Kendrick Lamar – ‘To Pimp A Butterfly’

Kendrick conquista-nos com as armas que sempre carregou – história, mensagem, flow e uma humildade inspiradora.

Sonhar que este To Pimp A Butterfly voltasse a ser um filme de Spike Lee como o Good Kid M.a.a.d. City era irrealista. Eu desejava isso com todas as minhas forças. Mas a verdade é que este não é um Do The Right Thing em que encontramos um protagonista, uma tensão, uma história. Este disco é um manifesto de cordelinhos complexos e intricados que contam a história de uma vida e onde todas as personagens e momentos nos contam a história. É como se o Magnolia fosse acerca de sair do gueto e cada personagem nos lembrasse o peso da história.

Tudo isto acontece com um tema poderosíssimo a suportar o álbum e tantas das experiências que o Kendrick até agora. Isto é um disco afro, centrado nos dilemas de uma raça que teve sempre um estigma sobre si própria. Não é por acaso que a metáfora dos cotton-pickers, repetida várias vezes ao longo do disco, aparece para nos elucidar deste trauma histórico.

Mas será histórico o termo correto? Quando temos Ferguson e Mike Brown nos telejornais em 2015? Vai ser esta busca pela realeza negus e pelo empowerment – if you believe, you can achieve it – que nos embala até ao fim do disco. A mesma sabedoria que Tupac deu a Kendric Lamar e da qual falam em jeito de entrevista no tema final, é o que nós recebemos como prémio por toda esta viagem. E uma hora de disco dá tempo para percorrer muitos caminhos sinuosos.

Para quem já se aventurou pelo livro Things Fall Apart de Chinua Achebe ficou a saber que um negro em África era medido pelo valor da sua colheita. Estes Yams aparecem na “King Kunta” e justificam que Kendrick, como alguém que já conquistou o seu sucesso possa ensinar todos os que ainda estão no bairro. E apesar do critério ser muito discutível, é nobre o que ele faz com isso.

Guiado por temas esquizofrénicos e por mensagens subliminares que vão espreitando ao longo das músicas, só nas primeiras três vamos do funk cheio de energia, para freejazz à Flying Lotus e toda a frescura sónica de “King Kunta”. O baixo de Thundercat destaca-se aqui e ali, numa produção tão intensa e bem conseguida que quando gostamos de um elemento na batida já sabemos que não tarda vai desaparecer e dar lugar a outro qualquer trecho melódico de génio.

E o mesmo se aplica ao flow. A direcção são todas as direcções, os sentimentos são todos os sentimentos. Do spoken word, à slam poetry, até à entrevista. Há punchline e poesia distribuída em cada um dos temas, mas também há meaning e intenção. É por isso que a Lucy de Hood Politics pode ser o diabo e que o mendigo de “How Much a Dollar Cost” pode ser Deus. São estes grandes temas melódicos que nos levam lá, mas é a voz dele que nos faz acreditar.

Só no fim é que regressamos à “I”, que foi criticada por meia internet, em jeito de um sermão de Kendrick ao seu público. Ainda há motivos para celebrarmos a vida, por muito que tenhamos noção que este mundo não era nada como nós queríamos. Um grande disco não tem de ser um disco fácil. E isso faz ainda mais sentido quando nos relembra que somos nós a poder mudar isso.

Num momento em que o rap tem discos como Tetsuo & Youth, B4.DA.SS e Yeezus, o Kendrick conquista-nos com as armas que sempre carregou – história, mensagem, flow e uma humildade inspiradora – por todos os que ainda não encontraram as suas armas neste mundo.