‘L’Abri’


A eterna batalha de uma Europa civilizacional em incorporar os imigrantes é o tema que Melgar nos traz através de L’Abri (O Abrigo).

Ao quarto dia do festival internacional de cinema, Porto/Post/Doc, Fernand Melgar convidou-nos a acompanhar seis meses de inverno passados num abrigo social, na Suiça, que todas as noites acolhe os sem-abrigo da cidade, com L’Abri. Um documentário que espelha a dificuldade com que uma Europa civilizacional se debate: integrar os imigrantes.

Esta eterna batalha é-nos relembrada pelo realizador Fernand Melgar, através da responsabilidade diária dos gestores do abrigo, situado nos Alpes suíços, em escolher quem lá fica e quem passa a noite ao relento, por exemplo, revelando-se como um autêntico convite à discussão daquilo que é a crua realidade da imigração num país onde dormir nas ruas dá direito a multa e a resposta do sistema social é claramente escassa e disfuncional. Para subsistir, o sistema necessita de uma maior escrutinação daqueles que o procuram: cria uma espécie de discriminação dentro da discriminação. Consequências exemplificativas são as acusações que romenos e africanos trocam mutuamente ou a criação de um cartão de acesso ao abrigo.

A acção desenrola-se maioritariamente dentro do “bunker”, como várias personagens lhe chamam, e é no acompanhamento persistente do desespero de africanos, romenos ou espanhóis, do ambiente de tensão entre os funcionários do abrigo e os seus utentes – mostrado pelo movimento mecânico das entradas e saídas – que “O Abrigo” consegue causar uma maior aproximação ao público.

Para além da imigração, são exploradas outras questões sociopolíticas laterais como a discriminação e a pobreza, transportadas para o ecrã através das incertezas e dos incidentes de quem dia após dia procura lugar para pernoitar.

Apesar do profundo sentido de solidariedade, o abrigo é um lugar de guerras: entre pares, entre imigrantes e gestores, entre gestores e chefe do abrigo e, supomos, entre este último e superiores. Sem cair em moralismos banais e sem tomar partidos, Melgar desvenda a hipocrisia, se assim se pode dizer, de uma política. O retrato destas sensíveis realidades já valeu lugares de distinção nos festivais de Locarno e de Sevilha.

(texto: Alexandra João Martins e Raquel Cascarejo)