Sobre os chaços velhos anteriores a 2000


Em 2011, o passe mensal do Metro de Lisboa custava 19,55€. Hoje, o Navegante – quer se pretenda ou não usufruir da Carris, do Metro e da CP em simultâneo – custa 35,65€. Há passes combinados cujo preço normal quase atinge os três dígitos. Vários percursos da Carris foram encurtados e a frequência de muitos autocarros diminuiu. Em 2012, deixaram a empresa 100 motoristas. Ainda esta semana foi anunciado que a linha de Cascais terá menos 51 comboios a circular. O Metro de Lisboa reduziu a velocidade fora da hora de ponta e durante a tarde chega mesmo a ter tempos de espera impensáveis. O eterno braço de ferro entre os trabalhadores e o Governo tem resultado em greves praticamente mensais.

São apenas alguns exemplos, sem uma pesquisa muito exaustiva, de como os transportes públicos em Lisboa são hoje, no geral, mais caros, mais ineficientes, mais caóticos e mais lentos. E de como, mais do que transportar pessoas, têm o condão de as enervar. Nos últimos anos a oferta pública de transportes degradou-se a olhos vistos, em grande medida devido às imposições da troika ao Governo.

São também compromissos europeus que obrigam Lisboa a reduzir a emissão de gases poluentes para atingir metas ambientais até 2020. Em matéria rodoviária, desentupir o trânsito é, para além um objectivo ambiental, uma necessidade urgente e um desejo partilhado por todos. Mas a prioridade, antes de proibir a circulação de automóveis anteriores a 2000 na Baixa (medida aceitável noutras circunstâncias), devia passar por investir nos transportes públicos como verdadeira alternativa ao carro, à altura do que se espera de uma capital europeia.

Concessionar a exploração a empresas privadas e transferir-lhes a dívida é uma solução apontada pelo Governo, mas a Câmara Municipal tem batido o pé para assumir a gestão dos transportes na cidade e deve continuar a fazê-lo. Mesmo havendo controlo do Estado sobre os preços, não é possível satisfazer os interesses da cidade quando o objectivo principal é servir o lucro. A estratégia, que não constitui nenhum segredo, é, aliás, igual ao raciocínio básico que a troika impôs (e que nos trouxe até aqui): reduzir as despesas e aumentar as receitas. É perigoso e evitável.

Do Porto, no Verão (altura em que até já estava em cima da mesa a concessão), chegou-nos um laivo animador e exemplar: a circulação do Metro durante toda a noite ao fim-de-semana, por sugestão da Câmara Municipal, aliou ganhos sociais a uma receita extraordinária. É esta forma dinâmica, atenta e sustentável de administração, compatível com o serviço público, que a Câmara Municipal de Lisboa tem de ter a coragem de assumir.

Quando, há três anos, foi anunciada a proibição de carros anteriores a 1992 no coração da cidade, a decisão foi recebida de forma relativamente pacífica. Concordamos que um carro anterior a essa data pode considerar-se, numa apreciação simples, um carro velho (daqueles que deitam fumo muito preto pelo cano de escape e fazem um barulho revelador). Agora o caso muda de figura: vedar o acesso à Avenida da Liberdade e Baixa a carros anteriores a 2000 já constitui uma certa elitização. Não condenaria o crescente emolduramento do centro de Lisboa caso não resultasse num cerco tão brusco a quem… simplesmente não tem a possibilidade de ter um carro novo. É que o preço do estacionamento naquelas zonas já é perfeitamente dissuasor para que lá se vá de carro de ânimo leve. O problema é que o metro nunca mais chega.

Dá comichão pensar que, enquanto se proíbe a circulação dos chaços HDI de 1999, assistimos à proliferação desses motores ecológicos que são os tuk-tuks. Não pode ser uma comparação objectiva, mas é sintomática.

Admita-se: a medida prejudica muito mais uma certa classe social do que beneficia o ambiente. E Lisboa torna-se cada vez mais uma cidade perigosa para conduzir; agora não só pela circunstância, mas também pela lei. O truque daqui para a frente? Fique estacionado em segunda fila nas barbas da rotunda do Marquês de Pombal à espera das 21 horas; depois, desça a Avenida da Liberdade com ar triunfal e os quatro piscas ligados.

(Apontamento final – da praxe para quem me conhece: a desertificação de 2/3 do território português não é só dolorosa para quem lá mora; é outro indício, verdadeiramente oposto, da saturação demográfica da Área Metropolitana de Lisboa. Mas isso é outra conversa.)

(foto: Pedro Moura Pinheiro)