“Go Out”, o novo capítulo na obra sónica dos Blur


Não é fácil falar de Blur. E digo-o pelas melhores razões. Se todos nós temos aquelas bandas que, por nos terem feito começar a ouvir música com mais frequência e a procurar e a descobrir novos discos, vão sempre ter um cantinho especial no nosso coração, temos também as bandas donas de um cantinho igualmente especial, desta vez por nos terem feito ver e ouvir música de forma diferente. Para mim, Blur encaixa-se neste segundo grupo.

Músicas como “Parklife”, “There’s No Other Way” ou a inevitável “Song 2” são a óbvia porta de entrada para uma discografia de sete álbuns, compostos ao longo de toda a década de 90, que evoluem de canções com uma sensibilidade pop fora do comum — leia-se Modern Life Is RubbishParklifeThe Great Escape — para desabafos experimentais, carregados de batidas tropicais, pianos caóticos e camadas quase infinitas de guitarras, onde se dá prevalência ao fuzz, ao feedback e à confusão — leia-se Blur e, especialmente, 13. Ouvir a discografia de Blur de uma ponta à outra é como ir crescendo com a banda, sendo constantemente surpreendido pelas mais variadas influências e por diferentes texturas e opções sónicas, trabalhadas em estúdio com o maior rigor possível.

Foi após o lançamento de Think Tank, disco de 2003, que a banda entrou num hiatus que duraria até 2010, quando Damon Albarn e companhia anunciaram que se iam juntar novamente. Três singles — “Fool’s Day”, “The Puritan” e “Under The Westway” — e alguns concertos depois, chega finalmente a confirmação de um novo álbum. The Magic Whip é o nome do novo trabalho de estúdio, o primeiro em doze anos e o primeiro álbum com Graham Coxon desde 13, de 1999, que em 2002 tinha abandonado a banda. As doze músicas que o compõem têm a difícil tarefa de manter a qualidade do legado que os sete álbuns anteriores deixaram. “Go Out”, o primeiro single, chega-se à frente e dá a cara para provar que esta nova vida de Blur tem tanto para dar quanto a anterior.

À primeira audição, tudo soa a familiar. A batida, com um toque ligeiramente electrónico, continua a servir de fundação para a linha de baixo de Alex James, com a guitarra de Coxon a passar despercebida até ter inevitavelmente de deixar de o ser, e com samples e barulhos de sintetizadores a ocupar o lugar que sempre ocuparam. “Go Out” soa divertida, com a faceta quase infantil que estamos habituados a ouvir nos primeiros álbuns da banda e é dona de um refrão que fica na cabeça, com as vozes de Damon Albarn e Graham Coxon a sobreporem-se como tantas vezes fizeram. Para acabar, um (anti-)solo de guitarra, a lembrar alguns momentos de músicas como a “Coffee & TV”.

“Go Out” funciona como um resumo e uma celebração de tudo aquilo que os Blur já fizeram até à data, cumprindo muito bem o seu papel: soa a nostalgia, mas deixa tudo em aberto para aquilo que The Magic Whip poderá vir a ser. Um óptimo primeiro encontro com um álbum do qual podemos esperar quase tudo, sempre com a certeza de que não nos vai desiludir.

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