos concertos, este novo formato do Super Bock Super Rock ficará sempre a perder, e nunca será capaz de criar a mística e a tradição que a edição de 2011 tanto prometia oferecer.

(fotos: João Porfírio / Shifter)

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