‘La Cour de Babel’


Ontem, pelas 21h30, La Cour de Babel marcou o arranque da Festa do Cinema Francês na cidade de Almada. Esta é uma das últimas cidades a receber este grande festival que já percorreu outros tantos pontos do país.

Sabia de antemão que se tratava de um filme especial e carismático, mas nunca pensei sair da sala de cinema do Fórum Romeu Correia com o coração cheio. Cheio de lágrimas. Cheio de certezas que este poderia ser um dos candidatos a vencedor do melhor filme do festival.

A cidade é Paris. Os protagonistas são pequenos adultos entre os 11 e os 15 anos, de nacionalidades diferentes, que se reúnem na mesma sala de aula. São alunos da turma de integração do colégio La Grange aux Belles e estão juntos para aprender francês e posteriormente retomar os estudos via “ensino geral”. Acontece que esta aprendizagem e adaptação nem sempre são fáceis. No fundo, é viver num país que não o nosso e estar sujeito a condições duras para alcançar um dia-a-dia melhor.

Eles, têm 11, 12 anos e sabem o que é ser nómada porque “a Assistente Social assim o manda”. Elas, meninas tão pequeninas, fugiram de países como o Senegal e a Guiné, para não serem entregues à vida que é esperada para uma mulher: ser excisada, casar e não estudar.

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“Vim para França para ser uma mulher livre.”
“Vim para França estudar mas fiquei 14 anos sem ver a minha mãe. Um dia quero ser médica.”

Julie Bertucelli, realizadora do filme, filmou os intercâmbios, os conflitos e as alegrias deste grupo de alunos. Fez um trabalho extraordinário em parceria com a professora desta turma, que já no fim do documentário partilha com os seus alunos a alegria que foi trabalhar com eles. Muitas lágrimas correram. Mas muitas promessas ficaram por cumprir: quiçá Rama (Guineense) irá ser médica, Oksana (Ucraniana) uma cantora famosa e Xin (chinesa) uma professora de Chinês.

La cour de Babel é um documentário fascinante sobre a inocência e a coragem destes jovens adolescentes que foram obrigados a crescer depressa demais. Relembrou-me tantas vezes o menino Zezé do livro “Meu Pé de Laranja Lima” que questionava, ao seu querido Portuga, “Porque contam coisas às criancinhas? A vida sem ternura não é lá grande coisa”.

Ali, em Paris, naquela que era uma turma “à parte”, estas crianças encontraram a ternura de uma professora que os fez questionar o mundo e aprender as coisas mais simples.

Porque as mais difíceis já eles tinham descoberto.