Mac DeMarco: a simplicidade faz o hype


Não são muitos os artistas estrangeiros ale segunda divisão (leia-se “meio da tabela”, quando comparados com uns Imagine Dragons ou uns 5 Seconds Of Summer) que se podem dar ao luxo de esgotar um concerto a solo em Portugal no próprio dia sem o apoio de uma promotora ou imprensa.

Um simples post no Instagram de Mac DeMarco foi suficiente para fazê-lo, quebrando o lado hipster da internet, enchendo o Musicbox e deixando outras centenas de pessoas à porta. Felizmente, tanto para ele como para nós, DeMarco é um dos poucos que ganhou esse privilégio e que o sabe usar. E como é bom vê-lo ao vivo, a solo ou acompanhado.

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É-nos concedido o privilégio de travar uma breve conversa com o rapaz por detrás do hype, a fim de compreender a sua aceitação entre os melómanos mais jovens. Saímos de lá esclarecidos, e quase convertidos a este novo culto. Mac é um miúdo comum, bem disposto e trabalhador. É, no fundo, igual a todos os jovens, diferenciando-se apenas pela forma como deixa escancarada – e pronta a ser a trespassada – a porta do seu universo de canções sobre nicotina, dias que parecem não ter fim à vista e amores de uma vida inteira (sim, Kiki, estamos a falar de ti).

Não deixa de ser, no entanto, curiosa a atenção dada a DeMarco em detrimento de projetos semelhantes. Ty Segall, Amen Dunes ou Kurt Vile estão longe de ter a visibilidade deste rapaz, sobretudo por não investirem na interatividade (dentro e fora da rede) com os seus fãs, o ingrediente comum à maior parte das receitas de sucesso dos últimos 5 anos. Em Portugal isto é claríssimo com D’alva ou Capitão Fausto, como é no Brasil com Tiago Ilorc, ou nos Estados Unidos com Azealia Banks. #DarTudo nas redes sociais parece ser uma boa estratégia. Veremos até quando dura…

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Mas se só da boa disposição dependesse a carreira do canadiano, talvez hoje não estivéssemos a falar sobre ele. Este miúdo sabe o que está a fazer quando pega numa guitarra e se lança a uma canção; as progressões de acordes parecem sair-lhe com a naturalidade de um revólver que dispara a sua primeira ou última bala. Mac é eficaz sem ser chato; é divertido sem ser anedótico. É, acima de tudo, especial sem ser estranho.

O tempo da conversa rapidamente se esgota. Meia hora de palratório parece não ser suficiente para conhecer DeMarco a fundo, mas não me deixo de sentir grato pela amabilidade com que este me recebe. Foram raras as ocasiões em que deixou cair o sorriso que carrega habitualmente nos lábios. Com ele, o espírito é de constante amena cavaqueira – excepto quando se mencionam os recentes tumultos nos Estados Unidos – com cigarro a chegar atrás de cigarro e alguma cerveja pelo meio (embora Mac tenha moderado o consumo de álcool nos últimos tempos, contou ao NME no final de Novembro). Um cocktail perfeito para dar à língua, digo eu.

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No final despedimo-nos com um abraço, como quem deixa partir um amigo de longa data, mas não sem que antes lhe tentasse tirar alguns nabos da púcara sobre a primavera que aí vem. Ele, despreocupado, confirma o que já previa. E eu sorrio, como quem murmura um obrigado. Vemo-nos em Junho, campeão.

(fotos: Alípio Padilha)

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