‘Interstellar’


Partir para a review de um filme como Interstellar deve ser sempre encarado como uma tentativa de nos fazermos ao mar num barco de borracha, munidos apenas de um par de remos. A viagem promete ser cansativa. Pode valer a pena, mas dificilmente poderemos almejar o outro lado do Atlântico.

Christopher Nolan poderá ter pensado algo parecido quando resolveu abraçar este projecto. Saberia de antemão que as comparações que este seu trabalho acabaria por sofrer soariam muitas vezes como críticas. O facto de não ser propriamente um génio louco do cinema acaba também por torná-lo uma pessoa consciente do que faz. As suas opiniões são quase sempre honestas e se por um lado isso nos faz simpatizar com ele, por outro deixa-nos a pensar que os desafios que assume seriam ainda mais game-changing se fossem regados por uma – mesmo que pequena – dose de loucura.

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A honestidade do britânico fê-lo responder sem medos à comparação com o clássico 2001- A Space Odyseey. Segundo Nolan, não se trata apenas de uma referência. É esse o real motivo pelo qual, a partir do dia em que o pai o levou a um cinema em Leicester Square para ver a obra-prima de Stanley Kubrick, ele prometeu a si mesmo que se um dia tivesse a oportunidade de realizar um projecto de ficção científica sobre a exploração do universo, agarraria essa oportunidade com unhas e dentes.

Esta confissão acaba por dar a qualquer um a legitimidade para, sustentadamente ou não, iniciar comparações de todas as formas e feitios. Porque também é no espaço, porque tem máquinas humanizadas, porque há uma missão, porque, porque, porque… Mas porque não parar e pensar se haverá ou não algo que diferencie tudo isto?

É logo na mensagem que as duas obras tomam rumos diferentes. Mas não só. Em Interstellar, não existe um homem vs. máquina e por isso o peso das mesmas é relativo. Ah, a relatividade. Esse bicho de sete cabeças que Nolan resolveu enfrentar quando decidiu partir nesta cruzada, ainda que não o tenha feito de forma leviana. Nolan já sabia que Kip Thorne estaria nesta luta consigo. Afinal, enfrentar um desafio destes com uma das referências da astrofísica no mesmo barco, pode até acabar por parecer um bom ponto de partida.

Aí, no ponto de partida deste projecto, pode estar a explicação de muito do que é criticável na obra que Nolan assumiu. Quando se juntou ao seu irmão Jonathan, este já trabalhava há sensivelmente um ano. Acompanhado desde o início por Kip Thorne, Jonathan criava um argumento com o propósito de ser realizado por… Steven Spielberg. E nós sabemos o que esperar de Spielberg. Ou o que não esperar. Se Nolan já é visto por alguns como um criador de blockbusters, o esforço para ter uma obra respeitada, quando esta estava originalmente pensada para ser realizada “à lá ET”, teria que ser ainda maior. E esse esforço merece ser reconhecido.

Interstellar não é uma obra perfeita. O tempo dirá se chegará a ser uma obra prima. E não falemos em termos científicos. É mais do que admissível que a meio caminho de tamanha viagem, realidade e ficção acabem por se misturar. E talvez tenhamos que aceitar o resultado como maioritariamente brilhante. A verdade é que o comum dos mortais não tem grandes noções sobre física e mecânica quântica. Por isso, a quantidade de informação que temos que processar para começar a formar um mapa universal na nossa cabeça acaba por ser uma das coisas que mais nos atrai durante as 2 horas e 45 minutos de filme. E por falar na duração, sejamos justos. Queixar-nos de que o filme é demasiado longo é admitir que metade do que nos é transmitido acaba por nos passar ao lado. E Nolan esforçou-se demasiado para que isso não acontecesse. Demasiado porque, num mundo onde as tempestades de pó são constantes, será normal que consigamos deduzir o motivo pelo qual um miúdo tosse repetidamente. Usar uma fala para nos dizer “é do pó” chega a ser insultuoso. Mas será isto suficiente para tirar interesse ao filme? Em parte sim. Mas quando o Mestre Kubrick nos mostrou os planos do movimento dos lábios dos astronautas enquanto estes tentavam não ser ouvidos pelo super computador HAL 9000, nós percebemos que tudo o que diziam estava a ser assimilado pela máquina. No entanto, numa das sua falas humanizadas, HAL acaba por dizer algo como “vocês tentaram não ser ouvidos, mas eu li os vossos lábios”. Igualmente escusado, não será? Não é uma desculpa, mas é um bom pretexto para perdoar Nolan, que peca por ter mais umas quantas coisas deste tipo espalhadas pelo resto da história.

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São coisas como estas que levantam dúvidas sobre Interstellar. Dúvidas num mau sentido. Dúvidas que seriam muito melhores se nos deixassem saudavelmente confusos, como Nolan nos deixou quando em 2000 nos esbofeteou com Memento. É talvez um pouco dessa loucura e irreverência, típica de um Nolan bem mais novo, que falta para tornar Interstellar numa grandíssima obra. Um Nolan que vemos agora moldado pela indústria que cultiva o directo por oposição ao subliminar. Uma indústria que prefere o volte-face barato e que quase proíbe a divagação livre pelo desconhecido.

Ainda assim, é aqui que temos que voltar a dar a mão à palmatória. Nolan sabe o que faz. Ainda que por vezes ceda às pressões do que é habitual no cinema actual, há desafios de que não abdica – o cheirinho a Terrence Malick que por vezes paira no ar é prova disso mesmo. E Interstellar terá sempre que ser visto como um filme desafiante. Não só porque desafia o Universo e a ideia que temos dele, como também desafia o próprio público, que muitas vezes se contenta com um bom balde de pipocas ou com a companhia do encontro romântico cliché. O impacto que o filme terá na nossa sociedade será relativo. Ainda que esse seja um papel que esperemos que o Cinema, enquanto arte, conserve para sempre. (Para já, uma pequena descoberta científica é um bom contributo para esse tal impacto.)

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Numa obra como esta, é difícil que seja a relação entre Matthew McConaughey e os seus filhos a agarrar-nos ao ecrã. A personagem da pequena Murph até poderá ser uma das coisas boas do filme. Também não falta – e não faria falta – a já tradicional frase sobre o amor, que neste caso lhe atribui o estatuto de constante perante as variáveis tempo e espaço. E quanto aos intervenientes e às performances propriamente ditas, não há muito a dizer. No geral não existem grandes falhas ou destaques. Anne Hathaway cumpre sem impressionar e, bom, o que dizer mais de Matthew McConaughey? Dificilmente o papel lhe valerá outro Oscar, mas não belisca em nada mais uma prestação quase imaculada.

A narrativa frequentemente épica exigia a repetição da colaboração Nolan-Zimmer. O trabalho conseguido em Inception (2010), e não só, fazia antever coisas boas, que se confirmaram quase na totalidade. Por vezes no limite do exagero, a sonoridade criada por Hans Zimmer é, mesmo assim, notável. Principalmente quando se sabe que foi composta depois de Zimmer receber uma folha escrita à máquina, que contava uma pequena história sobre um pai que se despedia da filha para realizar um trabalho importante, e que terminava com a citação de uma frase dita por ele numa conversa com Nolan, mais de 1 ano antes. Uma conversa sobre pais e filhos, numa altura em que nenhum deles tinha a mínima ideia sobre qual o próximo projecto em que trabalhariam juntos. Zimmer pegou na folha, compôs sobre aquela pequena história e no dia seguinte apresentou a sua interpretação a Nolan, que ficou boquiaberto. Quando Nolan lhe contou a história de Interstellar, Zimmer disse que aquilo que acabara de escrever era altamente pessoal e não se adequava à história que este agora lhe contava. Nolan respondeu-lhe que com aquilo, tinha acabado de perceber onde estava o “coração da história”. Parece lírico e também será algo discutível.

Discutível talvez seja uma boa palavra para definir Interstellar. Ainda mais se conseguirmos olhar para o termo discutível como o mote para o princípio de uma troca de conhecimentos que, no final, nos levará a um nível de conhecimento superior. Mas, enfim, os remos não são leves, os braços já cansam e é normal que entretanto tenhamos andado um bocadinho à deriva. Como talvez tenha acontecido a alguns dos espectadores que têm preenchido as salas de cinema, por todo o mundo. Mas talvez possamos olhar para isso como uma coisa boa. Nolan acreditará certamente que andar à deriva no desconhecido acabará por ter as suas vantagens. Ainda que, muito provavelmente, não convenha que o façamos num barco de borracha com dois remos.