A vida e a morte nas canções de Nick Cave


20.000 Days on Earth chega hoje aos cinemas, depois de ter passado pela oitava edição do Lisbon & Estoril Film Festival, e promete deixar admiradores e curiosos de coração cheio, com vontade de repetir a dose.

Engane-se quem pensa que se trata de mais um rockumentary com imagens de arquivo e entrevistas a todos os familiares e amigos que passaram pela vida de Cave. A mais recente obra da dupla Forsyth e Pollard – que já havia trabalhado sobre os Bad Seeds em “Do You Love Me Like I Love You?”– é a descoberta cinematográfica de um mundo à parte, onde muito poucos tinham entrado até agora, ganhando por isso um caráter distinto de todos os filmes feitos sobre rock até aos dias de hoje.

A premissa por detrás desta aventura parece simples: acompanhar o 20.000º dia de Nick Cave na terra, desde que este se levanta até ao momento em que se deita ao lado da sua mulher, Susie, e aguarda pela chegada da manhã seguinte. No entanto, torna-se uma tarefa laboriosa quando a nossa personagem principal se assume, desde o início do filme, como não-humana, transcendendo a simples existência física neste mundo. Em Cave há uma vida à parte, e ela está presente tanto nas suas canções como na energia dos seus espetáculos ao vivo. Durante hora e meia, somos convidados a entrar nesse universo catártico e apaixonante, em que o amor à família e a dedicação profissional se cruzam, sem se anularem, e nos dão a conhecer um dos mais enigmáticos músicos que alguma vez vimos subir a palco. Certamente poucos sairão da sala sem vontade de conhecer ainda mais do homem por detrás do mito.

Será justo aclamar 20.000 Days on Earth como um dos melhores, senão o melhor filme sobre música dos últimos 5 anos? Parece-me que sim. Made Of Stone, Mistaken For Strangers, Searching for Sugar Man, Metallica Through the Never ou 20 ft. From Stardom parecem-nos francamente banais e desinspirados quando comparados a este diamante em bruto. Não significa que sejam maus artefactos do mundo musical que nos rodeia, mas não podem ser equiparados a um rasgo de genialidade tão forte quanto o descrito acima.

Precisam de mais argumentos? A Kylie Minogue (que é por si só um argumento válido para o que quer que seja) aparece, sob a forma de uma visão, no banco de trás do Jaguar do Nick Cave e relembra o falecido Michael Hutchence (vocalista dos INXS, com quem namorou no início dos anos 90). Para além disso, é única oportunidade que terão para ver o mais classy dos australianos a devorar uma fatia de pizza no sofá, ladeado pelos seus dois filhos que se deliciam a ver e citar de cor a mais violenta cena de “Scarface”.

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Nota: Os cinemas Medeia prepararam duas exibições especiais de “20.000 Days On Earth” em que David Fonseca e Rita Redshoes discutirão a influência de Cave no seu trabalho, partilhando igualmente sua opinião em relação ao filme de Iain Forsyth e Jane Pollard. A sessão com Redshoes acontece já no próximo sábado, dia 22, às 21:45 no Espaço Nimas, seguindo-se David Fonseca, na quarta-feira, dia 26, no mesmo local e à mesma hora.