Poptimismo: mudar a crítica para mudar o Mundo


Sempre admirei muito as pessoas que fazem crítica – num sentido cultural do termo – fazer uma crítica digerida não é fácil, fácil é dizer mal, como eu faço, fazer piadas parvas, como eu faço de forma quase proficiente e até insultar, coisa que todos fazemos, preferencialmente em conjunto.

Atravessando a retórica, tanto no secundário como na faculdade, e a construção de argumentos sólidos (que se for um interesse vosso, recomendo o curso online Think Again: How to Reason and Argue, disponível gratuitamente), foi preciso sofrer ao longo de muitos argumentos dedutivos até encontrar conclusões sinceras nos parágrafos finais.

No meu caso, rapaz de Setúbal que passou de gostar dos CDK Crew – quando ainda se chamavam Mc Produções – para um gosto lato e abrangente que me exigiu anos de iPod, torrents, downloads e, felizmente, alguns discos de vinil, a crítica sempre foi um objectivo pensado, mas um osso duro de roer em termos conceptuais.

E é aqui que surge o debate de Poptimismo vs. Rockismo, derivações aportuguesadas por mim dos termos popism e rockism. O rockismo é qualquer coisa como apreciar um trabalho com mestria técnica, uma construção sólida e racional, que tem algo a dizer (este ponto é muito importante) e que vale como obra – dando um exemplo básico: Dark Side of the Moon. O Poptimismo é a corrente avessa, nascida na década passada e que decreta como bom ou como satisfatório uma música com um vídeo giro, um disco com um óptimo single, um filme como efeitos especiais que me fizeram levantar da cadeira.

Podemos resumir da seguinte forma e evitar os nomes que dão forma às correntes assim: College Dropout de Kanye West é um disco de hip hop ideal para o prisma rockismo, Take Care de Drake é o disco de hip hop ideal para um poptimista.

E nada disto faz mal, porque um bom crítico vai entender que ambos os pontos de vista são possíveis, mesmo quando seguem por aí fora cheios de amor à, respectiva, camisola. E há outros debates tão ou mais legítimos como genuinidade do indie num mundo de web mainstream, a obsessão pelo fresco ao invés do formulado, como passar uma mensagem na era do caos ou como contornar a força do hype.

Com o tempo, e na verdade, não foi assim tanto tempo, comecei a ter problemas sérios com opiniões mal fundamentadas, com as críticas xaroposas da revista musical, com os critérios ambíguos do blog online, com a arrogância do haute coolture e foi aí que se fez o meu clique de que crítica é o que tu quiseres fazer dela e que consoante o teu nível de vinco, mais ou menos vincados serão os que te procuram e validam.

Isto para fazer uma conclusão, em jeito de passo maior que a perna, aliás, um momento de conclusão maior que o seu próprio argumento e deixar dito (ou melhor, relembrar-vos) de que está nas vossas mãos o poder de validar o vídeo giro da banda pop, ou achar uma autêntica seca aquela ida ao Maria Matos. E se fizéssemos isto de uma forma formulada e racional para uma série de outros aspectos da nossa sociedade, fogo… até o governo nos temia.

 

Previsões do Oráculo #3

  • Só com o evoluir da crítica para raciocínio justificado, independentemente da corrente ou perspectiva, é que podemos persuadir ou explicar o mundo.
  • Quanto toda a gente vê os gifs/vídeos/links do que a celebridade fez no dia anterior e os partilha logo de manhã, é difícil não concordar que o futuro será do poptimistas.
  • Um elitismo cultural reforçado pela maior trend de lifestyle em tantos anos e um futuro assunto do oráculo: o hipster.
  • A utilização de pitchforks como tastemaker onde as pessoas que formam opiniões vão formar as opiniões delas, estreitando continuamente a informação e a mensagem.