Descoberta proteína capaz de produzir outras proteínas sem instruções do DNA


A produção de proteínas é a tarefa mais importante das células. Mas, ao contrário do que se sabia anteriormente, para essa produção acontecer não é necessária a presença de DNA. Investigadores da Universidade de Utah, nos EUA, descobriram que algumas proteínas conseguem produzir outras proteínas sem as instruções dadas pelo material genético.

Esta descoberta pode ser importante no desenvolvimento de novos tratamentos para doenças degenerativas, como o Alzheimer.

O Dogma Central da Biologia prevê que a informação genética tem um fluxo unidireccional, através do qual seria responsável pela formação da proteínas. Segundo o seu modelo, a informação presente no DNA é traduzida para uma outra molécula, o RNA mensageiro (mRNA). Este sai depois do núcleo e chega ao citoplasma onde interage com os ribossomas – pequenas estruturas que reconhecem a informação contida no mRNA e que montam a proteína através dos aminoácidos específicos, que lhe são entregues por outra molécula, o RNA de transporte (tRNA).

Este era aqui hoje o único modelo aceite pela biologia. No entanto, o trabalho da Universidade de Utah vem dizer que existe uma outra forma pela qual uma proteína pode ser sintetizada dentro das células: uma proteína chamada Rqc2 faz o trabalho que normalmente seria feito pelo mRNA.

Os investigadores perceberam isso ao observar o processo de “reciclagem” que ocorre quando existe uma falha na síntese “tradicional” da proteína nas células. Na verdade, quando um erro é introduzido na cadeia de aminoácidos, os ribossomas param de trabalhar e chamam um grupo de proteínas que faz um controlo de qualidade; nesse grupo, está o Rcq2. O Rqc2 liga-se ao tRNA, pedindo aos ribossomas que insiram uma sequência aleatória de aminoácidos na cadeia de 20 aminoácidos.

É a primeira vez que se observa uma proteína que consegue fazer o trabalho normalmente entregue à informação genética codificada pelo DNA. “Neste caso, nós temos uma proteína a desempenhar o papel normalmente ocupado pelo mRNA. Esta história é fascinante porque vem reformular a ideia daquilo que nós achávamos que as proteínas conseguiam fazer”, revelou Adam Frost, um dos cientista da equipa responsável por esta descoberta, publicada na Science.

Os cientistas acreditam que o comportamento do Rqc2 possa ser um factor essencial para manter o organismo livre de proteínas defeituosas. É possível que ele seja o responsável pela marcação das proteínas que devem ser destruídas pelo organismo, e que a inserção da cadeia de aminoácidos com erro possa ser apenas um teste para definir se o ribossoma está a trabalhar de forma correcta.

Entender as condições exactas nas quais o Rqc2 é activado e por que motivo é que ele não é accionado em alguns momentos é o próximo passo na investigação da Universidade de Utah.