Desde quando é que o Euromilhões é uma aposta ganha?


No meu passado recente em Setúbal, não era um passatempo raro juntar-me com a canalha da minha criação e passarmos horas, geralmente enquanto se comia, fumava ou bebia, a idealizarmos onde gastaríamos o Euromilhões, caso o ganhássemos.

Ao longo do tempo que se passou, e mesmo transitando para uma cidade onde o bem estar financeiro parece uns quantos níveis acima, não deixo de achar estranho a quantidade de vezes que continuo a ouvir “se eu ganhasse o Euromilhões…”

Parece que o Euromilhões é como aquele dinheirinho do subsídio de natal com o qual vamos sonhando regularmente até a nossa empresa, ou o nosso país, o cortar. E porquê?

Porque, na prática, é quase impossível ganhar o Euromilhões. Não é impossível ouvir a chamada publicitária que promete transformar-nos num excêntrico, não é impossível ficarmos viciados em ir lá todas as semanas meter uma moedinha. Aliás, nem é impossível que se torne um evento social, gerador de headlines e uma conversa quase monopolizadora em dias de prémios ricos.

Desde 2004, o Euromilhões teve receitas de 9,4 mil milhões e se isto não vos impressiona basta pensarem que apenas metade deste valor foi distribuído em prémios. E claro que nós portugueses fomos, de todos os europeus, os que mais dinheiro gastaram.

A conversa é exatamente igual à que John Oliver critica no seu programa sobre o mesmo assunto. Encantar os próprios cidadãos, alguns muito empobrecidos, com as maravilhas de uma lotaria, é pôr remendos minúsculos numa embarcação que naufraga. O lucro deste jogo é para ser gasto em saúde e educação, mas serão as ações da Santa Casa assim tão santas?

Com um gabinete de apoio ao alto premiado, conselhos sensatos a dar na altura de receber o prémio, aconselhamento personalizado e por aí adiante, fico com a sensação que é o mais próximo que temos de um Hunger Games à europeia. Serem cinco números e duas estrelas torna tudo tão burocrático, tão adequado, tão passivo.

O Euromilhões imita o verde da bandeira, inspira-nos a ter esperança, mas num sentido realmente prático, não deixa de ser um bocado taralhouco. Queria só aproveitar para cunhar o termo euromito, mas isto é só a minha má disposição em relação a nunca o ir ganhar.

 

Previsões do Oráculo #8

  • Continuação da compra de jogos de sorte como o Euromilhões, Totoloto e raspadinhas;
  • Anúncios infinitos e tempo de antena para estes mesmos jogos de sorte;
  • Complicações eternas na distribuição das receitas dos jogos.