Por que razão jantou A. J. Seguro num rodízio na noite da derrota?


Facto: no Domingo passado, daqueles em que a hora do despertar não compactua com a realização de mais de uma única refeição, fui jantar com um amigo a um restaurante de rodízio brasileiro. O plano entre nós era só uma curta sessão de encher o bandulho, deglutir, não um boi inteiro, mas a totalidade da Ganadaria António Lampreia. No entanto, não estávamos sozinhos: também enfardava António José Seguro, derrotado nessa noite de primárias no PS, acompanhado de seus apoiantes tornados comensais. Segundo a sondagem feita pelo empregado Jaílson, todos votaram a favor da picanha com alho.

Porquê um rodízio, Tozé? Talvez quisesse evitar outro estabelecimento mais upscale, mais murmurante, mais repleto de olhares de soslaio de figuras conhecidas que ele quereria evitar cumprimentar. Mas para quem fez do combate à corrupção uma bandeira da campanha, ir a um rodízio, onde o mote é “quero tudo a que tenho direito”, é abdicar das convicções. Quer separar a política dos negócios, mas não hesita em juntar o feijão à farofa.

Não nos esqueçamos: um rodízio, dentro do mercado dos jantares de grupo, está apenas uns furos acima dos restaurantes manhosos de Santos, repletos de crianças com vozes de Navegantes da Lua que ascendem a estrelas em reportagens da TVI sobre os perigos do álcool, as quais o dono do estabelecimento ameaça sequestrar na cave até fazerem dezoito anos (diz-se que usa a acne deles para temperar a Carne de Porco à Alentejana).

Numa das televisões do restaurante, dava a repetição do Inter 1 – Cagliari 4. Na outra, a SIC Notícias difundia a noite eleitoral. Seguro não se defendeu à italiana e focou-se na derrota menos surpreendente. Olhava para a actualização dos resultados como um jovem cliente do restaurante manhoso de Santos assiste a um vídeo em que vomita bifinhos com cogumelos: com um sorriso nervoso, mas com noção de que bateu no fundo.

Porquê um rodízio? O rodízio brasileiro é uma ilusão de poder. À partida parece que ficamos ganhar, quando podemos muito bem sair a perder. Depende da fome, da fuçanga, da ambição.

Não o estive a espiar, não julguem. Sinceramente, nem consegui perceber qual a sua posição em relação à fracturante questão da textura da carne. O bem passado parece a muitos mais seguro, mas como não preferir o carisma do mal passado? Seguro não deve ter passado bem nos últimos meses, e no passado Domingo parecia tão derrotado como aliviado. Um misto de sensações, como a banana frita.

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