A cannabis à lupa da ciência

São muitos os mitos e as discussões acerca da cannabis que surgem, inevitavelmente, quando se aborda esta droga e a sua possível legalização.

São muitos os mitos e as discussões acerca da cannabis que surgem, inevitavelmente, quando se aborda esta droga e a sua possível legalização. Mas, por vezes, pouco conhecimento exacto e científico acerca desta substância acompanha os argumentos de um lado e do outro.

O que é a cannabis?

A cannabis consiste numa preparação à base da planta Cannabis sativa, uma planta originária do Sudeste e Centro Asiático e conhecida há mais de 5 000 anos pelas suas propriedades psico-activas –  euforia, descontracção, prazer são  as mais referidas e identificadas pelos seus utilizadores. O responsável por detrás destas sensações é o principal princípio activo da marijuana, o Δ9-tetrahidrocanabinol, mais normalmente referido como THC.

O THC e os seus efeitos

O THC é uma substância que pertence ao grupo dos canabinóides. No nosso organismo há canabinóides endógenos, como o 2-AG e a andanamina, que actuam como neurotransmissores, ligando-se aos receptores CB1. O THC é um canabinóide exógeno, ou seja, é adquirido por via do fumo da marijuana, é absorvido e actua ao nível destes mesmos receptores CB1.

Os efeitos decorrentes do consumo de marijuana resultam activação destes receptores CB1. Estes receptores actuam fundamentalmente como moduladores da actividade cerebral e é complexo o mecanismo por detrás de cada um dos efeitos da marijuana, já que estes receptores existem em vários locais exercendo efeitos de modulação sobre diversos grupos de neurónios. A nível psicológico os mais notórios são: alteração do estado de consciência, euforia, relaxamento, aumento do humor, aumento da sensibilidade artística, da criatividade, aumento da libido e da sensualidade, diminuição da memória. Ansiedade e ataques de pânico são um dos efeitos adversos mais comuns ligados ao uso de cannabis.

Entre os efeitos somáticos provocados pelo THC destacam-se o aumento da frequência cardíaca, boca seca, hiperémia conjuntival (o clássico olho vermelho), diminuição da pressão intra-ocular, alteração da sensibilidade térmica e álgica e aumento do apetite. 

Uma droga de abuso

A cannabis é uma droga de abuso. Assim como a heroína e a cocaína. Mas o álcool e o tabaco também o são. Parece estranho agrupar estes produtos no mesmo aglomerado tendo em vista a intensidade díspar dos seus efeitos, mas é a designação correcta para substâncias que, de facto, provocam alterações psicológicas e têm a capacidade de criar adição.

A adição está relacionada com o modelo dopaminérgico. Basicamente as várias drogas activam de maneiras diferentes um conjunto de neurónios numa área específica do cérebro, a área ventral tegmentar, uma estrutura presente na base do cérebro. Estes neurónios conectam com áreas do chamado sistema límbico, uma estrutura responsável pelas emoções e pelo comportamento. Uma vez activados pelas drogas, estes neurónios libertam dopamina, um neurotransmissor que activa estas regiões (como o núcleo accumbens) e provoca uma sensação de recompensa e prazer.

Os receptores CB1 uma vez activados, impedem a inibição sobre os neurónios da área ventral tegmentar, levando ao aumento das concentrações de dopamina e causando a dependência.

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Assim, o uso continuado de uma droga terá dois efeitos, por um lado o de tolerância (são necessárias doses cada vez superiores para atingir o mesmo efeito a nível neuronal) por outro o de dependência: a libertação de dopamina a nível do núcleo accumbens promove uma sensação de prazer que é procurada pelo utilizador.

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O lado medicinal da cannabis

A discussão em torno da utilidade da cannabis na medicina tem sido um dos maiores pontos envolvendo esta droga. Como vimos acima, fumar marijuana tem uma plétora de efeitos tanto a nível psíquico como somático, e o seu uso dirigido pode de facto ter mais valias. Aliás, desde a descoberta da mesma em 3000 a.C. que curandeiros das mais diversas culturas a têm utilizado como produto com intuito terapêutico.

Há várias áreas nas quais análogos do THC – o dronabinol e a nabinolona –  são utilizados com intuito terapêutico. Seguidamente vamos abordar algumas condições nas quais o seu efeito está provado e outras nas quais a evidência começa a surgir após a realização de vários ensaios clínicos.

  • Estimulador do apetite: depois de fumar erva, a maior parte dos utilizadores refere um aumento do apetite. De facto, a estimulação dos receptores CB1 existentes em áreas específicas do cérebro como o hipotálamo, pelos canabinóides (tanto endógenos como exógenos) promove o apetite. Alguns estudos com dronabinol (um análogo sintético do THC aprovado pela FDA) mostraram a sua eficácia em aumentar o apetite em doentes com HIV/SIDA ou a realizar terapêutica anti-cancerígena. Apesar disso, neste estudo, não se mostrou mais eficaz que outras opções existentes no mercado como megestrol.
  • Tratamento da náusea e dos vómitos: um dos efeitos adversos mais desagradáveis da quimioterapia são as náuseas e os vómitos, por vezes bastante intensos. Uma das opções disponíveis no mercado consiste em análogos do THC como a nabinolona que, ao activar os receptores CB1, modulam áreas envolvidas na emese, diminuindo assim o vómito e as náuseas. Em doentes que não conseguem controlar estes sintomas através de outras opções como os agonistas dos receptores 5-HT3, a nabinolona mostrou-se eficaz. Além disso, outros efeitos como o controlo da dor colocam-na como um fármaco a considerar no controlo dos vómitos pós-quimioterapia.
  • Alívio da dor crónica: apesar de nem a nabinolona nem o dronabinol estarem aprovados pela FDA para o controlo da dor crónica, ambos os fármacos mostraram, em estudos, eficácia quando comparados com um placebo. Contudo, as amostras nos vários estudos estiveram longe de ser representativas e face às alternativas presentes no mercado com reconhecida eficácia no controlo da dor, os canabinóides mostraram possuir uma eficácia inferior.
  • Glaucoma: a glaucoma é uma doença oftalmológica causada pelo aumento da pressão do líquido existente nas câmaras do olho. Desde a década de 70 que são conhecidos os efeitos dos canabinóides em reduzir a pressão intra-ocular e são famosos os casos de recurso a certidões médicas falsificadas para legalizar o uso e a posse de marijuana. Contudo, muitos estudos mostraram que o efeito dura pouco tempo (3-4h) e que requer doses elevadas de marijuana. Recentemente, a Academia Americana de Oftalmologia, apoiada pelo National Eye Institue, o Institute of Medicine e a evidência cientifica disponível, emitiu um relatório no qual não reconhece benefícios no uso da marijuana em comparação com os outros fármacos no mercado.
  • Epilepsia: o uso da cannabis para tratar epilepsia ganhou relevância quando em junho de 2014 o govenador Nickki Haley, do estado da Carolina do Sul, promulgou uma lei que autoriza o uso de óleo de cannabis para o tratamento das formas mais graves de epilepsia, quando prescrito por um clínico. Até agora, foi realizado apenas um estudo clínico em seres humanos, em 1980 com apenas 16 participantes que não se mostrou conclusivo. A empresa britânica GW Pharmaceutics anunciou o início de ensaios clínicos com um composto derivado da cannabis mas sem propriedades psico-activas (GWP42006) no tratamento da epilepsia.
  • Anti-tumoral: este é sem dúvida um dos tópicos quentes quando se aborda os putativos efeitos terapêuticos da cannabis. E é um tópico complexo tendo em conta a variedade de cancros e a sua multifactoriedade. Até agora não há nenhum ensaio clínico realizado em humanos. Contudo, em modelos animais foram obtidos resultados encorajadores em vários ensaios que mostraram supressão do crescimento e mesmo redução tumoral. Um desses exemplos consistiu na injecção de Δ9 THC em ratinhos com enxertos de glioblastoma multiforme e que mostraram resultados notáveis na redução do tumor. O que se sabe de concreto é que os canabinóides podem ser úteis no tratamento do cancro, e que investigação neste sentido está a ser realizada. Além disso o seu efeito anti-emético é um ponto forte que poderia ser aproveitado numa conjugação com outros agentes quimioterapêuticos. Não há qualquer evidência que o consumo recreativo de cannabis tenha efeitos de prevenção do cancro.

Nos últimos anos, o interesse em redor dos potenciais usos terapêuticos tem aumentado e têm nascido centros de investigação vocacionados para o estudo dos canabinóides como possíveis alternativas terapêuticas. Um dos campos que tem tido destaque tem sido a neurologia, com estudos que revelam um possível potencial terapêutico da cannabis no tratamento de doenças como o Alzheimer.

Verdade ou mito?

É uma droga mais perigosa que o álcool ou o tabaco?

NÃO. Várias revisões sistemáticas coligiram e comparam várias drogas segundo dois pontos fundamentais: o grau de dependência e o conjunto de efeitos nefastos sobre o organismo. O estudo apresentado no jornal The Lancet agrupou as drogas nas categorias que podemos ver, de seguida, neste gráfico:

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Afecta a memória?

SIM. Os estudos são conclusivos em apontar uma diminuição da memória de curto-prazo, tanto as memórias formadas durante o consumo como até algumas horas subsequente ao uso da marijuana. Contudo, as conclusões sobre o impacto da marijuana sobre a memória de longo prazo são mais díspares com estudos a mostrar que após um período de abstinência de algumas semanas as funções cognitivas voltam ao normal e outros a apontar para uma redução das capacidades de memorização e resolução de problemas mesmo após um período de abstinência. Serão por isso necessários mais estudos e com uma duração superior para perceber até que ponto o consumo afecta as funções cognitivas a longo prazo.

Provoca psicose e esquizofrenia?

É um dos tópicos mais polémicos e um dos argumentos mais utilizados no combate à legalização da cannabis. Várias hipóteses para explicar de que forma esta droga poderia contribuir para o aparecimento de esquizofrenia foram aventadas, desde o aumento dos níveis de actividade das vias dopaminérgicas até a variações interpessoais em que individuos com maior numero de receptores CB1 seriam mais susceptíveis.

A própria esquizofrenia é uma doença cuja etiologia é bastante complexa e factores como a história familiar, polimorfismos genéticos, história de abuso na infância e exposição a outras drogas interferem na eventual relação causal entre a cannabis e a esquizofrenia.

Um estudo recente  provou de modo consistente uma associação entre o uso de cannabis e a emergência de esquizofrenia em indivíduos com predisposição genética para tal. Contudo, a evidência científica disponível não é ainda suficiente para apontar uma relação de causalidade entre cannabis e esquizofrenia, já que não cumpre critérios definidos como a temporalidade, o gradiente buoológico, a plausibilidade biológica (isto é, as hipóteses aventadas para a relação neurofisiológica cannabis-esquizofrenia não foram provadas) e evidência experimental.

O que se pode retirar de todos os estudos e análises realizadas é que a cannabis pode ser um componente causal na emergência de psicoses como a esquizofrenia e isto deve ser uma séria consideração tanto no meio clínico como no meio político no que toca à questão da legalização.

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O que é que tudo isto quer dizer?

Pelo que se pode entender pelo artigo acima é difícil tomar uma posição definitiva relativamente aos efeitos a longo prazo da cannabis pela inexistência e também dificuldade em realizar estudos com uma população representativa, acompanhada durante um longo período de tempo. Mas se por um lado há ainda muito por esclarecer acerca dos efeitos a longo prazo da marijuana e possíveis relações com alterações neurológicas, há também uma evidência cada vez maior de que os canabinóides e seus derivados poderão ter um papel terapêutico importante em certas patologias e a investigação nesta área deverá ser encorajada e continuar com o desenvolvimento que se tem notado nos últimos anos.

O artigo acima reúne uma série de dados objectivos e científicos e não pretende, de modo algum, representar a opinião do seu autor.