Um famoso discurso de Steve Jobs está escondido no teu Mac

É o discurso de formatura dado na Universidade de Stanford em 2005.

No discurso de formatura dado na Universidade de Stanford em 2005, Steve Jobs partilhou com os alunos e docentes daquela instituição ali presentes e com o resto do mundo, através de um vídeo publicado por aquela universidade no Youtube, uma mensagem sobre como viver antes de morrer.

O vídeo protagonizado pelo co-fundador da Apple e dos Estúdios de Animação da Pixar foi partilhado na página da fundação norte-americana TED e o poderoso discurso que fala da morte como “a melhor invenção da vida” já foi visualizado mais de 28 milhões de vezes por pessoas no mundo inteiro.

Agora, graças a uma dica do site OS X Daily, descobriu-se que todos os utilizadores de um Mac com a app Pages para OS X instalada têm acesso à transcrição integral dos conselhos deixados por Steve Jobs no dia 12 de Junho de 2005.

Se tens Mac, só tens de pressionar Command+Shift+G e digitar o caminho /Applications/Pages.app/Contents/Resources/ para chegares ao ficheiro que se chama Apple.txt. Eis um dos mais famosos e simbólicos discursos do co-fundador de uma das marcas mais influentes no mundo.

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A primeira parte da transcrição é uma secção da campanha Crazy Ones Think Different, cujo guião terá sido escrito pelo próprio Steve Jobs:

Deixo-vos também a tradução da transcrição que poderão encontrar em qualquer Mac com app Pages instalada (estará disponível tanto em versões da aplicação mais recentes como mais antigas). Estas palavras foram proferidas numa altura em que Jobs tinha uma esperança renovada em relação ao mundo e em relação ao cancro que acabou por lhe tirar a vida em 2011:

“Para os loucos. Os marginais, os rebeldes. Os desordeiros. As cavilhas redondas nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as coisas de forma diferente. Eles não estão limitados por regras. Podes citá-los, discordar das ideias deles, glorificá-los ou difamá-los. A única coisa que não podes fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Eles impulsionam a raça humana para a frente. E enquanto alguns os vêem como malucos, nós vemo-los como génios. Porque os que são suficientemente loucos para pensar que conseguem mudar o mundo, são aqueles que o fazem.”

Sinto-me honrado por estar convosco hoje na vossa formatura numa das melhores universidades do mundo. Nunca cheguei a terminar a faculdade. Verdade seja dita, isto é o mais próximo que estive de obter uma graduação. Hoje quero contar-vos três histórias sobre a minha vida. É só isso. Nada de mais. Apenas três histórias.

A primeira história é sobre ligar os pontos. Desisti da Faculdade Reed ao fim de 6 meses, mas continuei por lá informalmente durante mais 18 meses, aproximadamente, até desistir realmente. Então porque é que desisti?

Tudo começou antes de ter nascido. A minha mãe biológica era uma jovem solteira, estudante do ensino superior, e decidiu colocar-me para adopção. Ela acreditava mesmo que eu deveria ser adoptado por pessoas formadas, por isso já estava tudo tratado quando nasci para ser adoptado por um advogado e pela sua mulher. Excepto que quando apareci, eles decidiram à última hora que o queriam mesmo era uma menina. Então os meus pais, que estavam em lista de espera, receberam uma chamada a meio da noite a perguntar: “Temos um menino bebé inexperado; querem ficar com ele?”. Eles disseram: “Claro”.

Mais tarde, a minha mãe biológica descobriu que a minha mãe não era formada pelo ensino superior e que o meu pai nunca terminára o ensino secundário. Recusou-se a assinar os papeis da adopção. Só cedeu alguns meses mais tarde quando os meus pais prometeram que eu um dia iria para a faculdade.

E 17 anos depois eu fui mesmo para a faculdade. Mas ingenuamente escolhi uma que era quase tão cara quanto Stanford, e todas as poupanças dos meus pais, que pertenciam à classe operária, começaram a ser gastas em propinas. Ao fim de seis meses, não conseguia ver valor nisso. Não tinha ideia nenhuma do que queria fazer da minha vida nem de que forma é que a faculdade me poderia ajudar a decidir. E ali estava eu a gastar todo o dinheiro que os meus pais pouparam ao longo da vida. Por isso decidi desistir e acreditar que tudo ia ficar OK. Naquela altura foi muito assustador, mas, olhando para trás, foi uma das melhores decisões que já tomei. No momento em que desisti pude deixar de ir às aulas obrigatórias que não me interessavam e começar a frequentar aquelas que pareciam ter interesse.

Nem tudo era idílico. Não tinha um quarto na pensão de estudantes, por isso dormia no chão do quarto de amigos meus, recolhia garrafas de coca-cola pelos depósitos de 5 cêntimos para poder comprar comida e andava 7 milhas para atravessar a cidade todos os domingos para poder fazer uma boa refeição por semana no templo Hare Krishna. Adorava aquilo. E muitas das coisas que encontrei por acaso ao seguir a minha curiosidade e intuição provaram mais tarde não ter preço. Deixem-me dar-vos um exemplo:

A Faculdade Reed oferecia naquela altura talvez a melhor instrução sobre caligrafia do país. Pelo campus fora, todos os posters, todas etiquetas em todas as gavetas, eram magnificamente caligrafados. Como tinha desistido e não tinha de ir às aulas normais, decidi ir a uma aula sobre caligrafia para aprender a fazer aquilo. Aprendi sobre os caracteres tipográficos serif e san serif, sobre como variar a quantidade de espaço ente diferentes combinações de letras, sobre o que torna boa tipografia boa.

Era lindo, histórico, subtilmente artístico de uma forma que a ciência não é capaz de capturar, e eu achava aquilo fascinante.

Não tinha sequer esperança de algo daquilo poder vir a ter uma aplicação prática na minha vida. Mas dez anos depois, quando estávamos a criar o design do primeiro computador Macintosh, voltou-me tudo à memória. E entrou tudo para o design do Mac. Foi o primeiro computador com uma tipografia bonita. Se nunca tivesse frequentado aquele curso na faculdade, o Mac nunca teria tido múltiplos caracteres tipográficos nem fonts espaçadas proporcionalmente. E como o Windows se limitou a copiar o Mac, é provável que nenhum computador pessoal chegasse a ter aquelas características.

Se nunca tivesse desistido, nunca teria ido às aulas de caligrafia, e os computadores pessoais não teriam possivelmente a tipografia maravilhosa que têm. Claro que era impossível ligar os pontos olhando para o futuro quando andava na faculdade. Mas foi muito, muito claro olhando para trás 10 anos depois.

Mais uma vez, não podem ligar os pontos olhando para o futuro; apenas podem fazê-lo olhando para o passado. Por isso têm de acreditar que os pontos irão ligar-se de alguma forma no futuro. Têm de confiar em alguma coisa – no vosso instinto, no destino, na vida, no karma, tanto faz. Esta abordagem nunca me desiludiu e fez toda a diferença na minha vida.

A minha segunda história é sobre amor e perda.

Tive sorte – descobri aquilo que amava fazer cedo. O Woz e eu começámos a Apple na garagem dos meus pais, quando tinha 20 anos. Trabalhámos no duro, e passados 10 anos a Apple tinha crescido de apenas nós os dois a operar a partir da garagem dos meus pais para uma companhia que vale 2 mil milhões de dólares com mais de 4000 empregados. Tinhamos acabado de lançar a nossa melhor criação – o Macintosh – no ano anterior e eu tinha acabado de fazer 30 anos. E então fui despedido. Como podes ser despedido de uma companhia que criaste? Bem, à medida que a Apple ia crescendo contratámos alguém que eu acreditava ser muito talentoso para gerir a companhia comigo, e no primeiro ano, mais ou menos, as coisas correram bem. Mas entretanto as nossas visões do futuro começaram a divergir e eventualmente tivemos um desentendimento. Quando isso aconteceu, o nosso Quadro de Directores tomou a posição do outro. Assim, aos 30 anos eu estava de fora. E de forma bastante pública. O que tinha sido o foco da minha fase adulta inteira tinha desaparecido. E foi devastador.

Não soube mesmo o que fazer durante alguns meses. Senti que desiludi a geração de empreendedores anterior – que tinha deixado cair o bastão enquanto estavam a passar-mo. Encontrei-me com o David Packard e com o Bob Noyce e tentei pedir desculpa por ter feito uma asneira tão grande. Fui um fracasso muito público e até pensei em fugir do vale. Mas algo começou a nascer lentamente em mim – ainda amava aquilo que tinha criado. A mudança de rumo na Apple não tinha alterado minimamente esse facto. Fui rejeitado, mas ainda estava apaixonado. E assim decidi recomeçar.

Não consegui vê-lo na altura, mas ser despedido da Apple foi a melhor coisa que alguma vez me podia ter acontecido. O peso de ser bem-sucedido foi substituído pela leveza de ser um iniciante outra vez, com menos certezas de tudo. Libertou-me para entrar num dos períodos mais criativos da minha vida.

Durante os anos que se seguiram, comecei uma companhia chamada NeXT, outra chamada Pixar, e apaixonei-me por uma mulher maravilhosa que se viria a tornar minha esposa. A Pixar criou o primeiro filme animado por computador, o Toy Story, e agora é o estúdio de animação mais bem-sucedido do mundo. Numa mudança de acontecimentos extraordinária, a Apple comprou a NeXT, eu voltei para a Apple, e a tecnologia que desenvolvi com a NeXT tornou-se no coração do corrente renascimento da Apple. E eu e a Laurence temos uma família incrível juntos.

Tenho a certeza de que nada disto teria acontecido se não tivesse sido despedido da Apple. Foi um remédio com um sabor horrível, mas acho que o paciente precisava dele. Às vezes, a vida acerta-vos na cabeça com um tijolo. Não percam a esperança. Estou convencido de que a única coisa que me fez continuar foi o amor pelo que fazia. Têm de encontrar aquilo que amam. E isto é tão válido para o vosso trabalho como para os vossos amantes. O vosso trabalho vai ocupar uma grande parte da vossa vida e a única forma de ficarem realmente satisfeitos é fazendo aquilo que acreditam ser um óptimo trabalho. E a única forma de fazer um óptimo trabalho é amando o que fazem. Se ainda não o tiverem encontrado, continuem a procurar. Não se contentem com pouco. Tal como todos os assuntos sobre o coração, vocês vão saber quando o encontrarem. E, como qualquer bom relacionamento, torna-se cada vez melhor à medida que os anos passam. Por isso continuem à procura até o encontrarem. Não se contentem com pouco.

A minha terceira história é sobre morte.

Quando tinha 17 anos, li uma citação que dizia algo como: “Se viveres cada dia como se fosse o último, qualquer dia certamente o será”. Deixou uma marca em mim e, desde aí, nos últimos 33 anos olhei todas as manhãs para o espelho e perguntei-me: “Se hoje fosse o último dia da minha vida, quereria fazer aquilo que estou prestes a fazer hoje?” E sempre que a resposta era “não” durante demasiados dias consecutivos, sabia que tinha de mudar alguma coisa.

Lembrar-me de que vou morrer brevemente é a ferramenta mais importante que encontrei para ajudar-me a tomar grandes decisões na vida. Porque quase tudo – todas as expectativas externas, todo o orgulho, todo o medo ou vergonha de falhar – estas coisas desaparecem face à morte, deixando-vos apenas com aquilo que realmente interessa. Lembrar-se de que vão morrer é a melhor forma que conheço de evitar a armadilha de pensar que têm algo a perder. Já estão nus. Não há razão para não seguirem o vosso coração.

Há cerca de um ano fui diagnosticado com cancro. Fiz um exame às 7:30 da manhã e concluiu-se com toda a certeza que tinha um tumor no pâncreas. Eu nem sabia o que era o pâncreas. Os médicos disseram que era um tipo de cancro incurável e que não deveria esperar ter mais de três a seis meses de vida. O meu médico aconselhou-me a ir para casa e por os meus assuntos em ordem, que é código de médico para “prepare-se para morrer”. Significa tentar explicar aos vossos filhos tudo o que pensavam poder explicar-lhes nos próximos 10 anos em apenas alguns meses. Significa certificarem-se de que as pontas estão todas amarradas para que tudo seja o mais fácil possivel para a vossa família. Significa fazer as vossas despedidas.

Vivi com esse diagnóstico o dia inteiro. Mais tarde, nessa noite, fiz uma biopsia, em que me enfiaram um endoscópio pela garganta abaixo, passando pelo meu estomago, até aos meus intestinos, espetaram uma agulha no meu pâncreas e retiraram algumas células do tumor. Estava sedado, mas a minha mulher, que estava lá, contou-me que quando viram as células pelo microscópio, os médicos começaram a chorar porque afinal tratava-se de uma forma muito rara de cancro do pâncreas que pode ser curada com cirurgia. Fiz a cirurgia e agora estou bem.

Foi o mais próximo que estive da morte e espero que seja o mais próximo que vou estar durante mais algumas décadas. Tendo passado por isso, posso dizer-vos isto agora com um bocadinho mais de certezas do que quando a morte era um conceito útil, mas puramente intelectual:

Ninguém quer morrer. Até as pessoas que querem ir para o céu não querem morrer para lá chegar. E no entanto a morte é um destino que todos partilhamos. Ninguém lhe pode escapar. E é assim que deve ser, porque a Morte é provavelmente a melhor invenção da Vida. É o agente de mudança da Vida. Limpa o velho para dar espaço ao novo. Neste momento vocês são o novo, mas algum dia, não muito distante deste, vão tornar-se no velho e serão retirados do caminho. Desculpem estar a ser tão dramático, mas é um facto muito verdadeiro.

O vosso tempo está limitado, por isso não o desperdicem a viver a vida de outra pessoa. Não fiquem presos ao dogma que é viver com os resultados dos pensamentos de outra pessoa. Não deixem que o barulho das opiniões dos outros abafe a vossa voz interior. E, mais importante de tudo, tenham a coragem para seguir o vosso coração e a vossa intuição. Eles já conhecem, de alguma forma, aquilo em que querem realmente tornar-se. Tudo o resto é secundário.

Quando era jovem, havia uma publicação fantástica chamada “The Whole Earth Catalog”, que era uma das bíblias da minha geração. Foi criada por um sujeito chamado Stewart Brand, não muito longe daqui, em Menlo Park, que a trouxe à vida com o seu toque poético. Isto aconteceu nos anos 60, antes dos computadores pessoais e das publicações no ambiente de trabalho. Era tudo feito com máquinas de escrever, tesouras e câmaras polaroid. Era uma espécie de Google em formato de papel 35 anos antes do Google aparecer: era idealista e estava a abarrotar com ferramentas elegantes e grandes noções.

O Stewart e a sua equipa publicaram várias edições de “The Whole Earth Catalog” e então, quando deram tudo o que tinham a dar, publicaram a última edição. Foi em meados dos anos 70 e eu tinha a vossa idade. Na contra capa da última edição havia uma fotografia de uma estrada de campo num amanhacer, o tipo de paisagem que podem encontrar ao andar à boleia, se forem aventurosos. Por baixo estavam as palavras: “Mantem-te faminto. Mantem-te insensato”. Era a mensagem de despedida deles. Mantem-te faminto. Mantem-te insensanto. E sempre desejei isso para mim. E agora, enquanto graduados a começar de novo, desejo isso para vocês.

Mantenham-se famintos. Mantenham-se insensatos.

Muito obrigado!