Steve Jobs protegia os filhos da tecnologia

Ao contrário de muitos pais, o co-fundador da Apple limitava às suas crianças o uso de tecnologia.

Como se costuma dizer: “em casa de ferreiro espeto de pau”. E esta parece ter sido uma máxima seguida por Steve Jobs e que ainda hoje é seguida por muitos outros magnatas da tecnologia.

Segundo o New York Times, quando em 2010 um jornalista “ousou” criticar a incompatibilidade dos iPads com o Flash, Steve Jobs ter-lhe-à ligado imediatamente para esclarecer a questão. Nessa conversa acabou por revelar que os seus filhos nunca teriam usado um iPad e que o uso de tecnologia em sua casa seguia regras rigorosas. Jobs preferia promover o tempo em família e a discussão de livros, história e de assuntos do dia-a-dia sem recorrer a gadgets.

Ao contrário de muitos pais, o co-fundador da Apple limitava às suas crianças o uso de tecnologia. Fascinado com esta revelação, o jornalista, que pensava que a casa de Jobs seria uma paraíso para os techies, acabou por descobrir que muitos dos executivos e criadores das maiores marcas de aparelhos electrónicos também praticam as mesmas regras nos seus lares.

Segundo o estudo “Zero to Eight: Childrens Media Use In America 2013” publicado em Outubro de 2013 pela organização Common Sense Media, cerca e 75% das crianças com idades até aos 8 anos usam tablets e smartphones nos Estados Unidos. Além dos riscos associados à exposição de conteúdos impróprios nesta fase de desenvolvimento e da vulnerabilidade a sofrerem bullying online, existem ainda riscos para a saúde que muitos pais desconhecem.

Também em 2013 foi publicado um estudo realizado pela Universidade Politécnica de Hong Kong, em conjunto com a Associação de Fisioterapia conterrânea, que revelou que a utilização prolongada de aparelhos electrónicos, além de estar associada a um aumento do sedentarismo, pode contribuir para o aparecimento de complicações nos tecidos musculoesqueléticos.

Na segunda fase do estudo foram entrevistados 580 jovens com idades compreendidas entre os 10 e os 15 anos: aproximadamente 31% admitiu usar um smartphone entre 1 a 4 horas por dia e 27,6% queixou-se de dores nos músculos do pescoço, ombros, pulsos e polegares, associadas ao uso de aparelhos electrónicos.

Muitos dos CEOs das gigantes de tech parecem estar conscientes de todos estes problemas. Chris Anderson, executivo chefe da frabricante de drones 3D Robotics, diz que tanto ele como a mulher controlam de perto a utilização dos aparelhos digitais pelos filhos. “Assistimos aos perigos da tecnologia em primeira mão. Assisti ao seu efeito em mim e não quero ver isso nos meus filhos”, explicou o ex-editor da Wired ao New York Times.

Evan Williams, um dos fudadores do Blogger e do Twitter, diz influenciar os filhos a ler e a manter-se afastados dos gadgets de hoje em dia, oferecendo-lhes centenas de livros em vez de iPads.

De um modo geral, as limitações impostas pelos pais techies vão desde a proibição do uso de tablets ou smartphones durante a semana, do acesso dos adolescentes às redes sociais até à imposição de zonas “livres de ecrãs” (como nos quartos ou nas áreas destinadas às refeições) nas suas casas.

Mas nem todos têm esta visão. De acordo com Ali Partovi, fundador do iLike e conselheiro do Facebook, o controlo dos pais deve passar não pela limitação do acesso a estes aparelhos, mas sim pela supervisão do tipo de utilização que lhes é dada pelos mais pequenos: “Tal como eu não sonharia com limitar o tempo que uma criança passa com os seus pinceis, ou que passa a tocar piano, ou a escrever, acho que é um absurdo limitar o seu tempo a criar arte digital, a editar vídeos ou a aprender programação”, disse ao jornal norte-americano.

Outros ainda, como o CEO do Twitter, Dick Costolo, concordam com esta ideia de não limitar o tempo dos mais novos com smartphones e tablets, identificando-se mais com o ditado: “O fruto proibido é o mais apetecido”. “Se não deixarmos as crianças exporem-se a estas coisas, que tipo de problemas poderemos causar mais tarde?”, disse ao mesmo jornal.

Seja através da proibição da utilização de gadgets, seja através de estratégias que visam uma utilização mais responsável dos mesmos, parece que quase todos os gigantes tech têm vários cuidados no que toca à exposição das suas crias ao mundo virtual. Algo de que nem todos os pais de hoje em dia se podem orgulhar.

Num artigo publicado no site do canal PBS, poderão encontrar alguns conselhos sobre quando e como apresentar os mais pequenos à Era Digital.