Teres um blog não te torna num blogger


O que é que andamos a deixar passar? Sim, nós, os críticos do teclado, o que é que estamos a deixar passar? Falo-vos da palha, ou se preferirem, do vazio de conteúdo que é exposto de uma forma tão pública na rede que partilhamos.

Quando a audiência da Visão de Mercado é de dois milhões de visitas por mês, falamos de um canal cujos números estão pelas alturas e onde os leitores voltam repetidamente: that’s money. É um espaço na rede com valor percepcionado e um player na sua especialidade. Não é triste pensar que este blog joga na mesma liga que a menina que tira fotos em frente ao espelho, ou pior, sob um fundo de graffiti onde tudo o que veste foi patrocinado?

Vamos deixar os ecrãs repletos de palha ou vamos validar com o nosso critério a nossa rede? Se deixamos qualquer pessoa com um blog ser um blogger e damos seguimento e atenção, qualquer pessoa pode ser um mesmo blogger e isso lembra-me com urgência a frase when every blockhead has an individuality, individuality becomes a thing for blockheads – acho que não precisa de tradução.

O blogometro tem 1650 no top. E nem deve contar com a nova vaga de blogs pré-fabricados para figuras públicas, onde se mudou o canal, mas ficou a encenação e a interpretação. São a peça ideal para o seu target.

No entanto, há blogs suficiente para existirem demasiadas pessoas a dizer “sou blogger”, quando questionadas acerca da sua profissão, sendo que muitas vezes os blogs não têm nada de extraordinário e, muitas outras vezes, nem são bem escritos.

A quantidade de blogs que são meramente slices of life se calhar não mereciam tanto escrutínio; os tantos blogs apenas documentado outfits manhosos não vão evoluir com o número de voyeurs e de certeza que tanto comentário despropositado e sem noção diz muito mais sobre tudo isto à nossa volta do que possa parecer à primeira vista. Se a reacção fosse um facepalm o resultado seria um praticamente um K.O.

Mas felizmente ainda somos nós com o dedo no cmd + q e devemos ser nós a exigir melhor de onde quer que naveguemos. Somos a mesma pessoa em todas as redes sociais?, se sim temos que manter alguma coerência e se não temos ainda mais por onde esmiuçar. Não vamos dizer que alguém é blogger só porque tem um blog. O que o deve validar deve ser um conhecimento implícito do seu tema, ser um decisor ou curador um passo à frente, alguém que partilha e abre caminho. E isto já se dizia sobre o cool hunting, na New Yorker, em 1997.

Se não for assim, se tudo vale, é natural que o clickbaiting comece a ser o mais eficaz para apanhar na rede o cardume sem critério. O João esteve 30 Dias a comer Gaspacho, O melhor preparador de caipirinhas do mundo é Português, 10 maneiras de se bronzear sem apanhar sol, etc., suspiro.

A teia digital já teceu demasiada informação à nossa volta e se vou ser público, quero ser parte de uma audiência exigente. Daquela que põe de lado os muitos likes e os muito follows, que sabe que numa sociedade idílica a influência devia resumir-se a valor merecido e que tem noção de que a internet é dos últimos sítios onde a podemos aplicar. É preciso resgatar a informação no meio da telenovela.

 

Está perdoado das críticas deste texto quem se incumbe da tarefa de partilhar conhecimento; o propósito nobre que desperta um curador até em quem acerta menos nos coordenados, é nobre à partida e compreensível até quando não vive à altura do hype e do escrutínio com que é, ou não, observado. Fica no entanto o aviso de que até no amadorismo está o perigo de tudo ser patrocinado.

Previsões do Oráculo #2

  • A onda crescente dos blogs construídos para determinada figura pública.
  • Influencers em todas as redes fruto de toda a social media que utilizamos.
  • Canais alternativos com mais público e mais exposição, ou seja, mais mercado.