Nuno Artur Silva: os 50 são os novos 50


O Nuno Artur Silva é aquele a quem vulgarmente chamamos (em inglês, claro, para ser mais chique) de underdog. Para a opinião pública, o Nuno Artur é o “Gajo do Eixo”, que por acaso acaba também por ser o diretor das Produções Fictícias, que por acaso também escreveu pelo caminho algumas coisas para a Rueff e para o Herman. Aos 52, ninguém lhe parece dar mérito pelo que é, mas sim pelo que faz para os outros. Com este solo a história promete ser bem diferente.

nunoartursilvaaserio

“O que é que o baixinho que nos trouxe o Gato Fedorento magicou desta vez?” é a pergunta que deve pairar nas maior parte das cabeças dos que arriscam em visitar o Teatro-Estúdio Mário Viegas nestes dias. A resposta podia ser mais simples, mas tentarei explicar sem vos baralhar muito. “A Sério?” não é uma loucura de meia idade (“Os 50 são os novos 50” – frase a reter para a posteridade) nem uma simples noite de stand up comedy. Esta aposta do homem das nuvens – referência subtil e nada forçada ao programa que apresenta no Canal Q – também não é mais uma das tantas palestras motivacionais que nos atormentam diariamente. Aqui, felizmente, não há gestos efusivos nem se aproveita o efeito manada dos portugueses para se publicar livros mais vazios do que o coração do Vladimir Putin.

“A Sério” é, sim, uma breve reflexão cómica, e até satírica (cuidado com este termo nos dias de hoje), sobre a vida do próprio Nuno Artur Silva. Durante uma hora, o argumentista vai lançando flechas até que todas encontrem os seus alvos. Desde o amor até à vida de artista, passando pelo mítico Gabriel Alves, nenhum deles escapa. E como se isto não fosse bom por si só, o Nuno Artur decidiu ainda arrastar os Dead Combo e o António Jorge Gonçalves para a brincadeira. Mal seria se todas as datas não tivessem esgotado numa penada.

nunoartursilvaaserio_02

Sem brincadeiras: desde o Famous Humour Fest, Artur Silva parece cada vez mais confiante em palco, como se tivesse feito isto a vida toda. Tal como no Eixo, tem o teleponto e o guião ao lado mas são raras as vezes em que os consulta. Não precisa, o texto é tão seu que lhe sai de cor. As ilustrações do António Jorge Gonçalves estão no ponto e ajudam-nos (tanto a nós como ao próprio Nuno Artur) a situar no texto. Sente-se, no entanto, a falta de uma banda sonora original. Tudo bem que são os Dead Combo, mas não custava nada ter um ou dois temas preparados para um solo com esta envergadura. O Nuno merecia-o, e o espetáculo também. Não obstante essa questão, nota-se que todos estão preparados para isto. Aliás, se assim não fosse, não lançavam 5 datas para fevereiro depois de lotadas as deste mês. É bom ver o underdog a tomar-lhe o gosto. Venham mais, porque agora é “A Sério”.

(fotos: José Frade)