Viagem aos confins da vergonha


É a nossa epidemia coletiva.

Toda a gente diz algures, nalgum momento, de preferência nas redes sociais ou num sítio público, que o nosso país é uma vergonha. E sempre que isso acontece, acontece magia: os likes, os comments, os shares disparam; os acenares de cabeça aumentam; toda a gente entra em consenso. Portugal não presta é um tema muito querido dos portugueses. É claro que há sempre os “no sentido contrário”, mas mesmo esses respondem no mesmo cumprimento de onda dos descrentes, rebatendo argumento a argumento, o que se torna contraproducente.

As críticas seguem sempre o mesmo padrão: “fui a uma repartição de finanças e trataram-me mal… este país é uma vergonha”; “apresentei um trabalho genial num cliente que não percebeu nada… que nojo de nós”; “li no jornal que um ministro adjudicou uma empreitada a um amigo, sem concurso… isto só neste país”.

Tudo isto tem zero novidade.

Portugal ser uma vergonha não é sequer uma teoria, é um sentimento. Quem nasceu em Portugal, cresceu em Portugal, viveu em Portugal, conhece a lengalenga.

Mas há algo que me perguntei sempre: seremos assim tão mestres na vergonha, como nos auto-proclamamos? Seremos mesmo os CR7 do fundo do poço? Será que tudo o que dizemos que acontece “só neste país”, só acontece mesmo neste país? O meu problema é sobretudo de legitimidade: teremos razão em puxar dos galões de tão nefasta distinção?

À partida, a resposta deve ser “sim”. São tantos os portugueses de valor a acenar a bandeira da vergonha, que se tantos portugueses de valor chegaram a essa conclusão, tantos portugueses de valor não podem estar seguramente errados. Mas vamos supor que estão. Vamos supor que, por um desígnio misterioso, todos eles são vítimas de um nevoeiro emocional súbito, que lhes turva a lucidez. Apenas como exercício de contraditório.

O meu ponto de partida foi este.

Seguidamente, fiz aquilo que se faz quando se quer saber alguma coisa: fui descobrir. Decidi pesquisar se teríamos o exclusivo da vergonha, ou se a vergonha é algo comum a outras nações do globo, o que nos privaria da legitimidade para afirmarmos que factos vergonhosos “só neste país”.

Mas só a territorialidade da vergonha não me chegava. Pesquisei também a sua originalidade. Será que no campeonato da vergonha-na-cara, Portugal pode reclamar para si a medalha de ouro? Prata? Bronze, ao menos?…

Não pretendi fazer disto uma investigação académica, nem sequer uma investigação pura, apenas um exercício exploratório. Quis encontrar situações vergonhosas em sites e publicações estrangeiras, na esperança de identificar a sua irrefutável origem portuguesa, de que falam tantos portugueses de valor e assim conferir legitimidade à sua, tantas vezes professada, tese.

Agora, chega de conversa. Partamos, então, nesta peregrinação aos confins da vergonha lusitana.

UM. A primeira notícia com que me deparei é de 16 de Abril, veio em todos os jornais e tem um elevado potencial vergonhoso. A história é trágica e é a seguinte: um cacilheiro começou a afundar-se no mar e os tripulantes pediram aos estudantes que o enchiam para não saltarem borda fora, o que permitiu salvar os tripulantes, mas não os estudantes. Morreram 292 pessoas. Quase todos adolescentes. Deixou uma nação de luto.

O comportamento da tripulação é tão escandalosamente vergonhoso que só pode ter acontecido em Portugal, o que prova que…
… não, espera, foi na Coreia do Sul, não foi cá…
… bizarro. Mas seguramente houve algum português envolvido, já que toda a gente sabe que nós somos os reis da vergonha… … não, os sites estrangeiros não falam em portugueses entre os tripulantes. Só sul-coreanos. Esta vergonha é alheia aos portugueses. Que maldade privarem-nos assim da coroa que tantos portugueses de valor gostam de ostentar.

Não nos deixemos abater por este percalço. Esta é seguramente a exceção que confirma a regra. Até porque este incidente sul-coreano tem uma escala épica e toda a gente sabe que nós apenas somos vergonhosos em pequena escala, o que até isso é vergonhoso. Continuemos então a nossa demanda vergonhosa, com redobrado entusiasmo.

DOIS. Outra notícia desgraçada. Há autarquias a colocar picos metálicos debaixo de pontes e arcadas para impedir que se tornem pontos de descanso para os sem abrigo, evitando que eles se fixem nas suas cidades e obrigando-os a rumar a outras paragens.

Que vergonha, Lisboa e Porto, como é que podem ser tão cruéis e negar o direito ao descanso a outros seres humanos, isto só neste país…
… espera, espera, isto passa-se na Grã Bretanha e no Canadá. Tudo bem, foi no estrangeiro, mas de certeza que foram as nossas comunidades emigrantes a impor…
… não, não foram, os picos não têm nada a ver connosco.

Ok, começa a instalar-se um certo nervosismo. Pode ser apenas coincidência. Não percamos a fé no primado da vergonha nacional. Em frente.

TRÊS. Agora uma reportagem no The Guardian de 10 de Junho. Os camarões que se comem nas cadeias de supermercado Tesco, Walmart e Carrefour, foram pescados por barcos de escravos. Fala-se em turnos de 20 horas, espancamentos, tortura e execuções sumárias. Escravos no século XXI! Que vergonha verdadeiramente vergonhosa.

Esta de certeza que é culpa nossa. Nós, portugueses, somos tu-cá-tu-lá com mar, barcos, pescas e temos um passado de ir buscar escravos a África, pelo que de certeza que fomos nós que…
… uops, não fomos. Fala-se em tailandeses. É melhor reler o artigo, de certeza que saltei a parte onde diz que…
… nada. Droga! E agora? O que é que eu digo a tantos portugueses de valor que partilham no Facebook as suas recriminações tão justas contra o estado vergonhoso do nosso vergonhoso país? O planeta conspira contra nós. Querem roubar-nos a vergonha. Miseráveis. Mas não pensem que vencem. Nada me demoverá no meu propósito. Tantos portugueses de valor, não vos deixarei ficar mal! Em frente.

QUATRO. Esta é terrivelmente vergonhosa e é de Março. O zoo abateu uma girafa e desmembrou-a à frente dos visitantes. Não contente com isso, matou mais 4 leões saudáveis, porque ia chegar um leão mais velho que daria cabo deles, pelo que não acharam nada melhor do que acabar com eles primeiro.

Que vergonha, Zoo de Lisboa, como é que um jardim zoológico com tanta tradição na defesa dos animais pode…
… não?!!!
… Não foi em Lisboa?
… Aparentemente o zoo serial-killer é dinamarquês. Inacreditável. Há algo de podre num reino que não é a nossa república. Como é possível? Como é que o mundo permite que tantos portugueses de valor fiquem tão mal vistos? Injustiça, é o que vos digo. Essa vergonha devia ser nossa, não dos vikings.

Ok, última hipótese. Vamos lá.

CINCO. Esta vem no Courrier Internacional de Junho. No verão de 2012, um exército ocidental construiu uma base antiterrorista na Líbia, que alguns meses depois se converteu numa base de um grupo ligado à Al-Qaeda.

Numa palavra: vergonhoso. Como é que as forças armadas portuguesas puderam ser tão incompetentes ao ponto de…
… espera, foram os americanos. Diz lá “os boinas verdes”. Mas de certeza que meteu a NATO e os nossos compatriotas ao barulho…
… não, nada disso. Esta é exclusiva do tio Sam. Não houve portugueses no processo.

Não sei que vos diga… estou devastado. Cinco notícias vergonhosas, cinco autênticas bombas, nem uma verificada neste país, nem uma passada com portugueses.

Resta-me dar o passo seguinte. Tentar perceber porque é que tantos portugueses de valor têm tanta vergonha do nosso país quando, pelos vistos, Portugal é um menino no que toca à Copa do Mundo da Vergonha.

Aparentemente, ser mal atendido num call center não prova que o nosso país é uma vergonha, prova só que se foi mal atendido num call center. Comparar isto com escravos tailandeses, picos contra sem abrigo britânicos, tripulantes de cacilheiros irresponsáveis e tantos outros acontecimentos deste calibre, parece assim um pouco… pífio.

Sou obrigado a concluir que a esmagadora maioria das nossas vergonhas são banais. Desagradáveis, sim, mas banais. Nada que justifique a exclusividade da vergonha que tantos portugueses de valor tão prontamente apregoam.

Suspeito que o problema é nosso. E não é por sermos vergonhosos – não somos – mas por estarmos mal habituados. A culpa não é nossa. Apenas não estamos treinados para identificar verdadeiras vergonhas. No que toca à vergonha, somos poucochinho. Não é por acaso que inventámos uma expressão que prova a nossa falta de competência na matéria, a famosa “que pouca vergonha”.

Em Portugal, somos pouco postos à prova. Tem a ver com a geografia. Estamos num canto duma península e temos um oceano à frente. Leva-se muito tempo a cá chegar. Leva-se muito tempo a sair daqui. Como estamos longe, romantizamos o estrangeiro. Se Portugal inteiro tivesse emigrado para o Leste da Europa ou para o Médio oriente, teríamos levado com exércitos de anexação, invasões, violações, mutilações, casas terraplanadas por tanques, campos de tortura, a nossa família em pânico à nossa frente, ano sim, ano não. Mas não. Quis a geografia que fossemos poupados a tudo isso. Como não passamos por situações traumáticas, falamos nelas como se existissem.

Tenho 4 filhos, todos rapazes. Se tivesse nascido na Síria, no Afeganistão, na Crimeia, na Colômbia, era muito provável que pelo menos 2 deles fossem um dia recrutados para combater e eu andaria de coração nas mãos. E se, em vez de filhos, tivesse filhas e vivesse na Nigéria ou na Moldávia, andaria de coração nas mãos, porque haveria uma probabilidade real de milícias rebeldes as raptarem para servirem de prostitutas ou serem vendidas a redes de tráfico humano.

Temos todos a “infelicidade” de termos poucos traumas. Veio cá pouca gente. Os exércitos de Napoleão, os castelhanos, um terramoto, a gripe espanhola. Mas, se comparado com outras nações, é poucochinho. As guerras mundiais não nos visitaram. Nunca fomos bombardeados. Ninguém tentou limpar-nos da face da terra, como aconteceu com judeus, índios, arménios, timorenses, curdos, ciganos ou cátaros. Para nos metermos em sarilhos, tínhamos de nos meter em barcos. Mas só partiram alguns. A maioria ficou cá.

Outros povos aceitariam de bom grado a nossa sorte geográfica. Perguntem aos polacos e ucranianos que ficaram ensanduichados entre alemães e russos. Aos russos, que levaram com tártaros, franceses e alemães. Aos egípcios, que foram cilindrados por gregos, romanos, árabes, franceses e israelitas. Aos israelitas, que apanharam com tudo o que é árabes, tanto na versão exércitos, como em células terroristas. Todos estes povos têm traumas de peso. Nós ficámos com traumas de peso-pluma.

Dizer “isto só neste país” como se tivesse caído a Lua, é, não só exagerado, como ofensivo para outros povos, que levam com barras muito mais pesadas e não se queixam.

É claro que Portugal não está imune a vergonhas, mas não são nada do outro mundo, são apenas normais. Corrupção, negociatas, atrasos, incompetência, o trivial. Há que combatê-las, mas é absurdo meter o país inteiro ao barulho por dá cá aquela palha.

Esta normalidade da vergonha, esta “pouca vergonha” literal, é algo que devíamos saber celebrar. Não são necessárias festas, feriados ou estátuas. Bastava sentir uma pontinha de orgulho e partilhá-la. “Fui a um hospital público e, mesmo sem seguro de saúde, trataram-me de tudo. Isto só neste país.”

(originalmente publicado no Buzzmedia)

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