Um dia na vida de um super rico


Bom dia, eu sou o vosso super rico para o dia de hoje.

Fiquem à vontade, ninguém gosta de pessoas envergonhadas num quarto de hotel. Cheira-vos bem? É deste perfume Yves Saint Laurent vintage que o meu perfumista encontrou, quase dez mil dólares por um frasquinho com o cheiro da nossa juventude. Dizem que o melhor da vida é o que experienciamos, não é?

Bem, deixem-me só servir-me do sumo de laranja que o room service trouxe. Acerca de mim? Para começar: sou um homem, óbvio, tenho cerca de 60 anos e uns bons três mil milhões no banco e quinhentos milhões em dinheiro, porque como os bancos andam, oscilações para mim não, obrigado. Fogo, este croissant está perfeito! Sabes que estás num bom hotel em Los Angeles quando comes croissants melhores que em Paris. Sirvam-se, sirvam-se.

Não podemos é ficar a fazer sala que tenho um almoço em Nova Iorque, vamos? Em conjunto com os meus colegas bilionários valemos cerca de 7.3 triliões. Isso dava para comprar a Apple dez vezes, ou eliminar completamente a dívida soberana portuguesa. Se quiséssemos mesmo, até a dívida norte-americana pagávamos.

Como muitos outros, fiz a minha fortuna depois de uma vida académica muito bem resolvida, enveredando por finanças ou economia como carreira. Cerca de metade do meu dinheiro vem de investimentos privados, como ser acionista da minha própria empresa. Gosto de manter os tais 20% em dinheiro e reservo 5% para propriedades imobiliárias e “bens de luxo”. Tenho 4 casas, cada uma delas com um valor próximo dos 20 milhões. Se tivermos tempo mostro-vos a minha casa em Nova Iorque, mas por agora admirem este Cessna Citation CJ4 branco onde vamos demorar apenas 3 horas a voar até à outra costa. John, põe este passarinho no ar que temos muita pressa. Aposto que nunca tinham visto um avião com bancos específicos para quem sofre de reumatismo!

Querem continuar a falar de negócios? Que chatos. A minha fortuna cresceu no ano passado, mas não conseguiu vencer o mercado. Nisto de ser bilionário nem tudo são rosas. Tenho tanto dinheiro em dinheiro, porque o interesse das taxas de juro continua a não me interessar nada e continuo de ter dúvidas acerca de toda esta recuperação económica. Afinal, a experiência traumática que foi a crise financeira de 2008 nunca me vai abandonar e a forma como os mercados globais reagiram à crise deixam-me muito duvidoso em relação à alocação financeira.

Estão a gostar da viagem? Passo tanto do meu tempo com os pés no ar. Apesar de amar o meu país, ser bilionário é não ter muita paciência para o conceito de nação. A minha vida é feita em megalópoles como Nova Iorque, Hong Kong e Londres. Salto de cidade em cidade e não de país em país. Bem, estamos quase a chegar. John, deixa-nos no aeródromo para seguir para o heliporto da empresa. O quê? Eu quero lá saber que o céu tenha cada vez mais tráfego, um homem tem de trabalhar.

Estão a ver aquele arranha-céus ali? É a minha sede. É aqui que passo maior parte do tempo. Deixem-me só assinar uns papéis e dar uns sermões por incumprimento dos objectivos estratégicos para este trimestre.

Bem, vamos almoçar ao Dorsia? Quanto não estou enfiado na minha mina, ou na minha refinaria, ou no gabinete presidencial do meu banco ou na minha linha de comboios, gosto de estar com os meus amigos, também eles bilionários, claro. O que não acho de todo estranho, é normal que queira estar com pessoas que me possam acompanhar nas minhas actividades.

Temos um convívio ideal e que todos apreciamos: o desporto. É para aí que vamos agora. Excepto naquele 2008 negro, há anos que não perco uma final do US Open de ténis. Onde é que existe um court azul igual ao meu? É sempre uma óptima ocasião para relaxar e para ter um lugar privilegiado entre outras elites deste mundo. Também gosto do Masters, da America’s Cup, do Kentucky Derby e da Supertaça Europeia, mas o Mónaco tem demasiados “riquinhos” para o meu gosto.

Bem que espetáculo do jogo do Djoko, não acharam? Temos ainda duas paragens por fazer antes do fim do dia. Os interesses mudam muito na família bilionária. Como nova iorquino tenho um interesse especial e mais ativo no mundo das artes, mas se vivesse em Los Angeles ou Lagos, iria estar interessado em aviação. Os milionário lá de Geneve passam horas a velejar. Já eu tenho um Rothko tão megalómano que servia de jangada em caso de emergência. Vamos só dar um salto ao MOMA e depois seguimos para a universidade do meu coração. Deixem-me só telefonar ao John para nos apanhar no Rolls Royce. Ou preferem o Bentley? Ou o Maybach?

Sou um tipo filantrópico, mas um bocadinho menos do que estão a pensar. Durante o meu tempo de vida vou doar cerca de 100 milhões, o que é uma quantidade simpática de capital, mas que não passam de cêntimos para os meus tantos dólares. Para onde vai o dinheiro? Principalmente para a academia, ou para o meu grande amor, Columbia University, visto que a educação e as doações académicas são a principal causa que nós bilionários apoiamos. E isto não é suborno para os meus filhos terem acesso garantido à Ivy League, mas os meus filhos têm o acesso garantido.

E agora ao fim do dia e depois de já tantas década a amealhar uma fortuna considerável, chego a um beco sem saída, que nem os meus tão poderosos dinheiros me poderão salvar – a morte. John, preparas-me o meu cocktail hidratante e a loção cosmética de hoje? Obrigado meu caro, quem seria eu sem ti. É por isso que já comecei a distribuir esta enorme massa financeira pelos meus mais pequenos – meus príncipes e princesas. Por outras palavras, podem preparar-se para uma nova nobreza. A classe de bilionários que não pára de crescer é a dos que o são por herança, como os meus filhos e os meus netos. Boa noite. E boa sorte!

 

Este texto foi escrito a partir da informação genérica acerca dos bilionários actuais, reunida no censo mais recente da Wealth-X e da UBS.

Previsões do Oráculo #6

  • Discrepância entre pobres e ricos a crescer continuamente.
  • Um investimento cada vez maior no segmento ultra premium.
  • Um peso enorme das heranças a longo prazo, como apontado por Thomas Piketty.