Prejuízo da Amazon chegou aos 544 milhões de dólares no terceiro trimestre de 2014


Na passada quinta-feira a Amazon divulgou em comunicado os seus números referentes ao terceiro trimestre fiscal e às projecções para as vendas para os últimos três meses de 2014, que incluem a época natalícia. Os resultados terão ficado aquém das espectativas dos investidores.

Apesar de ter sido registado um aumento de 20% nas vendas líquidas em relação ao período homólogo do ano passado, os resultados foram inferiores aos projectados pelos analistas, de acordo com a Bloomberg e a Thomson Reuters. O prejuízo operacional da gigante de vendas norte-americana foi de 544 milhões de dólares, mais de 20 vezes superior aos 25 milhões registados durante o mesmo período em 2013. No comunicado, a empresa diz ainda estar à espera de obter entre 27,3 mil milhões e 30,3 mil milhões de dólares em vendas líquidas nos últimos três meses de 2014, projectando um aumento de 7% a 18% relativamente ao quarto trimestre do ano passado. Mas os números continuarão a não se mostrar favoráveis para a Amazon que prevê um prejuízo operacional de até 570 milhões de dólares para este trimestre, mais uma vez superando o valor registado no mesmo período de 2013.

Jeff Bezos, chefe executivo daquela que tem sido até agora a líder em vendas online nos Estados Unidos, justificou os números apresentados na quinta-feira com o facto de a empresa encontrar-se em “modo de investimento”. Segundo o The Verge, os últimos meses de operações ficaram marcados pelo lançamento e vendas (ou falta de vendas) do infame Fire Phone da Amazon – encontram-se mais de 83 milhões de dólares deste gadget em stock para despachar -, pela aquisição da startup de videojogos Twitcher e pelo anúncio de que a companhia irá investir cerca de 2 mil milhões de dólares no mercado de vendas online indiano. Em Setembro a Amazon conseguiu uma linha de crédito no valor de 2 mil milhões de dólares do Bank of America para poder alimentar os seus investimentos.

Bezos tem sido criticado pelas últimas decisões que tem tomado na empresa, desagradando os investidores. A CNN compara o CEO com o “Grinch que roubou o Natal à Amazon devido ao comportamento da multinacional na bolsa de Nova Iorque: na passada sexta-feira o valor das acções sofreu uma queda de mais de 8%, uma situação que se tem vindo a verificar ao longo de todo o ano. “O enorme prejuízo no terceiro trimestre é suficientemente preocupante. É um sinal de que nem todos os grandes investimentos da Amazon valeram a pena”, disse Paul R. La Monica, correspondente de economia para o CNN Money.

Nos últimos dois anos a Amazon conseguiu gerar receitas elevadas mas sempre com lucros muito baixos, conseguindo manter uma subida relativamente constante na bolsa. A estratégia da empresa tem sido vender os seus produtos de hardware, como o Kindle, a Fire TV e recentemente o Fire Phone, quase ao preço de custo de fabrico de forma a atrair mais clientes e vender assim mais conteúdo: se as pessoas comprassem os produtos da Amazon talvez se sentissem mais inclinadas a posteriormente “comprar à la carte contéudo, filmes, séries”, explicou o vice presidente da Kindle ao The Verge em Abril – “queremos estar realmente alinhados com o cliente para podermos lucrar apenas quando utilizam os nossos produtos e não quando os compram”.

Mas esta estratégia claramente não está a funcionar para a Amazon. As vendas do Kindle têm vindo a baixar, apesar das actualizações ao produto, e os críticos de tech e os consumidores têm-se mostrado particularmente descontentes com a Fire TV e o Fire Phone. Na página do recente smartphone podem ler-se vários comentários negativos ao produto que apontam como principal falha “o acesso restrito às apps da Google”.

Vários analistas explicaram que é fácil compreender de onde vem o avultado prejuízo registado no último trimestre e que os valores já eram de esperar: lançar novos produtos é muito caro, além de que envolve habitualmente um investimento em conteúdo alusivo aos mesmos. O problema que poderá impedir a Amazon de recuperar será a descrença que se tem vindo a gerar à volta da marca e do no seu CEO.

Num artigo do New York Times, é apontado o caso da controvérsia que envolveu a empresa norte-americana e a editora Hachette, gerando um enorme fluxo de publicidade negativa para a Amazon, como um possível contributo para a situação. Recorde-se que a Amazon desencorajou os consumidores de comprar livros da editora francesa através da imposição de vários obstáculos à encomenda dos mesmos pelo site, levando ao protesto de centenas de autores.

Apesar de tudo, muitos continuam a considerar os serviços de vendas online da Amazon os mais fidedignos e que mais benefícios oferecem aos seus utentes. Num artigo da Forbes, são referidos, além do enorme flop do smartphone, alguns aspectos positivos do “modo de investimento” da companhia chefiada por Bezos, como o novo serviço de entrega de mercearias ao domicílio, o Amazon Fresh. Contudo este último também peca por não ser tão flexível para os consumidores quanto, por exemplo, o serviço independente Instacart.

A Amazon continua a ser uma companhia de peso com grande presença não só nos Estados Unidos como no mercado do comércio online internacional, mas a satisfação do consumidor é agora crucial para recuperar dos 28% que perdeu em valor desde o início deste ano. “Com tantas iniciativas e tanto dinheiro em jogo durante o ‘modo de investimento’, espera-se que a Amazon esteja a conseguir obter avaliações críticas por parte dos consumidores para consiga determinar o que é viável para lançar/ou optimizar”, escreveu a contribuidora de marketing Kathleen Kusek para a revista de economia norte-americana.

E parece ser essa a intenção do CEO da companhia conhecida por praticar preços muito baixos em livros, filmes e noutros produtos da área de entretenimento e cultura. No comunicado publicado dia 23 de Outubro, Jeff Bezos disse: “Enquanto nos preparamos para esta temporada de festividades, estamos focados em tornar a experiência do consumidor mais simples do que nunca”. Além dos preços baixos, a Amazon vai oferecer mais regalias aos seus clientes Prime, acesso a novos produtos no site e promete até doar uma percentagem das compras feitas através do serviço Amazon Smile a uma acção social à escolha dos utilizadores.