10 livros que não são de Verão para o Verão


Verão é sempre altura de recomendação. Pôr o protetor solar, ter cuidado com a hora do sol, evitar os mergulhos depois de almoço, etc. No Shifter quisemos fazer uma recomendação diferente, escolhida a dedo para ti e longe dos clichés que o Verão costuma trazer.

É por isso que a nossa lista de livros de Verão se foca em títulos que não têm nada a ver com a estação mais quente, mas que são a escolha da nossa equipa editorial dos livros que mais vais gostar de ler. Para leituras frescas, para leituras à sombra e para leituras bem longe daquelas cinquenta sombras.

“A Morte Sem Mestre” – Herberto Helder

Porque os dias de Verão nem sempre escondem emoções mais negras, o mais recente Herberto Helder é uma colectânea de pensamentos mórbidos, janelas abertas nostálgicas e saudade por terras e verões mais vivos. O primeiro Herberto a ser alvo de mixed feelings por parte da crítica em muito tempo, não deixa de ser uma das nossas sugestões para um verão de emoções no papel.

“Jóquei” – Matilde Campilho

Poesia adocicada que sabe bem em dias quentes e ilumina os mais nublados. A obra de estreia de Matilde Campilho mistura pessoas que se tratam por você, o sotaque brasileiro e solheiro e as referências encantadoras a uma América do nosso imaginário. Para quem quiser de experimentar uma bossa nova escrita.

“Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children” – Ranson Riggs

Para quem quer fugir ao cliché de livros leves e românticos em noites amenas de Verão, o primeiro livro do americano Ranson Riggs acrescenta uma pitada de mistério e curiosidade ao romance. Cativante desde a primeira página, a escrita de Riggs transporta-nos entre presente e passado, numa história que começa com uma tragédia familiar e que se desenvolve quando o jovem protagonista americano viaja para Wales decidido a explorar o orfanato, agora abandonado, onde o seu avô passou a adolescência, acompanhado de pessoas muito especiais.

Um livro cujo maior destaque vai para as fotografias vintage que o autor coleccionou ao longo dos anos e que acompanham a história, sendo o ponto base da narrativa.

“Quinto Livro de Crónicas” – António Lobo Antunes

António Lobo Antunes é aquele nosso avô que nos parece dar, constantemente, lições de vida, mesmo quando nos diz coisas triviais, com aquele tom de voz solene. O Quinto Livro de Crónicas pode muito bem ser esse embrenhado de lições de vida. Ou então meras “palavras que se engendram umas às outras”, como gosta de sublinhar um dos maiores nomes da literatura lusófona.

Este compilação de pequenos textos publicados na revista Visão é uma excelente escolha para as introspectivas leituras de praia, até porque, como crónicas que são, não requerem a leitura contínua do livro (e, convenhamos, tem muito mais piada sermos nós a comandar a leitura, saltitando de capitulo em capítulo!).



”A Vida no Céu” – José Eduardo Agualusa

“Depois que o mundo acabou fomos para o céu.” A Vida no Céu desenrola-se a partir do ‘dilúvio’, algures no próximo século. O que obriga toda a humanidade a ir viver para dirigíveis no céu. Cada dirigível tem o nome de uma cidade. Falamos de multiculturalidade, ou não fosse Carlos Tucano, o protagonista da história, um nefelibata que nasceu já na geração dos “filhos do céu”. Carlos parte à procura do pai, desaparecido, dando o mote à história.
O romance de José Eduardo Agualusa desenrola-se nessa nova noção de humanidade.

Cada capitulo do livro é uma definição do alfabeto dos nefelibatas. “Esperança”, lê-se, “é o nome que damos às nuvens quando nos falta a água” e talvez este A Vida No Céu seja mesmo uma história de esperança.

“Engano” – Philip Roth

Este pode não ser o livro mais refrescante para este verão, mas é sem dúvida uma óptima solução para evitar a exposição às conversas desinteressantes e ao sotaque acentuado da generalidade dos emigrantes que invadem o país por esta altura. Considerada pela crítica pop internacional uma das obra menores de Philip Roth, talvez seja mesmo esse o estatuto que o autor prefere para o que nos apresenta em Engano.

Poderia dizer-se que é uma obra engenhosa e inteligente, mas isso deixar-nos-ia aquém do que este imenso e constante diálogo oferece. O desafio intelectual entre as personagens e a tensão que isso provoca entre dois amantes, ambos casados, atribui um estatuto à obra que dificilmente será aceite por unanimidade. O auto-questionamento que resulta das constantes perguntas desprovidas de qualquer complexo acaba por sair do papel e trazer algo mais a quem lê do que apenas uma boa história.

“Occupy” – Noam Chomsky

É um livro de respostas, em todos os sentidos, para todas as estações do ano. Trata-se de uma compilação das principais entrevistas e discursos do famoso filosofo americano perante o movimento occupy. Num livro de leitura rápida, Chomsky escrutina alguns dos principais problemas dos EUA e um pouco de todo o mundo, contrapondo-os com soluções concretas e novas politicas. Occupy é a triste realidade e a réstia de esperança, um livro de leitura obrigatória e que conta com um “Manual do Manifestante ao abrigo da Lei Portuguesa” como último capítulo.

“Norwegian Wood” – Haruki Murakami

Norwegian Wood é um clássico de Haruki Murakami que embora não tenha sido a sua primeira obra publicada pode ser o primeiro passo para todos aqueles que não conhecem a sua escrita.  O livro conta a história de Watanabe, um jovem japonês que vive uma dualidade no amor. Naoko é uma jovem internada num instituição de reabilitação e Midori é uma rapariga activa e independente. Com palavras sublimes mas intensas, Murakami leva-nos a viajar por um mundo sexual e apaixonante onde os limites do corpo não têm regras.

Tudo encerra um significado muito próprio e peculiar. O próprio nome do livro, é uma homenagem a uma canção dos Beatles, e a sua letra, diz muito da vida de Watanabe.

“Os Paraísos do Caminho Vazio” – Rosa Liksom

Também se pode sentir o verão sob a luz de um sol de meia noite – é assim que se vive perto dos pólos e é neste ambiente que se escreve. São os “Paraísos do Caminho Vazio” que Rosa Liksom tanto faz questão de observar. Uma Helsínquia vista pelos olhos de (alguém que não ela?) um repelente de mulheres, íman de psicopatas, viciado em antidepressivos e que, de vez em quando, foge para outra dimensão – em jeito de repouso deste mundo. Tudo isto oferecido em forma de estalo – directo, claro, conciso, com direito a marca no fim – e aos solavancos, porque as histórias não têm de ser contadas de seguida (ou contadas de todo).

“Sunset Park” – Paul Auster

Para aqueles que estão familiarizados com a obra do nova-iorquino Paul Auster, a procura de identidade, a coincidência e a sensação de desastre iminente são temas recorrentes nos seus livros. Sunset Park não é excepção. Auster transporta-nos para uma América no ano de 2008 em plena recessão económica em que quatro jovens ocupam uma casa abandonada em Brooklyn, mostrando-nos o dia-a-dia deste grupo e oferecendo-nos a sua visão de uma geração que se sente perdida. Embora o escritor crie um universo denso de personagens e eventos, o enredo de Sunset Park segue uma direcção mais linear que trabalhos anteriores.

Livro extra

“A Piada Infinita” – David Foster Wallace

Quem gostaria que o Verão durasse para sempre? Provavelmente todos nós e agora há uma forma fácil de parecer que dura mesmo, basta começar a ler A Piada Infinita de David Foster Wallace. Com mil e duzentas páginas de letra miudinha e 388 anotações do autor, este é um livro que quebra a narrativa para ser sobre linguagem, tristeza e tudo o que há de humano. Recomenda-se a quem tiver verões longos.

(João Ribeiro, José Crespo, Maria Rita, Mariana Dias, Miguel Mestre, Pedro André Esteves e Raquel Rebelo contribuíram para este artigo)