Quando for grande quero ser cartoonista


O extremismo islâmico tornou-se criativo. E, como criativo de profissão, isto é algo que me repugna dizer. Antes faziam as coisas à sua maneira. As tradições. As adagas. Os valores antigos. Agora já não é assim.

Agora procuram inovar e surpreender-nos. Já não é mais uma guerra de guerrilheiros e terroristas contra exércitos, com a população civil a apanhar por tabela.

Agora é o reposicionamento da jihad como guerra total. Guerra contra o comércio (torres-gémeas). Contra países (Estado Islâmico). E, agora, contra a comédia (Charlie Hebdo).

Como não têm capacidade logística para aterrorizar o mundo (demasiado grande, demasiado vasto) preocupam-se em aterrorizar a perceção do mundo.

É no território da perceção que a sua atividade se cruza com a da comunicação. A minha. A do Shifter. Os extremistas deixaram de seguir uma metodologia monolítica antiga e parecem ter aberto o livro do benchmarking.

O Estado Islâmico tem construído o seu “place branding” com sucesso, seguindo a cartilha das agências de branding (ver Extreme Branding: a construção da marca Estado Islâmico). O nome, a cor, o símbolo, o brand voice, as redes sociais, a experiência de marca, o vídeo viral em que se degolavam jornalistas, a comunidade de fãs, a consistência absoluta de toda a comunicação.

O grupo terrorista que chacinou a redação do jornal Charlie Hebdo parece ter encontrado o seu benchmark nas ditaduras políticas. Quando Pinochets, Videlas e outros seus camaradas modernos se queriam vingar de um jornal, mandavam as suas polícias políticas entrar nas instalações e prendiam editores e redatores. Os jornalistas eram arrastados à força e espetados numa cela de prisão. Seguia-se a tortura, exílio ou “desaparecimento”. Como os extremistas não conseguem recorrer ao Estado de um país democrático para se vingar de um jornal, decidiram-se pela forma mais prática. Ir lá – como as polícias políticas – e abatê-los no local.

A Primavera Árabe já tinha mostrado o poder que o sentido de humor tinha como instrumento político. Despoletou o processo no Egito, Líbia, Tunísia. Contribuiu para a queda das respetivas ditaduras. O extremismo islâmico percebeu a mensagem. Com a comédia não se brinca. E decidiram fazer o que mais gostam de fazer: destruir vidas humanas.

O feitiço há de virar-se contra o feiticeiro: ao radicalizarem a resposta contra os cartoonistas, estão a radicalizar o próprio ato de criar cartoons. Agora, não é apenas uma arte com graça. É uma arte perigosa. Magnética. Cool. O perigo ao serviço de uma causa puxa o melhor das pessoas. As novas gerações que face ao desnorte do mundo atual sentem falta de uma causa “maior que a vida” que dê um sentido às suas vidas, vão perceber as implicações desta história. Vão querer pegar na caneta e usar o desenho satírico como forma de crítica social. Extremismo mau vai puxar extremismo bom. Eu próprio, quando for grande e aprender a desenhar, também quero ser cartoonista.