‘Voces Para Un Mundo Mejor’: um monumento à liberdade de expressão


Pode ter passado ao lado de muitos, mas estreou, na semana passada, um dos grandes programas televisivos de 2014. Voces Para Un Mundo Mejor é uma lufada de ar fresco no mundo da entrevista política – em que os discursos parecem cada vez mais síncronos e ensaiados – predispondo-se a deixar os partidos de fora, focando-se no que é essencial: a Declaração Universal dos Direitos Do Homem. Mas uma receita de sucesso não funciona sem um bom chef, e aí entra Baltasar Garzón, o inconfundível juiz que conduz a ordem de trabalhos, e que tem as perguntas certas a fazer, bem como os convidados certos a escolher. Uma série que vale ouro.

Garzón, para os mais incautos, é conhecido pela impunidade (tema aliás debatido ao longo das várias entrevistas), tendo sido o primeiro magistrado a decretar a prisão de um chefe de governo – neste caso Pinochet – com base na jurisdição universal. O “super-juiz”, apelidado anos antes do agora mediático Carlos Alexandre, regressa às televisões para debater com políticos e ativistas a declaração “menos cumprida” do universo jurídico, após ter sido proibido de exercer as suas funções em Espanha no ano de 2012, como consequência de um processo em que recorreu a escutas ilegais.

As 8 vozes para um mundo melhor são Adolfo Pérez Esquivel, Rigoberta MenchúShirin Ebadi (prémios Nobel da Paz), Lula da Silva, Julian Assange (fundador da Wikileaks, representado inclusive em tribunal por Baltasar Garzón), Roberto Saviano (jornalista que desvendou os mistérios da máfia em “Gomorra” e que este lançou este ano “Zero Zero Zero”), mas também Kerry Kennedy, Juan Méndez e Frederico Mayor Zaragoza (ativistas da luta pelos Direitos do Homem).

Cada entrevista dura cerca de 30 minutos e aprofunda diversos artigos do “melhor programa de Governo alguma vez escrito”, procurando respostas acerca da atualidade deste documento, bem como evidenciando os numerosos casos em que a Declaração parece ter sido esquecida. Neste contexto, destacam-se sobretudo as intervenções do ex-presidente Lula, mas também para as de Saviano e Assange (a entrevista simultânea a dois dos homens mais odiados pela autoridade é um monumento à liberdade de expressão, opinião e informação e merece ser acompanhada com a maior das atenções).

Portugal teve o privilégio de ser o primeiro país a receber este ciclo de conversas – inaugurado no Leffest e apresentadas pelo “super-juiz” e depois trazido pela parceria Plural/FIBGAR (Fundación Internacional Baltasar Garzón) à TVI 24. Ainda não sabemos se o programa voltará a passar no pequeno ou grande ecrã, ou se eventualmente acabará no YouTube, mas fica o desejo de o poder partilhar num futuro próximo com todos os que lêem esta crítica.

Para terminar, transcrevo, a título de curiosidade, parte da última entrevista da série, em que Garzón passa de inquiridor a inquirido, e na qual relembra uma das máximas partilhadas pelo “amigo e adorado” José Saramago:

Eu sou um pessimista positivo. É que os otimistas nunca conseguem nada- como tudo está bem, nunca fazem nada. Já os pessimistas acham que tudo está mal e por vezes fazem algo. Agora, os pessimistas positivos são os que acham que nada vai mudar, mas que têm de fazer algo. E esses são os que mudam o mundo“.

Dá vontade de sermos também nós pessimistas positivos, não dá?