A grande exposição do fumo português


Na sequência da tomada de posição do New York Times no domingo passado, permiti-me imaginar a possibilidade de um Portugal com o consumo de marijuana legalizado, observando os exemplos americanos, holandeses e uruguaios antes de concluir que a nossa passividade e incapacidade de discutir é sempre imposta a uma possível revenue económica.

Tenho uma ideia de qualquer texto que aborde uma polémica corrente é como um malabarismo de três peças de fruta, quando corre bem é minimamente impressionante, quando corre mal é uma desgraça completa; fica aqui o texto sobre uma fruta que se consome muito, mas se fala pouco.

Sejam bem vindos ao O R Á C U L O.

 

Pois pá, eu também não sabia que ia ser assim. Quando isto começou como um emprego em que supostamente ia vender erva às pessoas, torci logo o nariz no centro de emprego. Afinal, eu estava farto de estar em casa, mas não me ia meter em nenhuma ilegalidade pelo bem de trabalhar. Quando a Dr.ª Sandra me disse que ia estar a vender erva na Praia da Rocha em Portimão, tive que aceitar, mas só depois de ter sido esclarecido acerca da nova legalidade da cannabis em Portugal.

Assim, sim.

Eu confesso que também tinha um certo preconceito e que até dizia que quem fumava muito disto só tinha um caminho, a droga. Afinal quando passava na TVI, os manos na marcha da legalização da marijuana eram sempre deslavados e desdentados. Mas a verdade é que a legalização arranjou trabalho a muita gente, ficaram foi os famosos dealers com muito menos trabalho. Também já vos sei dizer, de certeza, havia muita gente que fumava e não punha os pés na marcha, era de fininho. Seria vergonha ou preconceito?

Eu cá, assim que comecei a trabalhar aqui, comecei logo a mudar as minhas opiniões. Os clientes? Tantas vezes ingleses bem postos que estão aqui a passar a reforma e acham um croissant ou um pastel de nata muito mais delicioso depois de um wake and bake!, a sério pá, logo de manhã. Claro que depois de almoço é que isto começa a meter malta a sério, já vêm com um peixinho grelhado no bucho, vão para a praia lá com as umbrelas deles e só precisam do tempo de enrolar mal e porcamente para parecerem chaminés.

É fixe porque sempre ponho o inglês em prática, mas também é fixe para o Zé e para o Nélson que também estavam desempregados. O Zé anda com a carrinha e chega a ir ao Alentejo buscar grandes fretes aqui para a casa, mas tudo impecável, ahn! Um projeto do governo em que só se produz erva da mais alta qualidade e com umas marcas finas e tal, para ser exposta na Grande Exposição do Fumo Português. Também temos aí um puto que trata da nossa hortinha aqui mesmo da loja, é nice porque emprego para o curso dele também estava escasso aqui no sul.

Nos meses de verão temos de estar abertos à noite e tudo tal é a procura, mas não são só os camones que fumam. As más línguas dizem que os mais novos também andam a fumar mais e eu bem os vejo a virem cá tentar comprar de surra, mas isso é um cuidado que não nos podemos esquecer, as gerações futuras tendem a ficar com os vícios das anteriores.

Com o Colorado, com o Texas e com a Califórnia a mostrarem o caminho da venda da fruta e com os resultados espetaculares que os cigarrinhos para rir estão a demonstrar do outro lado do Atlântico, era só uma questão de tempo até se mudarem as mentalidades.

Também verdade seja dita, entre ser ilegal e toda a gente fazer, como era tal e qual ainda há bem pouco tempo, talvez seja melhor estarmos assim e deixar toda a gente relaxar um bocadinho.

Quero é ver se o governo faz mesmo o que disse e investe o imposto disto na escola e na saúde e na educação, como os portugueses tanto querem, mas essas respostas são sempre muito menos naturais que as da horticultura ou a botânica.

 

Previsões do Oráculo #1

  • A discussão da cannabis continuará a ser atrasada devido aos interesses nacionais e à agenda europeia.
  • Mais teenagers a consumir porque é tendência, é bué hip pop e a malta acha fixe.
  • A continuação dos closet smokers com medo da repercussão social que ainda paira no ar.
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