A morte do mestre


A Câmara Municipal do Porto decretou 3 dias de luto portuense. O Governo, 2 dias de luto nacional. O Presidente da República lamentou a sua perda. Os facebookers encheram os seus murais com tiradas mais ou menos espirituosas. Os jornais impressos colocaram-no na primeira página. Os canais de notícias encheram a sua emissão com mesas redondas sobre o mestre, a obra do mestre, a longevidade do mestre, a arte do mestre.

Toda a gente parou o que estava a fazer, para lhe dar atenção. O meu colega Daniel interrompeu uma sessão de trabalho, onde membros da agência, produtora e cliente discutiam a edição final de uma campanha de filmes publicitários, para nos dar a notícia. Toda a gente achou que a revelação era merecedora da interrupção. O mestre tinha essa importância. Podia não ser o meu mestre ou o mestre da esmagadora maioria dos portugueses, mas era o Mestre, o Grande Mestre. Merecia tudo a que tinha direito. Tudo o que se espera sempre que um grande vulto nacional deixa de consumir oxigénio.

No entanto, algo estava errado.

A narrativa primária estabelecida pelos produtores de notícias alinhava pelo seguinte mote: portugueses, esses ingratos. Enquanto o resto do mundo chorava o adorado mestre, os seus compatriotas soltavam lágrimas de crocodilo, tendo-lhe negado o seu amor enquanto fora vivo. Os portugueses, esses ingratos, não viam os seus filmes. Os portugueses, esses ingratos, bocejavam com os seus filmes. Os portugueses, esses ingratos, gozavam com os seus filmes.

Os artistas típicos são uns grandes, à falta de melhor palavra, queixinhas. Queixam-se de que não são reconhecidos. Queixam-se de que não são vendidos. Queixam-se de que não são subsidiados. Queixam-se de que não são amados. Apetece gritar à maioria deles que o recreio já acabou e que está na altura de fazerem 18 anos. O amor não é uma questão de justiça, é uma questão de química. Ou se ama ou não. Um mecânico que trabalhou a vida inteira e se orgulha do que fez na sua oficina não espera nem reconhecimento público, nem amor. Espera mais encomendas. Espera ser pago ao fim do mês. Espera ter dinheiro para pagar aos seus empregados. Não espera estátuas, discursos ou ruas com o seu nome. Artistas típicos têm esta capacidade. De chorarem para mamarem. E de todo o tempo de antena que se lhes dá, lhes saber sempre a pouco. Basta ler algumas entrevistas ao desconcertante Luiz Pacheco para se perceber isso.

Mas o queixume vende. E um certo jornalismo, à procura de uma audiência fácil, promove o “queixumismo”. Num dos programas a que assisti, um dos convidados tentava explicar que o mestre tinha tantos seguidores em Portugal, como no estrangeiro, na mesma proporção. Mas este relato não encaixava na narrativa pré-definida do “portugueses, seus ingratos”, pelo que rapidamente deram mais tempo de antena a alguém que confirmava que sim, que “Portugal era pequeno demais” para o talento do mestre.

O mestre criava obras de si para si. Com a sua visão humanista. Por vezes, os seus filmes eram apreciados por críticos e público, por vezes, não. Ter tido uma vida rica e livre parece ser a grande recompensa da sua vida. Foi realizador, foi ator, foi piloto-aviador. Que vida magnífica. Esta narrativa oficial-não-oficial de que devíamos estar todos em choque, envergonhados com a nossa postura, é enjoativa.

Eça de Queiroz foi um dos maiores escritores nacionais. Harold Bloom, o maior crítico literário vivo, considerou-o um dos 100 escritores mais criativos de todos os tempos. Não é por isso que eu e multidões anónimas de portugueses o amamos. Ler Eça sempre me fez bem. Ajudou-me a perceber o país onde crescia. Ajudou-me a criar laços com a minha identidade. Comecei com A Cidade e as Serras, seguiu-se Os Maias, O Crime do Padre Amaro e daí em diante. De obra em obra. Gostava, queria mais. Não li tudo, mas li muito. Não por dever, mas por querer. Esta é a minha relação com o Eça. É a minha prerrogativa. Gosto porque gosto.

Pessoa pode ser lido por jovens portugueses com as hormonas aos saltos e, apesar de nada terem a ver com ele, ficam a compreender-se um pouco melhor. Pessoa é amado. Tão amado que apesar da sua fraca figura (hoje icónica) se senta numa mesa do café A Brasileira, no Chiado, à espera de companhia.

O mestre não procuraria essa companhia. Não criou obras para serem amadas. Era o mestre. Não seguia ninguém. Nem o seu público.

A minha experiência com o mestre é singular. Provavelmente semelhante à de muitos outros portugueses.

Vi o Aniki Bobó na infância e, como era de esperar, gostei. Muito mais tarde, vi umas cenas do Francisca na televisão e senti-me cativado. Não era uma história clássica, mas o mestre mostrava-me qualquer coisa que não conseguia identificar. Intrigou-me.

Fui ao cinema ver Os Canibais e senti-me enfeitiçado. Como se não tivesse entrado num filme, mas num mundo antigo feito para servir de cenário aos meus pensamentos. Como se Os Canibais procurassem libertar os meus itinerários mentais das armadilhas das frases-feitas. O baile no Palácio da Ajuda e a cauda do vestido da Margarida, rastejando demoradamente pelo chão, eram estranhamente hipnóticos. Durante grande parte do filme assim me mantive. Mas depois chegava o “ama-me como eu sou”, cantado por um Visconde de Aveleda que se despia para mostrar que não tinha nem braços, nem pernas e, embora a cena fosse surpreendente, o feitiço era quebrado. A cena final das máscaras de porcos no quintal completava a destruição do feitiço. Como se o filme tivesse cenas que não pertenciam ao próprio filme. Como se o filme se canibalizasse a si próprio.

Escusado será dizer que me senti frustrado. Esperava um filme que me mostrasse uma vida a que não tinha acesso. Na linha do Morte Em Veneza do Visconti, do Satyricon do Fellini ou do Medeia do Pasolini. Mas não. Não achei que o filme fosse “difícil mas grandioso”. Achei-o apenas falhado.

No entanto, decidi dar uma segunda oportunidade ao mestre.

Quando lançou o Non Ou A Vã Glória de Mandar, jurei que ia gostar. Contar a História de Portugal em derrotas era uma ideia genial. A revista brasileira Veja, que eu idolatrava, escrevia uma crítica laudatória. Falava em inteligência, originalidade, em cinema alternativo. Eu tinha 22 anos, fui vê-lo ao Fórum Picoas, que na época tinha cinema, e odiei. Ao filme faltavam claramente valores de produção (poucos figurantes, poucos cavalos, bombas de canhão ridículas). O primeiro plano à volta de uma árvore africana majestosa, que fora descrito por um crítico do Expresso como um dos mais belos movimentos de câmara da História do Cinema, era uma bela seca. Aos meus olhos o Non era presunçoso, mal feito, pífio.

Tinha dado duas oportunidades ao mestre e ele não só me desiludira como me deixara furioso. “Basta”, disse o meu eu da altura, “tão cedo não me apanha noutra”. As críticas ao Sapato de Cetim – dizia-se que um crítico tinha saído ao fim de 4 das 7 horas de filme, mas lhe tinha dado 5 estrelas – e ao Vale Abrão – que na gíria era maldosamente apelidado de “Valium Abrão” – não contribuíram para me fazer reverter aquela decisão. Decididamente, a obra do mestre não era para mim.

Com o tempo, a opinião sobre o mestre foi-se alterando. Como resistir a alguém que se recusava a reformar? O mestre era um mestre da persistência. Ano após ano, filme após filme, o mestre mostrava ao mundo que a idade era um estado orgânico, não artístico. Aprendi a sentir orgulho nele. E assim fiquei. Não voltei a rever a obra dele, mas estou mais perto.

Uma das grandes tragédias da morte do mestre é a narrativa jornalística que a maioria dos órgãos de informação nos tenta fazer engolir, como se fossemos gansos politicamente incorretos obrigados a confecionar ‘foie gras’ autocrítico. Seus portugueses, seus ingratos. Seus portugueses, seus burros. Seus portugueses, seus incultos. O mestre não procurou o vosso amor, mas era vosso dever amá-lo.

O que mais se devia conceder ao mestre?… Estátuas de ouro?… Manifestações de choro público, como se fosse o Querido Líder norte-coreano?

O Estado português pós-25 de abril sempre se preocupou em ser generoso com o mestre. Enquanto foi Secretário de Estado da Cultura, Pedro Santana Lopes sempre lhe concedeu o apoio financeiro do Governo, assente no Orçamento Geral do Estado, pago pelo contributo de todos os portugueses.

Assim, de repente, parece-me que a pátria foi extremamente generosa com o mestre. Deu-lhe tudo o que podia dar. Os portugueses não foram tão generosos com o mestre como o Governo, mas impor os filmes do mestre aos compatriotas do mestre soa a comportamento autocrático, algo que o mestre não iria saudar.

Reduzir o mestre à condição de vítima da ingratidão dos portugueses, parece-me extremamente ingrato para com o mestre. E para com os portugueses.

Adeus, mestre. Viveste uma bela vida. Deixaste um belo legado. Morreste a filmar e que bom foi teres vivido num país onde o seu maior cineasta és tu. Escolheste filmar numa pátria onde a tua escala é consagrada, onde a tua obra será lembrada, mesmo que os teus filmes sejam pouco vistos. Mas foram os filmes que escolheste fazer. E se os jornalistas te continuarem a chatear com a falta de audiência nos teus filmes, diz-lhes que na próxima vida reincarnas em Bollywood.

(foto: Flickr)