Hipster: como a pior tribo social salvou as tribos sociais


Como é que uma forma de estar ressuscitada no final dos anos 90, marcada por uma estética irónica, baptizada com o nome de um já antigo conjunto de pessoas que procuravam simular um estilo de vida autêntico, se torna uma das maiores tribos urbanas – ultrapassando provavelmente esta definição tão século passado – que alguma vez existiu?

O hipster é uma subcultura urbana, maioritariamente branca e milennial, definida pela sua relação próxima com tudo o que é indie e alternativo, que atravessou o Atlântico para se impor como uma das tribos sociais mais hospitaleiras, de uma forma cínica, claro, dos nossos tempos. Ou como disse o Rui: um jovem sofisticado e moderno com queda para a causa cultural. Será que para o puro hipster isto é um triunfo de uma refinação global do gosto ou just boring?

Como daquela banda que ninguém conhecia na altura e fomos ver sozinhos a um palco secundário do Alive 2008, também os hipster nos vêm regularmente à cabeça, quer para descrever alguém como óculos de massa e casacos de fato de treino da Outra Face da Lua, quer para explicarmos mind-set partilhado pelo pessoal de Silver Lake, Williamsburg, Montmartre ou até o Chiado.

A própria consciência do hipster, eternamente apertada como as nossas skinny jeans, parece alargar um bocadinho com o passar do tempo, enquanto procura novos símbolos que não tenham sido adulterados por uma visão massificada do resto da sociedade. Quase como dizia Bocage com o seu pano por cima do ombro: à espera da última moda. São certamente uma alternativa válida na procura de identidade dos nossos mais novos, tendo certamente no swag, um adversário mais popularucho.

Apesar de não terem produzido bons artistas, produziram bons artistas de tatuagens e mesmo sem produzirem boa literatura, por enquanto, deram um bom uso que à tipografia enquanto óptimos designers gráficos.

Arriscava deixar escrito que a receita hipster é uma parte rebeldia massificada, uma parte igual conformismo bacoco. Afinal os motifs também parecem ser herdados de um outro lifestyle mais demarcado, ou puro, como os motociclistas, o pessoal das bicicletas, os artistas, os ambientalistas, ou até os rockers.

No entanto, só se adopta a retórica rebelde, nunca a acção rebelde em si. Continuam a comprar-se determinados produtos do mercado em massa – iPhone, Stan Smith, a própria barba – e a criar um self transgressivo, ou como o hipster gostaria de ser percepcionado: irónico. É a competição dentro do grupo para ser o primeiro a ter algo que leva a que sejam considerados posers ou da cena. Assim não é difícil criticar algo que temos em comum com o hipster, pois o propósito que o hipster tem para gostar disso é errado à partida.

Se calhar são a prova viva de que os nossos iPhones, os nossos MacBooks, os nossos gostos supremos em tudo o que seja artístico ou passível de uma opinião argumentada e os nossos selfs aperfeiçoados e partilhados, são mesmo a única coisa que um grupo urbano nos podia encontrar em comum.

Dizem que os textos que falam sobre eles são algo mal recebidos, por porem o dedo na ferida aberta que é o nosso bluff.

 

Previsões do Oráculo #4

  • Disseminação em pequenas tribos distintas onde o termo hipster é uma umbrella para todas elas
  • Um carácter materialista cada vez maior na aproximação entre humanos
  • Um rótulo hipster global e cosmopolita assente em particularismos locais
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