Hong Kong: os protestos, as conversações falhadas e as fugas à censura


Milhares de estudantes chineses têm protestado nas ruas de Hong Kong desde o passado fim-de-semana, ocupando as principais vias no centro da ex-colónia britânica, pedindo recentemente a demissão do chefe do executivo local, Leung Chung-Yin. As organizações “Scholarism” e “Occupy Central” têm liderado as manifestações pró-democráticas, que são fortalecidas pela presença de professores universitários, banqueiros e juristas.

Os manifestantes concentram-se maioritariamente em frente à sede do governo local e protestam a decisão anunciada sobre as eleições de 2017: chegaram a Hong Kong directivas dizendo que a eleição do próximo chefe de governo daquela região administrativa especial será por sufrágio universal, mas os candidatos serão escolhidos por Pequim.

Na sexta-feira passada as contestações tomaram contornos dramáticos quando as autoridades foram ordenadas a usar gás pimenta sobre os manifestantes que se encontravam frente à sede do executivo. Os protestos escalaram e tudo indicava o desencadear de cenários de violência quando na quinta-feira os movimentos pró-democráticos exigiram a demissão de Leung até às 23h30 desse mesmo dia. O chefe do governo local anunciou que aceitaria um diálogo entre as duas partes sobre a lei eleitoral, mas disse que não se demitiria.

Leung nomeou Carrie Lam, a secretária geral do executivo, para se reunir com os líderes dos movimentos, e no dia seguinte ocorreu a primeira reunião exploratória. As negociações duraram pouco tempo: depois do ataque a vários manifestantes que aconteceu no mesmo dia, 3 de Outubro, numa zona movimentada da cidade, a Federação de Estudantes de Hong Kong cancelou quaisquer diálogos. Segundo o Diário Digital e a Lusa, a Federação emitiu um comunicado dizendo que não teve “outra opção senão romper o diálogo, depois de o governo e a polícia terem hoje permitido actos violentos por elementos de tríades [grupos criminosos chineses] contra manifestantes pacíficos do movimento ‘Occupy’”.

Impassíveis à revolta, que se tornou conhecida através dos media como “A Revolta dos Guarda-Chuvas” pelo elevado número de guarda-chuvas que se têm observado nas ruas de Hong Kong – utilizados pelos manifestantes para se protegerem das condições climatéricas e dos ataques com os gases usados em distúrbios civis – estão milhões de habitantes da China continental, que não tomaram sequer conhecimento dos protestos ou que não conhecem muitos detalhes relacionados com os mesmos.

Os agentes de censura do Partido Comunista Chinês têm trabalhado mais do que nunca para bloquear sites e blogs que estejam a ser utilizados para debater ou disseminar informações não aprovadas pelo governo sobre os confrontos em Hong Kong. Redes sociais e sites de partilha de vídeos e imagens, como o Facebook, o Twitter e o Youtube já tinham sido banidos na China continental e à lista de plataformas bloqueadas juntou-se no passado domingo o Instagram.

Segundo o Público, Fu King-wa, fundador do Weiboscope, um site que monitoriza o destino de milhares de microblogs criados na China, constatou que só no domingo foram apagados 152 em cada 10 mil microblogs, verificando-se um aumento significativo dos 98 microblogs apagados em cada 10 mil publicados registados no dia anterior. Nos últimos dias foi atingida a taxa de censura mais elevada deste ano, tendo os acontecimentos em Hong Kong superado até o aniversário de Tiananmen, o tema mais suprimido na China.

Os media chineses foram aconselhados a manter-se fieis às linhas governamentais, sendo que muitos jornais evitam o tópico e muitos outros descrevem os manifestantes como foras-da-lei e arruaceiros que vieram apenas perturbar o bom funcionamento do distrito financeiro, podendo mesmo vir a criar danos irremediáveis na cidade considerada o centro financeiro da Ásia.

Para contornar a censura, muitos jovens, participantes nos protestos ou cidadãos que querem apenas manter-se informados e poder passar mensagens sobre os acontecimentos, estão agora a usar a app FireChat, que permite a troca de informação entre telemóveis sem precisar de recorrer à Internet.

As redes sociais costumam ter um papel preponderante na organização de protestos e facilitam o contacto entre os manifestantes, permitindo determinar pontos de encontro e traçar objectivos. Com o grande FireWall da China a bloquear e interceptar a maioria das conversações sobre o tema nos territórios continentais, o FireChat tornou-se ideal para os jovens em Hong Kong permitindo-lhes usar um sistema de Bluetooth para comunicar, não sendo interrompidos quando o sinal de Internet é bloqueado ou fica sobrecarregado; pelo contrário, a app vai ganhando cada vez mais força e cada vez mais alcance com o aumento do número de telemóveis ligados ao sistema.

Segundo o The Guardian, Joshua Wong, um jovem de 17 anos líder do movimento Scholarism, foi o responsável pelo enorme número de downloads desta app registado em Hong Kong: passadas 24 horas de ter incentivado os seguidores do movimento a usar o FireChat verificaram-se 100 mil novos utilizadores em Hong Kong e foram criadas 800 mil novas salas de chat desde então.

Esta aplicação já tinha sido utilizada em protestos em Taiwan, no Iraque e no Irão, mas até agora nunca tinha tido um impacto tão grande nem tinha sido tão eficaz como tem sido durante as perturbações naquela região da República Popular da China.

Esta sexta-feira, devido à chuva, notou-se uma diminuição no tráfego das ruas de Hong Kong, mas a tensão entre a população persiste: em Mong Kok, numa das zonas comerciais mais congestionadas, longe do centro da cidade, vários protestantes foram atacados por cerca de mil indivíduos mascarados, que agrediram violentamente os primeiros, segundo apuraram a AFP e a Reuters.

Depois de rompido o diálogo entre as duas partes, os protestos vão continuar – com o clima nas ruas de Hong Kong a ficar cada vez mais tenso – e os movimentos que os lideram dizem não aceitar outro desfecho a não ser a demissão de Leung Chung-Yin.

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