FUSING 2014: dia 1


Uns calções pretos, justos – quase em fusão com o corpo –, uma camisola azul escura que, com um nó, passou a chapéu e uns ténis da adidas pretos, que dentro em breve não mais farão parte da indumentária estilo surviver. Pantónio ainda anda pela Figueira da Foz a trabalhar no mural exposto em frente ao palco principal do FUSING. Um mural de tendência circular – como se fosse dar início a uma espiral – que, visto de longe, parece delimitar o espaço entre o recinto e o mar. Está vento, mas o sol aquece. Nada de t-shirt e agora nada de ténis – apenas os calções pretos, com salpicos de azul turquesa – as cores do mural. “Ele é aquele que tem um nome engraçado” – há quem o conheça do facebook – “até pintou um moinho.” fusing14_dia1_sensiblesoccers O FUSING é um festival com praia – quase um festival na praia. Na zona do Cooking Louge Pingo Doce os pés enterram-se na areia – todo um espaço construído com caixas de fruta, que conjuga os dois palcos onde provavelmente mais se improvisa. Se num deles Mário Santos apresenta o seu saxofone e o seu quarteto, no outro Célio Cruz prepara um bolo de limão que, apenas pelo cheiro, consegue cativar o grupo de ouvintes, sentado na relva sintética, que espera pelo momento da degustação. “Podem provar, senão depois arrefece.” Palavras mágicas: o que era bolo, já não é.

Ainda é cedo para os dois palcos do festival receberem as bandas – aquelas que chamam mais pessoas, pelo menos. Pantónio continua a pintar com o sol a bater-lhe nas costas. Uma dinâmica entre o seu esboço, a sua força de braços, uma versão reduzida de andaime, tinta, uma bandeja e uma cadeira velha. “Essa cadeira é para o pessoal se sentar. Dá assim um ar cinematográfico”, afirma. Uma hipótese mais confortável para quem quiser perder algum tempo a observar o mural. As figuras (humanas?) fundem-se numa sugestão de movimento e fluidez conseguida através de pés, mãos, faces unidas – mas nem sempre – por aquilo que talvez corresponda a cabelo. “Eu não tenho nada a dizer sobre isto. É apenas aquilo que está à vista. Se o tiver de explicar quer dizer que está mal concebido.” fusing14_dia1_slowmagic O Palco FUSING começou a meio gás com For Pete Sake (os autores de Got Soul– hino da EDP) mas compôs-se com Capicua. No entanto a festa deu-se no Palco EXPERIENCE – Noiserv, First Breath After Coma, a saltar para a electrónica com Sensible Soccers, Slow Magic, White Haus e Trikk – DJ português que se lançou em Londres e que actua por cá uma vez por outra: “Ainda só toquei em Portugal uma vez, no Super Bock Super Rock. Acho que aqui as pessoas andam muito numa de espreitar. Não se prendem muito a um palco. Acaba por ser bom para elas, mas mau para os artistas”, afirma. Um facto que, a corresponder ao que realmente acontece, não se verificou em Slow Magic. O difícil foi mesmo afastar o público – e o amigo imaginário – do recinto. Um apelo com direito a presença de elementos estranhos em palco (troca de palavras entre o artista e membros responsáveis pelo espectáculo), numa tentativa de encurtar a duração do concerto – ideia que o próprio não se inibiu de passar para os seus ouvintes, através de constantes gesticulações – sempre com atenção aos possíveis pormenores que o pudessem identificar, uma vez que mantém o interesse em ocultar a sua verdadeira identidade – como o apontar sistemático para o relógio seguido da habitual heartshape.

O Pantónio vai continuar a pintar o seu mural ao longo dos dias do festival. Um processo de aproximação e afastamento constantes – o pormenor e o geral. Faltam acabar umas mãos e uns pés. “Bem… Tenho de continuar a pintar mais cordas.”