‘Birdman’: o (não) making of da cena em Times Square


Não é por acaso que Birdman é um dos líderes da corrida aos Óscares. Está nomeado para nove categorias e muito se tem falado do conceito da obra de Iñarritu. São cerca de duas horas no deambular de câmara em aparente filmagem contínua. O corte e a costura dos planos existe, efectivamente. Seria praticamente impossível que assim não fosse. Outrora, André Bazin, co-fundador da lendária revista Cahiers du Cinéma, definiu o plano-sequência como “a filmagem de uma acção contínua com um longo período de duração, no qual a câmara realiza um movimento sequencial, sem ocorrência de cortes, em apenas um take”. Defendia a ideia de que este recurso conferia mais realismo ao cinema, evitando a ruptura da realidade.

Foi precisamente este o objectivo de Alejandro G. Iñarritu em Birdman: conferir um efeito de realidade às cenas, aproximando o espectador do desenvolvimento da narrativa.

Na prática, as gravações do filme ofereceram vários desafios, como é natural com este tipo de abordagem técnica. Um dos maiores terá sido, sem dúvida, a cena passada em plena Times Square. Tim Gray, editor da revista Variety, resume desta forma o antes, durante e depois da cena:

A cena: O actor Riggan, Michael Keaton, vestido apenas de roupa interior, meias e cuecas, fica trancado do lado de fora do teatro St. James, em plena Times Square, exposto aos seus fãs boquiabertos até chegar à entrada principal do teatro.

Desafio logístico: A produção não se podia dar ao luxo de fechar Times Square ou de pagar a figurantes que a preenchessem. Iñarritu arriscou e filmou a cena com “pessoas reais”. Foram duas as preocupações fundamentais da produção: a segurança e o medo de que alguém comprometesse o realismo da acção, visto que tinha de ser tudo feito num só take. “Não havia nenhuma possibilidade de cortar se acontecesse algo de errado, eu não poderia remover ou manipular. Tinha de ser perfeito”, disse o realizador mexicano à Variety.

Desafio criativo: A cena tinha de transmitir o estado emocional de Riggan e o seu espírito maníaco. “Tinha que ser intimista, mas espetacular. Intenso”, confessou o cineasta. A cena ficou a cargo de Iñarritu e do director de fotografia Emmanuel Lubezki, que optaram por filmar durante a noite, para captar melhor a iluminação de Times Square. Inicialmente a câmara segue lateralmente a personagem de Keaton, para de seguida se mover para um plano frontal e demonstrar assim o histerismo das pessoas quando o reconhecem e procuram para uma fotografia.

As filmagens: Foram quatro takes, com início às 20:30. Três detalhes, muito importantes, foram tomados em conta: se o início das filmagens fosse muito cedo a iluminação não funcionaria e se fosse tarde demais a número de pessoas seria pouco denso. Por fim, o número de elementos da produção teria de ser o mínimo, para não chamar a atenção. Os movimentos de Keaton foram acompanhados por apenas quatro pessoas: Lubezki, o operador de foco, o operador de som, e o técnico de imagens digitais. Foram também utilizados oito assistentes de produção que trabalharam no controlo da multidão. Iñarritu esteve sempre por perto. Em dois dos quatro takes, o realizador filmou Keaton com o seu smartphone. Mais tarde usou essas imagens numa cena em que Emma Stone, a filha da personagem principal, observa o incidente no Youtube.

Distracção: Para desviar a atenção da câmara, Iñarritu contratou um grupo de bateristas de rua. “Todos os turistas queriam olhar para os bateristas. Um homem semi-nu em Times Square? As pessoas já tinham visto isso antes”, disse o realizador.

Solução descartada: The Amazing Spider-Man 2 tinha construído uma Times Square em CGI (Computer-generated imagery). A equipa de Birdman debateu brevemente esse assunto bem como a criação de multidões em 3D. “Mas teria sido terrível” disse Iñarritu.

Desafio pós-filmagem: Times Square é repleta de publicidade, geralmente dominada por neons. A equipa jurídica de Birdman teve, por isso, de obter permissão de todas as marcas, para que estas pudessem aparecer no filme. Reuniram-se assim todas as condições para um cenário Freudiano com tanta luz e poluição visual, sempre acompanhado de um livre balancear de câmara.

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O resultado de todo este processo é de arregalar os olhos. Mesmo admitindo que, pelo menos, os gritos de “Look, it’s Birdman” e alguns pedidos de autógrafos tenham sido “encomendados”, a junção da técnica do plano-sequência e o trazer do cinema para a rua é muito inteligente por parte de Iñarritu. Murnau, em 1927 no filme Sunrise, foi um dos primeiros a usar o plano-sequência e Godard, por volta dos anos 60, trouxe o cinema para a rua. Aproximou-o das pessoas, da luz não artificial e deu à narrativa um corpo humano de realidade. Agora, em 2015, podemos dizer que o uso dessa técnica resistiu e aperfeiçoou-se com o tempo. E quando aliada ao bom uso da tecnologia cinematográfica, ocorre um intensificar do sentimento do espectador. Iñarritu conseguiu essa omnipresença na acção, dando realidade ao delírio e à sátira em Birdman.

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