‘Cobain: Montage of Heck’


Sobre Cobain já quase tudo havia sido dito, escrito e visto. Não é preciso ser-se melómano ou um grande fã de Nirvana para conhecer as inauditas histórias de Kurt, partam estas da sua adolescência perturbada pelo divórcio dos pais ou da relação bomba-relógio com Courtney Love e mútua adição à heroína, só caducada (dentro dos possíveis) pelo amor à filha Frances.

A maior parte do que vemos em Montage Of Heck são repetições da matéria estudada pelos média ao longo os últimos vinte anos, com a diferença de que esta nos é agora ensaboada pelo próprio e por sete dos seus mais próximos. Pai, mãe, irmã, mulher, madrasta, ex-namorada e colega de banda reúnem-se em frente às câmaras pela primeira vez para contar — com a honestidade possível — a história do último homem-mito do rock n’ roll.

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A pesquisa nos arquivos de família — iniciada em 2007 pelo realizador Brett Morgen a pedido de Courtney Love — foi o tiro de partida para esta digressão ao longo de um novo mundo, um mundo alienígena em que a noção de sanidade mental jamais se inscreveu no dicionário local, e em que o dialeto se viu compreendido por muito poucos, ou até por nenhuns. Krist Novoselic (baixista dos Nirvana) diz em determinado momento que “os sinais estavam todos lá”, mas que ninguém os soube compreender a tempo de evitar o inevitável.

Durante as duas horas de documentário (há muitos chouriços enchidos pelo meio, diga-se) são-nos trespassadas — através dos quadros, registos áudio, rabiscos e diários insanos e contadas na primeira pessoa — as neuroses que levaram Kurt a tentar pôr termo à sua vida em três momentos distintos da sua vida e que culminariam no seu suicídio no ano de 94. Montage of Heck, tal qual puzzle, vai juntando os fragmentos de uma vida despedaçada aos 9 anos, que jamais se viria a recompor, e autopsia, com alguns paninhos quentes e efabulação, o legado deixado por Cobain.

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Mas não se retirem integralmente os louros a Morgen. Um realizador que consegue juntar, com a ajuda de Frances Bean, todas as personagens mais relevantes na vida do líder dos Nirvana merece — só pela iniciativa e poder de congregação — a nossa reverência e o nosso obrigado. Não deixamos, no entanto, de notar o branqueamento (leia-se “lavar de mãos”) de Courtney Love face à morte do marido. De cigarro na mão e ultra-maquilhada, a Yoko Ono dos anos 90 vai gradualmente descartando a influência que teve no abuso de drogas por parte do marido, revendo-se até como uma mãe “rija como um pêro” e pronta a criar uma filha no seio de um lar abanado pela instabilidade emocional.

O embelezamento da parentalidade narcótica e mea culpa de Wendy e Don podem desfilar levianamente pela desatenção de muitos, mas não passaram por aqui despercebidos. Apesar do sucesso no storytelling através da ilustração e autonomização das obras produzidas por Cobain, o filme não deixa de se perder no biasing característico dos documentários oficiais e autorizados pelas famílias dos heróis já partidos.

Esperava-se menos manha na hora de contar a verdadeira e derradeira história do ídolo da geração flanela, mas não deixa Montage of Heck de ser uma obra válida e legítima no crescente universo dos rockumentários, sobretudo pela descoberta, entre cassetes, da versão caseira de “And I Love Her”. Não tem tanto de must watch como Control, mas satisfará a curiosidade de todos os que conhecem a história pela rama e que querem tirar a limpo a história da “morte ou suicídio?”.

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