Um Alive morto vivo


Cheguei a Algés de autocarro e pela imunda travessia subterrânea até ao festival descobri logo todos os recordes desaconselháveis que aquela crowd batia. Era uma mistura de hipsters tatuados, betos da cena surf, crianças indigo e uma tonelada de estrangeirada vinda um pouco de todo o lado, mas principalmente Espanha e Reino Unido. Ainda assim, mesmo já algo desolado com este cenário e com o cartaz tão criticado, dirigi-me até ao local de levantamento da minha acreditação de imprensa, até porque estava um calor incandescente.

Mas nós fomos pela música, certo? Isso mesmo. Então comecei por Les Crazy Coconuts no coreto, o que foi uma seca, mas a bailarina vestida de velcros e gazes fluorescentes parecia estar em speed e isso teve uma certa graça. A música era genérica para não ser insultuoso, mas foi só ir espreitar Señores (e o seu rock espanhol era inferior ao clássico entre dos tierras) para voltar a tempo de Light Gun Fire.

E, felizmente, esse concerto deu-me esperança na música. Uma mistura de funk com pop, cheia de energia e boas vibes, um vocalista com pica e uma banda entusiasmada por tocar no Alive, mesmo que o tivesse de fazer no Coreto. Relembraram-me da importância da música num festival de verão, que até estava encoberta pelas tendas de carne de porco, pelos brindes branded e pela onda piqueniqueira daqueles festivaleiros.

Como no primeiro acto de um grande livro, um dos meus concertos favoritos do festival aconteceu cedo neste dia. Young Fathers foram um concerto seminal à Alive. Uma banda emergente, pouco conhecida do nosso público, que arrasa em cinquenta minutos de concerto alucinado, num som agradável e algo indie pop electrónico, acho eu. Foi um belo concerto e se não tivesse tropeçado numa toalha em xadrez, com direito a cesto de verga, de onde se comiam panados, a alegria tinha durado mais tempo.

Infelizmente, os fãs de Muse já piquenicavam aqui e ali, deixando o palco principal um terreno perigoso para quem não queria ficar à espera de Matthew Bellamy e companhia. Como me apetecia mesmo um rock autêntico, fui até Capitão Fausto e mesmo o concerto preguiçoso deles – com demasiadas pausas instrumentais, assente em dois ou três singles cuja reação foi a esperada – foi uma lufada de ar fresco face ao palco principal. O exagero de moshpit também teve alguma piada.

Ainda dei uma volta até ao coreto para ver Basset Hounds, mas quando aplaudi a música que tinha ouvido, dois fãs de Muse acusaram-me de estar a convencer os putos da banda de que tocavam alguma coisa de jeito (a palavra que disseram foi m*rda) e não tive outro remédio senão ir para o palco Heineken ver Metronomy depois de um bate de boca que ficou agressivo muito rápido.

Pausa. É preciso contar-vos a seca que bloggar foi. Não é fácil fazer social media quando se está num grande concerto e Metronomy foi, sem dúvida, uma das melhores performances deste alive. A banda tem o concerto bem oleado, tem pinta, tem passos de dança e tem um punhado de temas em que toda a gente canta. Obrigado Metronomy, fizeram o meu primeiro dia com o vosso super-show e toda a gente está de acordo em relação a isso. Quando a música é boa, tudo vale a pena.

No palco principal morria-se em Ben Harper — diz-se até que os portugueses e Ben Harper estão em fase de divórcio —, mas não é que os outros concertos tenham sido muito melhores. Cavaliers of Fun e Django Django foram competentes, mas nunca estrondosos, e Alt-J foram a maior seca do festival inteiro. O post mais bem sucedido do nosso live-tweeting foi mesmo “Adormecemos em Alt-J.” Toda a gente ficou mais ou menos a dormir, mas a sesta ajudou a que chegássemos a Flume com um bocadinho mais de vida.

Sim, eu ignorei propositadamente o concerto de Muse neste artigo, mas fica toda a verdade: são uma banda competente, repleta de músicas que agarram o público e com uma entrega digna de cabeça de cartaz. Só que este não era o Rock in Rio 2012, era o Alive. Quando toda a gente se queixa do cartaz e mesmo assim isto acontece, dá que pensar.

Flume estava a ser uma maravilha, mas eram quase quatro da manhã, o ambiente estava alucinogénico e demasiado rico em bloggers com lantejoulas, por isso aproveitei para me ir embora. Ia feliz com as performances de Metronomy e Young Fathers. Antes de zarpar fui fazer o log out da minha pulseira, mas o sistema não estava a trabalhar, o que aconteceu no resto do festival.

Falta de fé era o meu espírito quando me fiz à estrada para um segundo dia de Alive, mas Samuel Herring de Future Islands podia salvar-me e todos sabíamos isso. A esperança não morreria antes deste concerto.

Marmozets foi um concerto com muito hype e por isso resta-me pedir-vos desculpa por não me ter aproximado do palco NOS nessa altura, só lá fui ver as fatiotas de nova estação dos Blasted Mechanism e zarpei muito rápido. Até vos posso contar que voltei lá para Mumford & Sons e que senti um enjoo tão específico que me lembro das três vezes na minha vida em que aconteceu: no barco do Mestre Ventura quando ia com o meu pai apanhar berbigão em Tróia, em Portishead no SBSR de 2011 e nesta banda de banjos.

Onde as pessoas do outjazz se divertiam como as pessoas das velhinhas therapy sessions se costumavam divertir foi em Dj Kamala, mas quem sou eu para criticar o divertimento de outrém. Se só precisam de samples de músicas conhecidas para fazerem a festa, o vosso festival podia ter sido o fruity loops ou uma playlist mais abana-o-pézinho do Spotify. Ainda assim, a Capicua tinha dado um espetáculo engraçado antes disso, daqueles que ninguém se ficou a queixar, e deve ter inundado o espaço de boas vibrações.

Fui ver Los Waves ao Coreto e foi com muita alegria que assisti ao acidente do vocalista em que partiu duas cordas da guitarra e deixou o colega de banda a aguentar o riff de guitarra elétrica durante quase dez minutos. Felizmente, foi na minha favorita, Your World, e pude aproveitar o tempo de afinar, testar pedais e ligar a guitarra, para encher a barriga de música genuína. Dá que pensar acerca das bandas portuguesas estarem confinadas a papeis secundários no Alive, mas eu depois escrevo outro artigo sobre isso.

A geração dos anos 00 cantava toda “that’s not my name” em The Tings Tings, mas foi o concerto de Future Islands que nos encantou a todos. Uma prestação maravilhosa de um vocalista que faz maravilhas pela fama da banda ajudou a que toda a gente dançasse com o épico daqueles temas. E nem foi preciso a Seasons para animar a multidão. Apareceu a meio do concerto e deixou um estado de catarse muito saudável no Heineken que durou até ao fim do concerto.

Depois apareceu James Blake com uma performance emotiva, mas pouco ou nada atrevida e deu para ver a multidão ser engolida por ela própria enquanto o tédio crescia. Não é que tenha sido um mau concerto, só não foi um concerto vivaço. E este foi um problema geral deste festival – bem pior do que quando tivemos The XX neste mesmo palco há uns anos atrás.

Curti Prodigy, se bem que acho uma falta de chá da parte da organização chamar este cabeça de cartaz para um festival que levaram até outra envergadura no passado e estava a gostar muito de Roisin Murphy e do seu solo-show dançante. Mas, foram os Future Islands que tinham roubado um lugar no pódio de melhores concertos deste Alive.

No último dia de Alive repetia-se o calor dos outros dois e um alinhamento saboroso no palco Heineken. Cheguei no momento em que começavam Sleaford Mods e gostei da forma descontraída como deram um concerto rock. Leia-se desleixada. Os ingleses chegaram, fizeram rir e arrancaram uma salva de palmas.

Fui a Pista no Coreto, mas já ia atrasado e quando lá cheguei estavam três roqueiros no palco e ninguém a puxar por eles. Fui lá gritar qualquer coisa como “manda vir mano, manda vir o rock” e eles ficaram a olhar para mim com uma cara estranha até terem arrancado com uma música. Alguns amigos deles apareceram e lá ouvimos duas músicas curtidas, como solo de guitarra e bateria à mistura, até se terem ido embora. Fiquei a pensar que Pista tinham merecido mais gente, mas quando fui ver Cave Story apercebi-me que este momento era o soundcheck deles e que tocaram duas malhas porque apareceu lá um maluquinho a pedir-lhes para mandarem vir. Gostei desse concerto, independentemente da barraca anterior.

Foi aí que descobri o Pedro Gonçalves, antigo redactor e crítico na Blitz, actual melhor copywriter de Portugal e tive a ouvir histórias do tempo das vacas gordas, como foi ir a Manchester ver Morrissey e acabar a cantar as músicas com o Alex Kapranos dos Franz Ferdinand. Conheci o director da Blitz nessa altura e fiquei embaraçado pelo meu antigo hábito de deixar comentários venenosos em todos os post’s de uma revista que li durante demasiados anos. A vida é feita destas pequenas reviravoltas, right?

E por falar em reviravoltas, Dead Combo foram uma alegria, levaram o público todo atrás de si e acabaram o concerto a elogiar a gente viva, a gente que não estava morta, a gente que assistia ao seu espetáculo com tanta festa. No fim, houve tempo para bandeira da Grécia no ecrã gigante e o hino grego a ser arranhado no instinto instrumental dos Dead Combo. History in the making.

Logo de seguida foi Mogwai e por muito que gostem de post-rock, temos de ser sinceros, foi um um concerto desinspirado. Felizmente, não foi tão entendiante como Chet Faker, que leva o prémio de concerto que inspirou mais queixume nas redes sociais. Infelizmente, foi um bocado mais seca que Disclosure, que apesar de terem sido algo chatos, conseguiram inspirar alguma dança pelo meio. Nunca pensei dizer isto, mas se calhar era preciso um Stromae para agarrar toda aquela gente em frente do Palco NOS.

Não vi Jesus & Mary Chain, mas entretanto ouvi a Just Like Honey no youtube, o que era mais ou menos o propósito do concerto – sim, eu sei que estou a ser muito injusto para com uma banda histórica. Quem vi foi Azaelia Banks, a partir do backstage, de onde entrei subrepticiamente, mas de onde fui levado (acompanhado por dois matulões). A minha intenção original para este artigo era simular os feitos do rapaz viral do ano passado, que entrou nos festivais todos.

Flight Facilities teve críticas simpáticas, assim como Chromeo, mas a azia já era geral por esta altura e os comentários negativos só abrandaram quando se serviu sushi na press e todos os que lá estavam se tornaram em fãs de Capitão Fausto em dia de concerto na Golegã.

E foi o que foi. Um festival onde já vimos White Stripes, que também não foi nada de jeito na altura, mas onde também vimos Arctic Monkeys, Black Keys e Radiohead, este ano teve uma aparição tão popular como de costume, apenas com muito menos conteúdo.

(fotos: Manuel Casanova / Shifter)

Previous O youtuber MKBHD analisou a câmara de um telemóvel que ainda não foi sequer revelado
Next CERN descobre partícula há muito procurada: o Pentaquark