‘The Hobbit: The Battle of the Five Armies’


Quando comecei a escrever esta review, tinha mil coisas para dizer. Entretanto, no último mês, vi o filme outra vez, e ainda outra. Depois da terceira, depois de ouvir em eco na minha cabeça as mesmas frases furiosas e desapontadas com Peter Jackson, cheguei à conclusão de que, na verdade, não há muito a dizer.

Tolkien escreveu uma história para crianças, mas que é infantil apenas na forma. Peter Jackson usou-a para fazer um filme para toda a gente, mas que é infantil no conteúdo. Literatura e cinema são linguagens diferentes e é um erro esperar o contrário.

O Senhor dos Anéis é a comparação inevitável. Uso-a apenas para perceber que a trilogia (que já era trilogia em livro) – já com mais de dez anos! – representou, acima de tudo, um esforço para manter a obra de Tolkien intacta. Dos 11 Óscares que o Regresso do Rei recebeu, o de Melhor Argumento Adaptado foi, talvez, um dos mais merecidos: a trilogia do Senhor do Anéis era assim recompensada por duas razões diferentes: por ter sido um dos mais arrojados projectos da História do cinema, moldado sob a forma de um filme de fantasia incrivelmente complexo, bem realizado, e com uma técnica inovadora. E segundo, por ter sido tudo isto, usando uma história de aventura escrita por Tolkien nos anos 30, e mantendo a beleza etérea, a sabedoria narrativa, a reduzida carga humoristica e a serenidade da moral do Bem/Mal da obra. Quando subiu ao palco para agradecer o 11º Óscar, o de Melhor Filme, Peter Jackson disse: “…sinto-me honrado e orgulhoso por saber que a Academia conseguiu ver para lá dos trolls, e dos feiticeiros, e dos hobbits(…)”.

Há alguns dias, estreou o último filme da última trilogia da Terra Média, o Hobbit. Infelizmente, não conseguimos ver para lá do que a somente excelência técnica tem para oferecer. Não esquecer, claro, que o Senhor dos Anéis foi pré-produzido durante largos anos da década de 90, e altamente pensado por Jackson nos seus anos áureos. Mas aqui, no Hobbit, a obra de Tolkien foi mero empréstimo para fazer um filme com menos valor cinema, e mais valor comercial: um filme pouco pensado, apesar de levemente apaixonado. Isto revela-se nas tentativas toscas de aprofundar personagens recicladas (Legolas e a questão Freudiana), de ter de forçar momentos cómicos no meio de acção all over the place, de colocar envolvências românticas cliché, de alimentar constantemente a relação com o Senhor dos Anéis mais do que era preciso (já não basta ter Gandalf e Legolas, e Saruman, e Galadriel, e Elrond, e Sauron; o filme insiste em trazer aos espectadores referências a outros elementos da -futura- Irmandade do Anel). Isto são pequenas coisas, mas importam quando são feitas atabalhoadamente.

O Hobbit é (deveria ser?) sobre um jovem adulto pacato e sem grandes apetências para confusão (símbolo do everyday man, para Tolkien), que se vê envolvido numa aventura de proporções incriveis, e que depois de salvar um tesouro, depois de restituir um reino ao seu povo, depois de se confrontar com goblins, orcs, Gollumsess e dragões, tem de regressar a casa. O Hobbit é sobre mudança, sobre o que fica para trás, sobre casa, lar. O Hobbit não deveria ser um conjunto de acrobacias e batalhas, que por vezes param para que as personagens questionem o seu arco. E quando tudo acaba, Bilbo regressa ao Shire num jumpcut – no mínimo frustrante. Ainda amo o Peter Jackson, apesar de tudo, e sente-se, em pequenos momentos do filme, a verdadeira paixão à obra original. Lembro-me de ter ficado triste e reticente quando anunciaram que o terceiro filme já não se chamaria There and Back Again (o título alternativo da obra), mas sim Battle of the Five Armies. Logo aí se percebeu a confusão de prioridades. Confirmou-se. A Batalha dos Cinco Exércitos quis somente aproveitar o potencial explosivo de Hobbit para fazer um filme moderno, com todas as dimensões a que tem direito, com todos os frames por segundo a que tem direito, e com acção gratuita e espectacular. Resumindo: um competentíssimo filme comercial. É preciso semicerrar muito os olhos para nos parecer mais que isso.

Agora, nem tudo é mau. O elenco é incrível, e é aqui que jaz a pequena porção de cativação emocional do filme: Martin Freeman é um actor dramático genial, Ian MacKellen continua a ser o homem da minha vida, Richard Armitage é carismático e feroz. Jackson fez, mais uma vez, história – por razões diferentes – e sublinha a sua dedicação e a sua unicidade, dez anos depois da sua obra prima. A realização creativa é excelente, e a imagem e o som fabulosos. Eu pertenço, no entanto, à tribo urbana da malta para quem o 3D retira poder de imersão, e não o contrário. Nesse aspecto, mantenho. No entanto, o 3D do @Cinema difere em muito do 3D dos cinemas do circuito comercial. É mais amplo, mais claro, e mais leve. Para além disso,e no caso específico do @Cinema Saldanha, o som é fenomenal. Fenomenal. Dolby Atmos surpreendeu o ano passado, na estreia da Desolação de Smaug, e passado um ano, conseguiu ser outra surpresa excelente. Os nossos parabéns ao @Cinema, já agora, e um desejo forte de que permaneça como bastião do cinema durante muito mais tempo. As suas duas salas são talvez das melhores de Lisboa, e a relação qualidade/preço está para além do mensurável.

Infelizmente, a qualidade da sala não foi suficiente para suportar a sensação de awkwardness que vem inerente a este fim da trilogia do Hobbit. Talvez um dia te perdoe, Peter. Até lá, é rever o Senhor dos Anéis, e esperar que o Melhor Realizador de 2003 volte para nós.