Ferguson, Eric Garner e Apple. O escalar da contestação social


Há quatro meses atrás, precisamente no dia 9 de Agosto, deu-se o momento trágico que deu início ao que os mainstream media agora apelidam de “Caso Ferguson”. Michael Brown foi morto a tiro pela polícia de Ferguson, Missouri. Brown, de apenas 18 anos de idade, estava desarmado quando foi baleado por 6 vezes pelo agente Darren Wilson. Brown era negro, Wilson branco.

A população negra de Ferguson revoltou-se em protesto contra a discriminação racial e o excesso de força perpetuados pelas forças policiais da cidade. Nos meses que se seguiram, Ferguson foi palco de violentos confrontos entre polícia e civis, num culminar frenético da tensão racial que há muito se vivia na região. Sobre o acontecimento em particular, ainda que a excessividade atroz da acção do polícia seja inquestionável, os detalhes em torno do caso permanecem um mistério até este dia, com muitas versões a contradizerem-se num contexto social crítico em que as emoções e a revolta levam a melhor.

A situação de ferro e fogo em que a cidade de Ferguson estevem mergulhada foi tema de destaque pelos todos os órgãos de comunicação social por esse mundo fora. No entanto, um mês antes da tragedia que vitimou Michael Brown, deu-se um outro caso de excesso de força policial que acabou com a morte de um civil inocente. No entanto, ao contrário do incidente de Ferguson, os detalhes são bem conhecidos – todo o incidente foi registado num vídeo amador.

Corria o dia 17 de Julho quando Eric Garner, afro-americano de 43 anos, foi abordado por dois agentes da polícia de Nova Iorque, que o acusam de estar a vender cigarros ilegalmente. Garner revolta-se e começa a desconversar com os agentes enquanto tenta, em vão, defender-se da acusação que lhe haviam feito, repetindo vezes sem conta que não tinha feito nada. Os polícias tentam prender Garner, que resiste à detenção. Daniel Pantaleo, um dos agentes presentes no local, utiliza uma técnica de estrangulamento (que é expressamente proibida pela polícia de Nova Iorque) para desespero do homem que, indefeso, acaba por falecer poucos momentos depois. As imagens estão disponíveis online e podem chocar os mais impressionáveis.

O vídeo correu a internet e gerou ondas de contestação um pouco por todos os EUA. A vaga de protestos que se seguiu atingiu o seu ponto mais alto no início deste mês, quando a justiça norte-americana decidiu não indiciar Pantaleo, deixando o agente escapar impune existindo provas irrefutáveis do seu crime. Aliás, a única pessoa a ser acusada no meio de tudo isto acabou por ser Ramsey Orta, autor do vídeo amador que registou as agressões das forças policiais. Semanas depois de ter gravado o incidente, Orta foi indiciado por suspeitas de tráfico de armas.

Em resposta ao desfecho do caso, um grupo de manifestantes realizou na passada sexta-feira um protesto revestido de enorme simbolismo. Dezenas de pessoas tomaram de rompante a icónica loja da Apple em Nova Iorque para encenar um “die in”. Por detrás do lema #ICan’tBreath – derradeiras palavras de Eric Duncan antes de sucumbir perante a força policial excessiva – o grupo de manifestantes fingiu-se de morto durante cerca de 4 minutos, num movimento simbólico de indignação contra a discriminação, a conduta abusiva das forças policiais e a sua aparente imunidade judicial, que nem um vídeo explícito conseguiu derrubar. As imagens mostram um contraste perverso entre o cenário materialista e tecnológico da Apple e a carga humanitária e trágica em que o protesto está envolvido. Vale a pena ver.

Já esta madrugada, no aquecimento para o jogo da NBA entre os Brooklyn Nets e os Cleveland Cavaliers, LeBron James, entre outros jogadores, juntou-se à causa usando uma sweat com a inscrição “I Can’t Breathe”. Nem o facto de estar escrita em Comic Sans retira impacto à posição de assumida por King James.

Importa referir, e em jeito de conclusão, que o agente de Ferguson, Darren Wilson, também não foi acusado de qualquer crime pela justiça dos EUA. Os protestos continuam por terras norte-americanas, e a continuar assim não há razões para adivinhar que cessem num futuro próximo. Muito pelo contrário.

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