Pedro Costa: um português estrangeiro a fazer cinema


Pedro Costa é um caso singular do cinema português, valorizado no estrangeiro e um desconhecido para a maioria dos portugueses – um estrangeiro nascido em Portugal.

Pedro Costa, 55 anos, fez a estreia internacional do filme Cavalo Dinheiro no Verão passado no festival de cinema de Locarno, na Suíça, conquistando dois prémios: o de melhor realizador e o da Federação Internacional de Cineclubes. Mais recentemente, a revista Sight and Sound, do British Film Institute, classificou Cavalo Dinheiro como o terceiro melhor filme de 2014. Acima de Pedro Costa só Boyhood, de Richard Linklater, em primeiro lugar e o filme Adieu Au Langage, de Jean-Luc Godard. O terceiro lugar é repartido entre a última obra do cineasta português Pedro Costa e Leviathan, de Andrey Zvyagintsev.

Cavalo Dinheiro é protagonizado por Ventura, o cabo-verdiano que entrou em Juventude em Marcha e que Pedro Costa conheceu na rodagem de dois outros filmes no bairro das Fontainhas (já demolido), nos arredores de Lisboa: Ossos (1997) e No Quarto da Vanda (2000). O filme estreia-se nos cinemas portugueses a 4 de dezembro. A partir de 2015, terá estreia comercial no Reino Unido, França, Bélgica, Japão e Estados Unidos, país onde Pedro Costa será alvo de uma retrospetiva.

Pedro Costa é singular pelas palavras que diz e escreve. É nesse processo que assenta o seu cinema – exteriorizar o interior. O interior é a imaginação e o exterior é o que nos faz. Hoje vivemos numa sociedade em que o ser humano é o centro. Portanto, falar do interior no cinema é expor o que nos faz. Como é que um português pode falar do seu país, das suas raízes, do seu cinema, se não conhece o que o faz?

O público português não está habituado a singularidades positivas. Estranha e dificilmente entranha. Tudo o que é diferente, é estrangeiro para os nossos sentidos e nós somos responsáveis por isso. Trata-se tudo duma questão de querer compreender, de querer sair da esfera que nos formata a mente, tanto no dia-a-dia, como no cinema a que fomos acostumados nos locais habituais.

O mercado quer vender produto, mercadoria, o próprio público fala em vender produto e afirma que os realizadores portugueses não sabem fazer prospecção de mercado. Querem que o cinema seja, todo ele, um mercantilizar de emoções. E isso é construir filmes ao contrário – filmes de bilheteira. Por outro lado, esta é uma falsa questão para alguns e ainda bem. Pedro Costa diz-nos que os seus filmes dependem cada vez menos do cinema e cada vez mais das pessoas com quem filma e do local onde está. Este é o processo normal e lógico de quem constrói cinema de confronto.

Pedro Costa reafirma que “em Portugal e noutros países, duma forma geral, há falta de consciência de muitas coisas, e há um oportunismo e uma ignorância a todos os níveis. Temos uns parolos, uns pacóvios e uns ignorantes que fazem um cinema que não se diferencia da televisão mais bruta, mas que sobretudo não é comercial, ou seja, nem sequer rende na bilheteira para que se possa reproduzir esse modelo, portanto, eles vivem tal como eu vivi, e outros meus colegas vivem, de apoios. Toda a gente participa nessa mentira, toda a gente é responsável (…) há um filme do Godard, em que uma personagem diz: eu sou responsável pelo meu prazer, eu sou responsável pelo meu tédio. Eu sou responsável por tudo. No fundo é tudo uma questão de responsabilidade, quanto mais sensível se for a certas coisas, menos hipóteses têm os brutos de vencer.”

O realizador lamentou recentemente, na apresentação de Cavalo Dinheiro, que os próprios realizadores pensam muito em dinheiro “porque não o têm” e a indústria cinematográfica vive um momento de “miséria total”, com um “cinema que não funciona, é escapista, não ouve e esbanja”.

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