Feminista, eu?


O discurso da Emma Watson acerca da igualdade de género, proferido na conferência das Nações Unidas, pôs a internet em alvoroço ao longo da semana passada. O motivo de tanta viralidade foi a sua responsabilização clara dos homens como a força necessária para nos afastarmos das fronteiras sexuais, que são ainda tão rígidas em tantos lugares deste Mundo – como aqui.

Dou todo o valor ao discurso da Emma. Não só por dizer em voz alta o que é uma dor partilhada por tantas mulheres, mas também por afirmar que o espectro entre homem e mulher deveria ser visto de uma forma contínua e não como dois pontos isolados. Dou valor, sobretudo, pela clareza etimológica com que aborda o assunto. Que não odeiem a palavra feminista é o que ela nos pede.

Eu nunca me achei feminista. Sempre achei que estava a fazer o meu papel activamente ao acreditar na justiça, ao ser correcto nas mais diversas temáticas entre homens e mulheres. Arrisco dizer que achava o feminismo errado, de um ponto de vista em que isto do género não é uma competição de pilinhas entre quem manda mais. Nunca me achei feminista, meramente humano, nada misógino. Sempre achei que o feminismo extremo era algo Berta Lovejoy.

Aquilo de que eu realmente gosto no discurso é esta noção popular de feminismo que é criada. Um feminismo que não é invasivo, apenas se certifica que entre homens e mulheres está tudo a correr bem. Que põe a guerra dos sexos de lado. Wow, é nisto que quero acreditar para o bem do Mundo. É um conceito incrível e não admira que se torne viral.

Não é preciso pensar muito nisto para concluir que é sonhador demais.

O verdadeiro game-changer, expressão que a Emma usa demasiadas vezes ao longo do seu discurso, é passarmos a fazer isto com uma força mundial, o que é difícil quando eu fui o português numero 1 000 a assinar o HeForShe online e era preciso juntar quase todo o mundo árabe e africano para atingir esse número de pessoas. Eu sei, isto é meramente representativo, mas como é que vamos levantar uma noção de justiça através de uma campanha online se este flagelo dura desde o começo da história?

Nos últimos tempos, quer numa das minhas comunidades literárias preferidas, a Alt-lit norte-americana, como no mundo dos videojogos – dois universos bem associados ao mundo ocidental – surgiu uma polémica claramente sexual. Se no primeiro veio a público o quanto certas raparigas se ofereceram para conseguirem editar poesia, no segundo – o já famoso #GamerGate – foi a falta de oportunidades para o género de Vénus que rastilhou mais ou menos o assunto.

E basta olhar para o que disse a excelentíssima Phumzile Mlambo-Ngcuka, que não tem a mesma star quality que a nossa querida Hermione, mas também falou verdades na mesma conferência. Se os dados que apresentou foram que 35% das mulheres deste Mundo já tinham sofrido violência sexual, posso deixar aqui escrito que das 40 vítimas mortais de violência em Portugal o ano passado, 30 eram mulheres.

É por isso que acho e quero transmitir a mensagem que o único caminho é fazermos todos os dias a nossa parte.

Duvido que volte a ter uma oportunidade para contar que não foi imediatamente após o divórcio dos meus pais que passei a dar um valor do tamanho do meu carácter – são definitivamente da mesma força – à minha mãe e à minha avó, responsáveis em grande parte pela minha educação, mas sim quando já era um pequeno homem que tentava não pôr tantos pares de cornos às minhas namoradas quantos o avô punha à avó. Se calhar elas não mereciam como a avó não mereceu.

E é por concordar com a Emma, declarando que somos nós todos no nosso quotidiano que temos de levar a cabo a inevitável tarefa da igualdade que escrevo este texto. Não creio que ter assinado a petição online do HeForShe tenha levado a minha opinião mais longe, mas se este texto transparecer com todas as forças a justiça em que acredito e que tento praticar, o seu propósito foi tão nobre como o discurso da Emma.

Será que é preferível fazer um tweet dizendo #bringbackourgirls a concluir que as nossas girls nunca voltaram? Certamente e é por isto que concordo com a Emma. Porque mais vale dar um passo que quer ser maior que a perna que não dar passo nenhum. E se for irrealista ou lunática, não faz mal, sempre foi assim que começaram as grandes ações do homem. Ou da mulher. Ou as nossas.

 

Previsões Oráculo #5

Devido a um futuro demasiado óbvio no que toca à temática deste oráculo, as previsões são substituídas por um desejo forte de igualdade. Devemos responsabilizarmos sempre a nós primeiro.