‘Birdman’


Birdman é um extraordinário trabalho de elogio e reflexão ao cinema e ao teatro. Mas, mais do que isso, é um confronto a vários níveis. Tudo neste filme é um alvo para a espingarda do realizador: críticos, público, actores, indústria de Hollywood, Broadway, filmes comerciais, redes sociais, sociedade actual, valores e ideias.

Iñárritu, ao construir a narrativa cruzada de Birdman, foi molhar o bico a Sunset Boulevard (1950). O tema do seu novo filme faz desta obra “o Sunset Boulevard dos dias de hoje”, ainda que a outro nível. Não há glamour e quase toda a acção do filme decorre num flutuar de câmara, voyeurista, pelos camarins e corredores estreitos do teatro da Broadway. A prestação de Michael Keaton é muito boa, tornando este um regresso fora do comum, precisamente pelo facto de ser tão bom. E um dos motivos pelos quais isso poderá ter acontecido talvez seja porque a própria história do filme se confunde com a realidade de Keaton.

Inãrritu não podia ter escolhido melhor actor para este papel. Nos anos 90, Keaton chegou a ser o actor mais bem pago de Hollywood, catapultado pelos sucessos de Batman. No entanto, a sua carreira rapidamente entrou em declínio, repleta de flops e falhanços que o apagaram do grande público durante mais de 15 anos. Em Birdman, o seu desempenho é notável e representa até certo ponto a sua própria história de vida, expondo-se assim com uma enorme coragem. Ao longo da sua carreira, Keaton teve quase sempre representações nervosas e irrequietas. Neste filme, desempenha o papel de Riggan com uma assombrosa naturalidade.

Outra das grandes representações no filme é a de Edward Norton. Mike, o personagem de Norton, é um constante deambular pelos muitos estereótipos da profissão e mesmo da vida de actor – tudo numa enorme sátira e com grande doses de humor. Continuando a arrecadar representações de grande nível, em Birdman Norton é um actor reconhecido pelo seu talento, atrevido e louco, que justifica o seu temperamento com o fingimento da vida real em contraponto com a sua actuação em palco: “Eu finjo em todos os lugares menos no palco “, diz-nos Norton pela voz de Mike.

Comparativamente aos filmes de Hollywood convencionais, a banda sonora revela uma enorme coragem. Antonio Sánchez, o famoso baterista de jazz mexicano, compôs com apenas uma bateria a banda sonora do filme, excepto em alguns curtíssimos momentos em que há acompanhamento de orquestra.

Birdman será um filme a revisitar sempre que nos esqueçamos de como funciona o mundo do cinema, da Broadway, do que é ser actor hoje, o papel das redes sociais na popularidade e na carreira . Sim, porque o mundo mudou mas os medos e as inseguranças são os mesmos. A arte continua a imitar a vida e a vida continua a imitar a arte.

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