Adeus, Clip Art


Para aqueles que tiveram aquilo que considero o imenso privilégio de acompanhar os inícios da revolução informática na década de 90, a palavra Clip Art deverá certamente soar familiar. Olhando para a vastíssima gama de inovações tecnológicas a que hoje temos acesso no nosso quotidiano, facilmente nos esquecemos de que nem sempre foi assim, de que houve uma altura em que o Clip Art era um verdadeiro luxo. Aqueles que cresceram nos anos 90, como este que vos escreve, sabem bem do que falo.

Lembro-me de passar horas sentado no sofá, sempre com uma postura nada aconselhada, rato na mão direita e teclado na esquerda, a olhar para o ecrã, tal e qual um burro a olhar para um palácio. Lembro-me de ser demasiado novo para poder “mexer no computador” sem a devida supervisão, de ver a minha mãe a comprovar a sua quase invencibilidade no Freecell e no Solitário, e de fazer grandes tardes de jogatanas com os meus primos de volta do jogo “Prince”, que curiosamente só muitos anos mais tarde me apercebi de que era o mesmo que vinha da Pérsia. Acredito que não seja o único com semelhantes memórias. Lembro-me daqueles sons característicos do Windows 98 a iniciar e dos autênticos monstros de metal que eram os primeiros computadores. Mais do que tudo, lembro-me simplesmente de explorar. Sem jogos, sem internet, sem e-mail, sem facebook. Só o tal “mexer no computador”, dava para me entreter durante horas, entre variadíssimas tentativas falhadas de ser Picasso no Paint até múltiplas odisseias a neutralizar campos repletos de minas, tudo para que no final o boneco amarelo do Minesweeper aparecesse todo fanfarrão de óculos escuros postos. Foi uma bela infância, admito-o.

Mas esses dias estão bem para trás. A tecnologia morre sem inovação, e inovação significa deixar o velho e embraçar o novo. Hoje, mais um velho fica para trás. O Clip Art, um dos primeiros portais de imagens que a Microsoft disponibilizou nos seus computadores, vai ser apagado. As últimas funcionalidades do programa que esteve acessível até ao Office 2013 e que continuava a sê-lo online vão ser descontinuadas, segundo anunciou a Microsoft no início deste mês. No seu lugar estará o Bing Images, que funciona como um qualquer motor de busca de imagens, mas em que estas serão filtradas pela Microsoft para garantir que o seu uso pessoal e comercial é permitido. A razão para o fim do Clip Art? Já praticamente ninguém utiliza a funcionalidade, e a utilização da biblioteca de imagens do Office tem vindo a cair a pique nos últimos anos. Tal como o seguro (refiro-me ao ditado, não ao político), morreu de velho.

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Adeus, Clip Art. Nunca esquecerei aqueles powerpoints trogloditas que só tu sabias abrilhantar. Aquelas imagens estranhas a apontar para o psicadélico mas inexplicavelmente animadoras, e até exemplificativas. O meu lado mais nostálgico está deveras abalado. Vais deixar saudades, velho amigo.