Sonda europeia Rosetta teve o muito aguardado rendezvous com o cometa 67P


É a perseguição da década: a nave europeia Rosetta apanhou finalmente o cometa 67P/Churyumov–Gerasimenko, representando um marco importante na história da exploração espacial.

Tal como Mozart terá levado 10 anos até ter finalmente composto uma das suas maiores obras, a sonda da Agência Espacial Europeia (ESA) procurou durante uma década e alcançou o até agora inalcançável. A notícia também terá sido música para os ouvidos de cientistas no mundo inteiro.

O relógio marcava 9 horas da manhã em Lisboa quando a Rosetta, alimentada por dois painéis solares com 14 metros de comprimento, começou o processo de aproximação ao cometa, que viaja agora a uma velocidade de 55 mil quilómetros por hora encontrando-se a 405 milhões de quilómetros do nosso planeta. Com a ajuda de propulsores, entrou na órbita do corpo celeste acompanhando-o na sua trajectória à volta do sistema solar, em direcção ao Sol, a uma distância de aproximadamente 100 quilómetros de Chury, assim apelidado por muitos investigadores.

Foi possível acompanhar em livestream tudo o que se tinha passado na Agência Espacial Europeia desde o inicio desta primeira fase da missão cujo sucesso tem ultrapassado as expectativas dos envolvidos no projecto.

Depois de ter sido lançada para o espaço em 2004, a jornada da sonda não foi simples: teve de passar três vezes junto à Terra e uma vez à volta de Marte para acertar a sua direcção, o que permitiu recolher imagens inéditas dos asteróides Steins e Lutetia. Em 2011, foi colocada em hibernação deep space até ser reactivada em Janeiro deste ano, quando se encontrava a nove milhões de quilómetros do aguardado cometa. Para corrigir a trajectória de Rosetta e permitir o encontro com o corpo celeste, foram efectuadas dez manobras entre 7 de Maio e 6 de Agosto. “Cada uma destas manobras foi crucial: se alguma tivesse falhado, o rendezvous não teria sido possível”, lê-se no site internacional da agência europeia.

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A primeira fase está concluída. A Roseta vai começar por descrever órbitas triangulares à volta do 67P e aos poucos passará a descrever trajectórias mais circulares. Depois virá a parte (ainda mais) complicada: a sonda terá de permanecer na órbita do cometa até pelo menos 11 de Novembro, data em que se espera reunir as condições necessárias para aterrar o veículo Philae num dos vários locais que estão a ser considerados na superfície de Chury.

Devido à massa do cometa, que se assemelha a duas enormes rochas (uma maior do que a outra) ligadas de forma assimétrica, o campo gravitacional deste corpo é muito fraco, o que vai dificultar a fixação do veículo. Philae usará um sistema do género de um arpão “explosivo” que, esperançosamente, permitirá a sua aterragem.

Se tudo correr bem, o veículo espacial irá recolher informações sobre a estrutura, composição e origem do cometa, enviando-as para a sonda Rosetta que por sua vez transmitirá todos os dados para a ESA.

Os cometas são considerados dos corpos celestes mais antigos do sistema solar e espera-se que a partir destes se obtenham informações mais precisas relativamente à origem do nosso sistema planetário e até mesmo dos seres vivos: pensa-se que as matérias primas que constituem os planetas terão vindo destes corpos primitivos rochosos, elementos tão essenciais para a vida como a água (que se teoriza também ter surgido graças a estes gigantes celestiais).

“Percorremos um caminho extraordinariamente longo desde que o conceito da missão foi discutido pela primeira vez nos finais dos anos 70 e aprovado em 1993, e agora estamos prontos para abrir um baú do tesouro da descoberta científica que está destinada a reescrever os livros académicos sobre cometas durante as próximas décadas”, explica Alvaro Giménez, Director de Ciência e Exploração Robótica da ESA, no site da agência.

Espera-se que a sonda, que visa desvendar mistérios celestiais, permaneça na órbita do cometa até Agosto do próximo ano, permitindo uma perspectiva nunca antes possível do processo que se dá quando um cometa se aproxima do Sol e milhões de partículas e gases se libertam formando a longa (chega a ter mais de um milhão de quilómetros) cauda que tantos deslumbra quando visível da Terra.

Fonte: ESA