Drone em campo: e se as nossas rotinas mudassem a História Mundial?


Terça-feira, dia 14, ocorreu algo inquietante no jogo Sérvia – Albânia, no âmbito do apuramento para o Europeu de Futebol’16. No fim da primeira parte do jogo entre países historicamente antagonistas, surgiu um drone ostentando uma bandeira com um símbolo albanês. O bizarro incidente precipitou uma escaramuça entre jogadores de ambas equipas, com adeptos sérvios a entrar em campo no sentido de molharem a sopa. “Que lamentável. Vou ver as imagens on repeat e depois ver outros vídeos de porrada no futebol, ai nanas!”

Na verdade, não foi o sempre excitante mocadão dentro de campo nem o reavivamento das tensões habituais nos Balcãs que mexeram comigo. O que me causou estranheza foi, sem dúvida, algo tão familiar como um jogo de futebol ser interrompido por um drone, um gadget, uma novidade que nos deixa tímidos a olhar para ela, que deixou cair não só uma bandeira, mas álcool para feridas que não sararam. A tecnologia a mexer com a História. O nosso dia-a-dia confortável com a inovação raramente nos deixa reflectir sobre as suas próprias sérias implicações. E se o que conhecemos hoje como novidade fosse real desde sempre?

Hitler, podendo, teria aumentado a sua popularidade se tivesse criado as hashtags #gostodeserarianoporque #coisasqueosjudeusdizemquemeirritam ou mesmo #erasmusinpoland. Em plena I Guerra Mundial, juntar-se-iam soldados dos aliados e dos Impérios Centrais, numa trégua de curta duração, no sentido de partilharem a pass da NOS wi-fi e trocarem vidas do Candy Crush. Lamenta-se que, passados onze anos da queda de Saddam, os Estados Unidos ainda não tenham ido ao Hi5 do Iraque comentar “dexculpah a invaxaum”.

Fernão de Magalhães teria na sua descrição de Instagram “Travelling the World – Suffers from Wanderlust”. Como é que não lhe deram uma GoPro? Por outro lado, toda a gente classificaria Marco Polo de mete-nojo, tendo em conta os seus check-ins no Foursquare, por toda a Ásia – claramente o primeiro backpacker com pais ricos que todos invejámos.

E Napoleão? Napoleão bloquearia a Inglaterra. Invenções como a autometralhadora, o helicóptero, o paraquedas, só não viram a luz do dia mais cedo porque Leonardo da Vinci não teria acesso ao crowdfunding. Se as estrofes d’Os Lusíadas se estruturassem, em vez de em oito versos, em 140 caracteres, o exame do nono ano não seria um problema para os putos com caps da Obey.

Imagino que Henrique VIII utilizaria o Tinder para encontrar a próxima bitch que viria a decapitar. Tenho a certeza que a Padeira de Aljubarrota não teria o seu estabelecimento muito bem classificado no Zomato. Bem menos apelativo do que as comunidades caçadoras-recolectoras e o seu #foodporn. Há muitas semanas atrás, Pedro seguiu Jesus, mas terá ficado ofendido por Jesus não ter seguido de volta. Mas o Cristianismo não é muito #likeforlike?