Jack White – ‘Lazaretto’


Jack White é um génio. Um verdadeiro Midas da música que empresta a sua criatividade a vários projectos, cada um melhor que o outro (ouvir Raconteurs, Dead Weather – não é preciso referir os White Stripes, espero). O seu portefólio só melhorou quando lançou, em 2012, o primeiro álbum a solo, Blunderbuss, um trabalho de nota 20.

Serve este ponto prévio para justificar o facto de não ter sido totalmente arrebatado por Lazaretto, assim que começou a rodar “Three Woman”, uma espécie de “eu tenho dois amores”, só que melhor (a começar pelo número de mulheres). Já estava à espera de excelência. Jack White já não me consegue surpreender, porque já sei o que esperar dele: música muito boa.

Não quero com isto dizer que John Anthony Gillis (sim, é o nome verdadeiro de Jack White) é unidimensional ou previsível. A forma como consegue transformar-se sempre que decide mergulhar num novo projecto apresentando sempre algo de novo, mas conseguindo, inexplicavelmente, manter sempre o seu “something” característico, prova o contrário.

Nos seus trabalhos a solo, Blunderbuss e Lazaretto, White vai buscar influências aos quatro cantos da música mas, invariavelmente, celebra um casamento muito feliz entre o rock e o folk/country. É raro o riff de guitarra que não esteja acompanhado por um violino ou pianola, acabados de sair de um saloon do Velho Oeste. O conceito de Country Rock não é novo, mas White trabalha-o como deve ser. Em “Just One Drink”, o choque entre os solos de violino e piano e uma bateria que poderia ter saído de uma música dos Dead Weather é tão agressivo que, surpreendentemente, resulta. Quando, quase a fechar o álbum, acabo de ouvir “I Think I Found The Culprit”, uma música que cruza harpas com baterias e funde guitarras distorcidas com coros angelicais, não restam dúvidas nenhumas na minha cabeça: isto sim, é a verdadeira fusão. E é fusão da boa.

Os cerca de 39 minutos que compõem Lazaretto podiam ser considerados um programa de exercício para os ouvidos, tal é a multiplicidade de texturas e instrumentos presentes. Ainda estou a tentar descortinar quantos instrumentos é que tocam o riff principal da “That Black Bat Licorice” quando uma tarola peculiar chama a minha atenção. Antes que tenha tempo de perceber quantos tipos de tarola diferentes usa White ao longo de Lazaretto (provavelmente 11, uma para cada música) já outro pormenor invadiu a minha mente, seja um delay isolado, um sintetizador tão sintético que roça o abuso (mas que resulta) ou um strumming de guitarra puramente rítimico.

O riff de baixo da faixa-título (uma vénia a Jack White: quem mais conseguiria colocar um solo de “fiddle” a rockar em rádios por todo o mundo?), repleto de distorção e delay perfeitamente balanceados entre os phones/colunas, é o exemplo perfeito de que em Lazaretto nada é deixado ao acaso.

Lazaretto não é uma reinvenção daquilo que ouvimos em Blunderbuss, nem tampouco uma evolução. É uma continuação do raciocínio Country Rock muito próprio de White (as sessões de gravação até começaram logo em 2012, durante a tour de Blunderbuss), que se traduz garantidamente num dos melhores álbuns do ano. Como já se esperava.