“Acometagem” é um sucesso: sonda File já está no cometa 67P


Durante a tarde desta quarta-feira, foi concluída com sucesso a aterragem (mais propriamente uma acometagem, se quisermos ser fiéis à linguística) da sonda File no cometa 67P/Churiumov-Gerasimenko. Pela primeira vez um dispositivo humano entra em contacto com um cometa, prometendo trazer novas informações sobre estes corpos celestes, uma espécie de livro de história sobre a criação do nosso Sistema Solar.

O dia de hoje foi até agora o ponto alto de uma missão da Agência Espacial Europeia (ESA) que começou a ser pensada nos anos 90 e que foi posta em prática em 2004. O objectivo da missão Roseta prendia-se com a acometagem e consequente estudo de um cometa, os chamados “vagabundos do espaço” pela sua trajectória em torno do Sol.

O satélite Roseta saiu da Terra no dia 2 de Março de 2004 e finalmente, ao fim de 10 anos, encontrou o “seu” cometa. Pelo meio chegou a estar num período de hibernação enquanto esperava pelo momento certo para o rendez-vous com o 67P.

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O cometa 67P, identificado em 1969 por Klim Churiumov e Svetlana Gerasimenko no Observatório de Alma-Ata na antiga URSS (actual Cazaquistão), percorre uma órbita elíptica a cada 6,44 anos. A órbita começa para lá de Júpiter e depois atinge um local entre a Terra e Marte, onde, devido à maior proximidade do Sol, produz a tradicional cabeleira dos cometas por elevação das temperaturas e evaporação do núcleo de gelo.

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E foi aí, entre a órbita de Marte e Júpiter, a cerca de 500 milhões de km da Terra, que a Roseta observou pela primeira vez o 67P, em Agosto deste ano. Desde então tem tirado várias fotografias ao cometa, com o intuito de aferir as suas reais dimensões (cerca de 3,5 km por 5 km nos maiores eixos) e características e escolher o melhor local de acometagem para a sonda File. Os dados recolhidos, no entanto, não foram muito animadores: a Roseta verificou que o cometa, em vez de uma tradicional forma oval, assemelhava-se mais a um pato, com uma porção maior e outra mais pequena. Isto levantou alguns problemas pois diminuía os potenciais sítios de acometagem da sonda.

Eventualmente o local foi escolhido: uma zona com menos de 2,6 km2, batizada de Agilkia, localizada na cabeça pequena do cometa, que podemos ver na imagem em baixo.

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Fotografia do cometa 67P captada pela Roseta
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Vista do cometa 67P a partir da câmara instalada na sonda File, captada durante a descida

A missão de hoje, acometar a sonda File, era tudo menos fácil. As probabilidades de sucesso não eram espetacularmente altas o que não é de admirar se tivermos em linha de conta todos os determinantes do processo. Às 7 da manhã de Portugal, a Roseta lançou a sua sonda File, a 20 km de distância do 67P que se movia a 66120 km/h. O pequeno objecto de apenas 100 kg fez a sua descida de cerca de 7h sem qualquer propulsão ou comando até chegar com sucesso à supefície do cometa, gerando natural alegria no cento de controlo da ESA.

Como a gravidade do cometa é muito reduzida (um milhão de vezes menor que na Terra) era necessário emitir arpões para ancorar a File ao 67P. E foi aqui que o processo correu mal, tendo a ESA anunciado a meio da tarde que os arpões não tinham disparado. Entretanto as mais recentes informações dão conta de que a File se encontra firmemente presa ao 67P, o qual estudará em detalhe nos próximos meses.

Mais um momento de grande sucesso no capítulo da exploração espacial e mais uma etapa importante na compreensão do nosso próprio sistema solar. Criados ao mesmo tempo que o nosso sistema planetário, os cometas são pequenas cápsulas do tempo praticamente imutadas cujo material no seu interior representa os resquícios da nossa criação enquanto planeta.

É exactamente este desejo de compreender o passado com base nos dados do presente, que levou ao curioso batismo dos elementos da missão. A missão foi nomeada como Roseta em homenagem à famosa Pedra de Roseta, descoberta no Rio Nilo pelos militares de Napoleão e que, devido ao seu texto bilingue em Egípcio e Grego Antigo, possibilitou a descodificação dos hieróglifos egípcios e grandes avanços na compreensão dessa civilização. Já a File recebeu o nome da ilha no Nilo onde foi encontrado um obelisco que aprofundou este estudo. O obelisco foi depois transferido para a ilha de Agilkia, donde vem o nome para o local de acometagem.

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